Grupo de Economia da Energia

Antonio Dias Leite: 1920 – 2017

In energia on 10/04/2017 at 00:15

Faleceu na última quinta-feira, 6 de Abril, o Professor Emérito do Instituto de Economia da UFRJ Antonio Dias Leite. O  professor Dias Leite desempenhou um papel fundamental na evolução do setor de energia no Brasil e manteve-se produtivo e lúcido até final da sua trajetória, interrompida aos 97 anos por complicações advindas de uma queda sofrida há uma semana.

Em 1941, Antonio Dias Leite formou-se em Engenharia pela Escola Politécnica da UFRJ. Foi professor desta Escola e da Faculdade de Economia da UFRJ durante 40 anos. Licenciado da UFRJ, foi presidente da Companhia Vale do Rio Doce (1967 a 1969) e Ministro de Minas e Energia (1969 a 1974). Responsável  pela primeira estimativa de renda nacional no Brasil, PIB, publicada em 1951, Dias Leite foi fundamental na criação da CPRM, da Aracruz e na viabilização de Itaipu. Organizou a fundação universitária José Bonifácio e foi diretor da Faculdade de economia da UFRJ, cargo que exercia quando se aposentou. Após aposentar-se recebeu do conselho universitário da UFRJ o título de Professor Emérito.

Apresentamos em seguida um vídeo com o discurso do professor Dias Leite por ocasião da comemoração dos quarenta anos de criação da CPRM; uma entrevista concedida aos professores Edmar de Almeida e Galeno Tinoco sobre a história da criação dos cursos de Economia no Brasil e sobre a criação do Instituto de Economia da UFRJ; e uma transcrição do verbete produzido pelo CPDOC sobre o professor.

1) Vídeo:

2) Entrevista:

Antonio Dias Leite, professor emérito do Instituto de Economia da UFRJ, 93 anos de idade.

Em novembro de 2012 esteve no Instituto de Economia da UFRJ onde concedeu entrevista aos professores Galeno Tinoco Ferraz Filho e Edmar de Almeida sobre a história da criação dos cursos de Economia no Brasil e sobre a criação do Instituto de Economia da UFRJ.

Em 1941, Antonio Dias Leite formou-se em Engenharia pela Escola Politécnica da UFRJ. Foi professor desta Escola e da Faculdade de Economia da UFRJ durante 40 anos. Licenciado da UFRJ, foi presidente da Companhia Vale do Rio Doce (1967 a 1969) e Ministro de Minas e Energia (1969 a 1974). Em 1974 retornou à UFRJ onde permaneceu até sua aposentadoria. Publicou diversos trabalhos entre os quais se destacam: “Estimativa da renda nacional do Brasil” (1951); “Caminhos do desenvolvimento” (1966); “Política mineral e energética” (1973); e “A energia do Brasil”, que recebeu o prêmio Jabuti de 1998. Publicou, também, “Crescimento econômico” (1999) e uma série de artigos sobre o mesmo tema no jornal Valor Econômico. O livro “A economia brasileira – de onde viemos e onde estamos” foi publicado em 2004. Em 2007, houve uma reedição, revista e atualizada, de “A energia do Brasil”, assim como uma versão reduzida, dirigida ao público externo, editada em Londres – “Energy in Brazil”. 

Em que contexto ocorreu a criação do curso de graduação em Economia no Brasil?

