Grupo de Economia da Energia

Uma OPEP travada pela Estrutura de Oferta do Petróleo: o que esperar da evolução dos preços?

In petróleo on 21/11/2016 at 00:15

Por Helder Queiroz

helder112016O mercado do petróleo voltará atrair a atenção internacional neste final de ano. A esperada reunião da OPEP marcada para a última semana de novembro visa sinalizar uma ação concertada dos países exportadores com relação à decisão de controle da produção. Historicamente, o consenso no âmbito da OPEP nunca foi facilmente obtido. Dessa vez a decisão envolve outros países não-membros, em particular, a Rússia no intuito de evitar que os preços voltem a cair para os níveis observados, por exemplo, no início deste ano (Gráfico 1).

Gráfico 1- Evolução do Preço Internacional do Petróleo – 2016

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Como já foi destacado em outros textos, a queda recente de preços desde 2014 foi muito acentuada, saindo de U$$ 100 por barril , em julho de 2014, para o patamar  para cerca de US$ 25 em janeiro de 2016.

Isto representou a perda de mais de 350 mil empregos na indústria e uma redução forte dos programas exploratórios.

Cabe recordar que sinais estruturais da oferta e demanda de petróleo já podiam ser observados há alguns anos. O aspecto central desta mudança estrutural diz respeito ao aproveitamento econômico das chamadas jazidas não-convencionais. Elas foram fundamentais para o abastecimento de gás natural nos EUA, com as jazidas de shale gas, mas também para o mercado de petróleo, em particular tight oil, transformando o mercado doméstico e influenciando o mercado internacional.

Tal movimento alterou sobremaneira as estruturas de consumo e o comércio internacional de petróleo, pois o ritmo de crescimento das importações mundiais de petróleo sofreu forte desaceleração. A acentuada queda de preços deixou claro que, apesar de sempre existirem problemas de coordenação, os países da OPEP passam a ter cada vez mais dificuldade de atuar de forma concertada. A estratégia de cortes de produção visando a manutenção de patamares mais elevados de preços é dificilmente obtida via o estabelecimento de um consenso entre os países membros. E talvez isto não volte a acontecer tão cedo devido à acirrada disputa pela manutenção do market share de cada um dos países produtores.

Porém, é inegável que o grande susto passou. As empresas de petróleo em todo mundo readequaram seus planos de negócios e seus portfólios de projetos produtivos para uma nova realidade de preços. Desde o primeiro semestre todas as companhias, já operam considerando o novo patamar que parece tender a oscilar dentro da faixa de US$ 40 e US$ 50 por barril, o que poderia significar uma nova banda de preços ao longo dos próximos dois anos, com a qual, na prática, as empresas já começam a trabalhar.

A disputa por market share continua no centro da cena geopolítica e econômica da indústria mundial do petróleo. Este aspecto tem orientado as ações estratégicas e está na raiz da multiplicação das reuniões entre produtores. A OPEP deixou explícito o objetivo de busca de um acordo em torno dos níveis de produção, destacando sua importância para a estabilidade do mercado. As dificuldades para a promoção de um acordo dessa natureza são consideráveis. A liderança da Arábia Saudita neste movimento estava ancorada na estrutura de custos mais baixos. Mesmo que, por um lado, tal movimento suscitasse uma apropriação menor da renda petrolífera, ele implicaria no deslocamento da parcela da oferta de produtores com custos mais elevados, garantindo a manutenção do market share.

Vale destacar que a busca de um preço de equilíbrio que garanta, simultaneamente, a apropriação da renda petrolífera pelos governos dos principais países produtores e a rentabilidade e sustentabilidade dos investimentos nada tem de trivial. Isto decorre de dois fatores principais. Primeiro porque depende de acordos de difícil negociação dentro da própria OPEP acerca dos níveis de produção dos países membros. A capacidade ociosa de produção do petróleo na OPEP diminuiu ao longo de 2016 (gráfico 2), refletindo o aumento de produção da maioria dos países membros. De acordo com o MOMR a produção que em 2015 foi de 32,1 milhões de barris/dia saltou, em outubro de 2016, para 33,6 milhões de barris/dia[1].

Gráfico 2- Capacidade Ociosa de Produção de Petróleo nos países da OPEP

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Fonte: EIA/DOE

Entretanto, O OPEC Bulletin colocou notas otimistas nesta direção, chamando atenção para a importância da ação coletiva dos produtores[2] e ressaltando o avanço das negociações no encontro realizado na Argélia em setembro passado.

Um novo encontro entre países produtores ocorreu no fim de outubro, buscando em particular a adesão de países produtores no que concerne os limites de produção. O Brasil também foi convidado e participou da reunião, o que revela a importância crescente da produção nacional para a composição da oferta mundial. A posição sinalizada, corretamente, pelo Brasil, foi de que uma decisão governamental de limite de produção não encontra amparo nos marcos legal e regulatório existentes no país.

 Segundo porque preços muito acima de US$ 50 por barril tendem a trazer rapidamente de volta para o mercado os produtores norte-americanos de jazidas não convencionais, bem como produtores que operem em áreas de estruturas de custo mais elevadas. Ademais, a produção norte-americana de shale oil e tight oil tem se revelado mais resiliente ao contexto de preços baixos do que a expectativa dos países da OPEP, em particular graças aos ganhos de produtividade observados.

Pelo lado da demanda, não há sinais de uma retomada econômica significativa dos principais países da OCDE e a China, por sua vez, devido a problemas de poluição local nas grandes cidades, tem implementado programas de eficiência energética que podem limitar o ritmo de suas importações de petróleo.

Nos EUA, o movimento de redução das importações de petróleo também deverá prosseguir. Cabe recordar que, na última década, os EUA , em função do aumento de produção doméstica, reduziu suas importações em mais de 6 milhões de barris/dia.

É possível afirmar que a Administração Trump não terá todos os graus de liberdade para, no curto prazo, promover uma inflexão significativa da política energética norte-americana. Mas é de se esperar que incentivos à produção nacional de petróleo bruto se ampliem, permitindo a continuidade da redução das importações, em particular dos países da OPEP. Este aspecto parece coerente com a visão mais nacionalista desenhada pelo novo governo norte-americano.

Sob tais circunstâncias a reunião da OPEP, marcada para a última semana de novembro, terá imensa dificuldade de terminar com um acordo crível de cortes de produção. O “acordo possível” pode ser desenhado em torno de limites à expansão da produção, o que poderia, em tese, limitar a volatilidade e novas quedas bruscas e acentuadas. Isto conduziria à manutenção da faixa de preços entre US$ 40 e 50 por barril, com a qual o mercado operou ao longo dos últimos seis meses.

A história do petróleo permanece sendo tributária do jogo entre os fundamentos técnicos, geológicos, geopolíticos e econômicos que contribuem para explicar as flutuações de preços. Mas, no momento, o peso da dimensão geopolítica parece estar seriamente travado pelas condições de mercado, em especial pelas características técnico-econômicas que presidem a atual estrutura de oferta.

Referências:

[1] OPEC Monthly Oil Market Report, novembro 2016, tabela 5.7, p.57

[2] “The Need for Decisive, Collective Action”, OPEC Bulletin Commentary, October 2016

Leia outros textos de Helder Queiroz no Blog Infopetro

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