Grupo de Economia da Energia

Estão dadas as condições para a retomada do setor de petróleo e gás no Brasil?

In petróleo on 20/03/2017 at 00:15

Por Edmar de Almeida

Após experimentar um verdadeiro boom de crescimento econômico entre 2007 e 2013, o setor de petróleo e gás brasileiro mergulhou numa crise que parece não ter fim. Os investimentos da Petrobras que atingiram quase US$ 50 bilhões em 2013, caíram para apenas US$ 14,5 bilhões em 2016. O pouco investimento no upstream está concentrado no desenvolvimento de campos descobertos. Por esta razão, o nível da atividade de perfuração no Brasil caiu para o pior patamar histórico, assombrando a indústria parapetrolífera nacional.

Gráfico 1 – Evolução do número de sondas em operação no Brasil

Fonte: Baker Hughes Rig Count

Diante da gravidade da crise setorial atual, todos se perguntam se já chegamos ao “fundo do poço” e quando se dará o início da recuperação do nível de atividade no setor. Para responder a esta pergunta é importante identificar e avaliar os fatores condicionantes da retomada dos investimentos no setor. Este é objetivo deste artigo. Em nossa opinião três são os principais condicionantes para a retomada do crescimento do setor de petróleo no Brasil:

  • Atração de capital privado através de mudanças regulatórias
  • Recuperação econômica da Petrobras
  • Recuperação e estabilidade dos preços do petróleo

Se estes fatores realmente forem capazes de influenciar de forma determinante a dinâmica de investimentos, podemos afirmar que existem condições favoráveis para a retomada do crescimento setorial, como veremos a seguir.

A atração de capital privado para o setor de petróleo será importante por duas razões. Primeiro, mesmo que haja uma recuperação da capacidade de investimento da Petrobras (e acreditamos que haverá), esta capacidade estará num patamar muito menor do que o que ocorreu no período entre 2009 e 2014, onde os investimentos estiveram numa faixa entre US$40 e US$50 bilhões. Este nível de investimento se apoiou no aumento do endividamento da empresa. O cenário agora é exatamente o contrário, parte da geração de caixa da empresa será utilizado para pagar dívida. Portanto, os investimentos podem até crescer, mas não há espaço para retomar o patamar dos bons tempos. Portanto, é necessário atrair capital privado para complementar a capacidade de investimento da Petrobras.

Entretanto, a razão acima não é a principal. A principal razão para atrair capital privado para o setor é a necessidade de atrair investimentos para todos os segmentos do setor de petróleo e gás no Brasil. A Petrobras está focando seu investimento no desenvolvimento de campos gigantes do Pré-sal. As descobertas já realizadas pela empresa são suficientes para décadas de investimentos em desenvolvimento de campos. A retomada da atividade de exploração requer a atração de novos players na exploração, dentro e fora do Pré-sal.

A atração de investimento privado vai depender da atratividade do Brasil em relação a outras regiões petrolíferas do mundo. Durante o período de preços elevados do petróleo, o Brasil adotou uma política petrolífera pouco amigável com investimento privado. A falta de rodadas, o fechamento do Pré-sal para operadoras privadas, o foco no conteúdo nacional e o excesso de burocracia dos arcabouços tributário, regulatório e ambiental sempre foram considerados fatores negativos para a atratividade do investimento privado.

Diante da gravidade da crise setorial, o atual governo iniciou um processo de revisão do arcabouço regulatório buscando aumentar a atratividade do Brasil na disputa pelo investimento do setor petróleo. Várias mudanças regulatórias realizadas e em curso contribuem para mudar a percepção dos investidores quanto à atratividade do Brasil. As principais mudanças foram: i) o fim da regra de operadora única no Pré-sal; ii) a retomada dos leilões em 2017; iii) a promessa do governo de aprovar uma nova política exploratória com programação plurianual de leilões; iv) Aprovação de novas regras de conteúdo local mais favoráveis ao setor petrolífero para os leilões programados em 2017; v) promessa de revisão estrutural da política de conteúdo local pelo PEDEFOR; lançamento de um programa de programa para propor incentivos específicos para a reativação da exploração em terra no país (programa REATE); e elaboração de novo arcabouço regulatório para o setor de gás natural visando a implementação de um mercado competitivo (programa “Gás para Crescer”).

É bem verdade que muitas destas iniciativas ainda estão em curso e deverão ter efeito apenas a médio prazo. Entretanto, o investidor privado é um tomador de risco que se move a partir de expectativas quanto ao futuro.  Os leilões de blocos exploratórios de 2017 e a evolução do programa de desinvestimento da Petrobras serão bons termômetros sobre o quanto o investidor privado acredita nesta nova “direção do vento” da política petrolífera nacional.

Outro ponto fundamental para a retomada do investimento no setor de petróleo é a saúde econômica da Petrobras. Após a abertura do setor ao investimento privado em 1997, a Petrobras foi responsável por, em média, 70% do investimento setorial. Portanto, não tem como o setor de petróleo nacional ir bem se a Petrobras vai mal. Neste ponto as notícias para o setor petrolífero nacional são muito positivas.