Desde o Império, até 1930, o Brasil era dominado pelo pensamento liberal que defendia o livre comércio e a não intervenção do Estado na economia. Somente com a revolução política de 1930 é que o governo federal começou a envolver-se mais diretamente na vida econômica do país. Na década de 1930 dois movimentos políticos ganharam expressão na cena nacional (a Aliança Nacional Libertadora, inspirada no pensamento político comunista e a Ação Integralista Brasileira, inspirada no nazi-fascismo). A despeito de suas importantes diferenças, ambos defendiam uma presença mais forte do Estado na economia. Mesmo frustrados em suas tentativas de tomar o poder (Intentona comunista de 1935 e Intentona integralista de 1938), tais movimentos, influenciaram o debate econômico de então. Foi nesse ambiente que surgiu a ideia de se criar um curso de Economia no Rio de Janeiro. Antes não havia essa formação, nem aqui e nem no exterior. Estudava-se economia em outras escolas, como a de engenharia e a de direito, e o ensino limitava-se a uma ou duas disciplina, quase sempre no campo da economia política. Na Escola de Engenharia, havia algumas disciplinas cujo conteúdo era muito influenciado pela tradição francesa. Ensinava-se a formação da renda, o consumo, os transportes e as fases do processo da reprodução econômica.

Como foi o processo de criação da Escola de Economia?

A Faculdade original de Economia foi fundada em 1938. Era uma instituição privada criada com o apoio da Associação Comercial, por intermédio do Dr. João Daudt de Oliveira, que era seu presidente. A Faculdade também foi apoiada pela Fundação Getúlio Vargas, por iniciativa do Dr.Eugênio Gudin. No seu início, a Faculdade funcionou no prédio da FGV. O curso de Economia era noturno. Os professores eram todos profissionais da área de economia, que trabalhavam no governo ou em instituições privadas. Todos eles eram autodidatas sem formação específica em economia: engenheiros, advogados e funcionários da burocracia estatal, como o Banco do Brasil. Naquele tempo não havia Banco Central nem ainda a Superintendência da Moeda do Crédito (SUMOC). Várias funções de política econômica eram de responsabilidade do Banco do Brasil.

A escola foi “federalizada” em 1946 com o objetivo de se conseguir recursos para se criar o curso diurno. A partir da federalização, ocorreu a mudança para uma casa em Botafogo e, então, a escola passou a contar com instalações próprias, ainda que modestas. Por exemplo, havia somente uma sala para todos os professores. Em 1949, a escola passou a fazer parte da Universidade do Brasil, hoje UFRJ, com a denominação de Faculdade Nacional de Ciências Econômicas.

O imediato pós-guerra foi um momento de grandes transformações no cenário econômico nacional. No período de 1946 a 1951 foram criadas instituições importantes para a vida econômica do país como a Cepal (1946), o IBRE no âmbito da FGV (1951) e o BNDE (1952). A Escola de Economia consolidou-se a partir deste período. Entre seus professores mais proeminentes estavam o Dr. Eugênio Gudin e o Dr. Otávio Gouveia de Bulhões.

Qual era o debate econômico relevante na época da criação da Escola?

Na faculdade, em seus primeiros anos de existência, não se debatia muita coisa. Como eu disse os professores eram profissionais da área de economia e não eram acadêmicos. No início, a escola se assemelhava muito a um curso profissionalizante, só que de nível superior. Contudo, para o país este foi um período muito fértil para a área da economia. Em 1938, o presidente Getúlio Vargas criou uma Comissão de Planejamento Econômico dentro do Conselho de Segurança Nacional. Foi a primeira vez que o termo planejamento foi empregado no Brasil. Esta comissão visava propor políticas para preparar o Brasil para o pós-guerra. Foi no âmbito dessa comissão que se deu o debate entre o Dr. Gudin e o Dr. Roberto Simonsen, hoje reconhecido como um marco da controvérsia entre o pensamento liberal e o pensamento desenvolvimentista no país. Por incrível que pareça eu estava lá e assisti aos dois dias de debate. O debate foi tão acirrado que tiveram que chamar um médico para atender o Dr. Roberto Simonsen que sofreu de um mal estar por exaustão.

Este debate teve dois aspectos importantes. O primeiro é que a argumentação do Roberto Simonsen – presidente da FIESP – estava baseada num trabalho sobre a renda nacional preparado por um técnico do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio. O trabalho era de má qualidade. Eu não lembro o nome da pessoa que fez o trabalho. Até melhor não lembrar. O documento era cheio de erros, de modo que a argumentação do Dr. Simonsen nele baseada era muito frágil. Do ponto de vista teórico, a argumentação do Dr. Gudin era muito mais consistente. No entanto, para efeito prático, as ideias do Dr. Roberto Simonsen foram as que prevaleceram e não as do Dr Gudin. Ou seja, predominaram a ideia de protecionismo e uma visão mais intervencionista na economia.