A capacidade de recuperação econômica da Petrobras nos últimos dois anos surpreendeu a todos. Até pouco tempo atrás, o grande tema de discussão entre os especialistas era quando acabaria o caixa da empresa e quais seriam as opções de socorro para evitar a inadimplência da empresa. Olhando a situação atual podemos dizer que a Petrobras “saiu do CTI”  e existem perspectivas muito favoráveis para a recuperação econômica da empresa.

A Petrobras foi capaz de fazer um ajuste econômico nos anos de 2016 que permitiu a empresa reduzir sua dívida em reais (graças ao efeito da estabilização do câmbio) estabilizar a sua dívida em dólares. Além disto, a empresa vem conseguindo rolar sua dívida em condições bastante favoráveis (custo médio de 6,3% a a). O fluxo de caixa da empresa de 2016 demonstra uma situação sob controle, onde a empresa conseguiu investir 14,5 bilhões de dólares sem aumentar a dívida e mantendo os recursos em caixa num patamar relativamente confortável (US$ 22,5 bilhões).

Este ajuste econômico se deu das seguintes estratégias e eventos:

  • Corte nos custos e maior foco dos investimentos em projetos com rápida geração de caixa;
  • Desinvestimento reforçou o caixa (6,5 bilhões em 2016) e contribuiu para menor percepção de risco;
  • Evolução favorável do câmbio em 2016 tornou a dívida mais sustentável (80% da dívida da Petrobras está denominada em Dólares ou Euros)
  • Diminuição da percepção de risco pelos investidores em função de:
    • Surpresas positivas do Pré-sal (produtividade muito acima do esperado),
    • Estabilização do câmbio e recuperação do preço do petróleo.
    • Evolução favorável do Processo de Desinvestimento da Petrobras. O Valor total de transações já assinadas soma US$13,6 bilhões. O recente acordo com o TCU reforça a confiança no avanço do processo.

Entretanto, uma boa regulação e a saída da Petrobras do CTI isoladamente não permitirão a retomada do investimento no setor.  Um nível de preço do petróleo adequado representa uma condição necessária à retomada do crescimento setorial em qualquer cenário. Por adequado nos referimos não apenas ao patamar dos preços mas também à expectativas quando à sustentabilidade do patamar. Após a queda dos preços do petróleo em 2014, observou-se uma grande instabilidade dos preços em função de uma completa falta de coordenação no mercado internacional de petróleo diante de uma situação enorme excesso de oferta.  A instabilidade dos preços afetou severamente as expectativas dos investidores em E&P no mundo.

O mercado internacional de petróleo experimentou um forte ajuste nos anos de 2015 e 2016. Por um lado, os baixos preços paralisaram os investimentos em áreas de elevado custo de produção. O número de sondas em operação nos EUA caiu do patamar de 2000 sondas em 2014 para apenas cerca de 500 em 2016. Com isto, os EUA, que foram os principais responsáveis pelo aumento da produção de óleo e gás no mundo entre 2010 e 2014, reduziram sua produção. A demanda mundial de petróleo cresceu 3,9 milhões de barris por dia entre 2015 e 2016, o que permitiu reduzir a velocidade de crescimento dos estoques e criar uma expectativa de eliminação do excedente de oferta mundial a médio prazo.

A expectativa de uma futura digestão do excedente de oferta criou condições para o início da retomada da coordenação através da OPEP. Foi justamente a sensação pela Arábia Saudita de que o mercado tinha saído do controle da OPEP que levou o país abandonar seu papel histórico de swing producer   e líder da coordenação do mercado. Com a melhora das expectativas em relação ao futuro do mercado, as reunões da OPEP passaram a ser mais pragmáticas e construtivas. Após meses de negociação, o cartel chegou a um acordo para redução da produção a partir de 2017, com um corte de 486,000 barris diários pela Arábia Saudita. Uma novidade deste acordo é que a Rússia e outros países não produtores também concordaram em participar do esforço de corte da produção para estabilização do mercado. O acordo da OPEP permitiu criar uma expectativa de estabilização dos preços a no médio prazo no patamar dos 50 dólares.

Ainda existem muitas incertezas que pairam sobre o mercado internacional do petróleo. Mas a estabilidade recente dos preços e a retomada de coordenação do mercado pela OPEP representam sinais muito encorajadores para os investidores. Já existem sinais claros da retomada do apetite pelos investimentos. Segundo recente relatório publicado pela Mckinsey (quarterly perspective on the oil field service and equipment (OFSE) industry), a indústria parapetrolífera americana experimentou, no quarto trimestre de 2016, seu primeiro aumento de receitas, desde a queda dos preços de 2014. Os investimentos na exploração em terra voltaram a crescer, principalmente, nos Estados Unidos.

Apesar dos sinais de retomada ainda serem muito tímidos, é inegável que a situação do setor de petróleo no mundo e no Brasil está muito mais favorável hoje que a um ano atrás. Aos poucos a forte neblina de incerteza que pairava sobre o setor está se desfazendo permitindo enxergar um pouco mais longe. Neste novo contexto, é fundamental que o governo, as empresas e a academia aproveite este arrefecimento da neblina para construir uma visão de futuro onde o Brasil volte a ter o protagonismo que merece.

Leia outros textos de Edmar de Almeida no Blog Infopetro

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