Quando o senhor chegou à Escola como professor?

Como professor, minha primeira experiência foi ainda na Escola de Engenharia. Nesta escola tornei-me assistente do professor Jorge Kafuri, que era o titular da Cátedra de Economia Política. Essa cadeira visava a oferecer aos engenheiros uma idéia desse campo de conhecimento e noções de teoria econômica e finanças. Nesse tempo, o catedrático nomeava os seus assistentes que assumiam com o compromisso de fazer concurso para livre-docente, no prazo de três anos. Não havia, então, algo como mestrado e doutorado.

Todos os fundadores da Escola de Economia eram autodidatas: engenheiros, advogados e funcionários do Banco do Brasil, porque o Banco Central ainda não existia. Não havia ainda nem a Superintendência da Moeda e do Crédito (Sumoc). Como já disse, várias funções de intervenção eram realizadas por intermédio do Banco do Brasil. Minha vinda para a faculdade esteve associada a um trabalho que coordenei, a pedido do prof, Gudin, sobre Renda Nacional na FGV. Praticamente, não havia estudos sobre o assunto no Brasil e acabei me especializando na questão, o que me permitiu escrever a tese para fazer o concurso para livre-docente na Escola de Engenharia. Mais tarde, já em 1952, fiz o concurso para professor titular da Escola de Economia. Quando aqui entrei, fiquei responsável pela cadeira que se denominava Estrutura das Organizações Econômicas, na qual se tratava basicamente da teoria da produção e da economia das empresas.

Como era a formação de economia na época que o senhor entrou?

Era uma formação bem eclética. Além das disciplinas de economia, havia também as disciplinas complementares como Geografia Econômica, Direito Constitucional e Psicologia Social. Eram também importantes os cursos nas áreas de História do Pensamento Econômico e de História Econômica. Não havia ainda divisões da ciência econômica nos moldes que conhecemos hoje. Não se se falava, até então, em micro e ou macroeconomia. 

Como foi sua carreira na Escola de Economia?

Estivei trabalhando por 15 anos, entre 1952 e 1967. Neste ano fui para o governo, como presidente da companhia Vale do Rio Doce. Em 1969 tornei-me Ministro das Minas e Energia. Voltei para a UFRJ em 1974. Quando voltei fui convocado pelo reitor da época, Dr. Hélio Fraga, para desenvolver algumas atividades administrativas na Reitoria da Universidade. Neste período, cuidei de duas questões básicas. A primeira foi o registro no Patrimônio da União de todos os imóveis da UFRJ. Naquela época, os imóveis não tinham registro e estavam sem documentação legal. Cuidei também da criação da Fundação da UFRJ (1975), que mais tarde recebeu o nome da Fundação José Bonifácio. Fui convidado para ser o presidente da fundação, mas recusei. Disse ao reitor que não poderia aceitar o convite, pois tinha problemas políticos com o então Presidente Geisel. O prof. Bulhões foi o primeiro presidente da Fundação e acabei ficando com a vice-presidência.

Em 1979 foi criado o Instituto de Economia Industrial (IEI), instituição responsável pela pós-graduação em economia, no âmbito da UFRJ, enquanto que a Faculdade de Economia e Administração (FEA) ficava responsável pela graduação em Ciências Econômicas. No início da década de 1980, fui eleito diretor da FEA, o que aconteceu um pouco por acaso. Naquela época a escola passava por uma crise política e eu estava ao largo das disputas internas, em função do meu afastamento para o Governo e para as atividades vinculadas à gestão da UFRJ. Por essa razão me pediram para aceitar ser diretor da FEA, cargo em que permaneci até 1985, quando me aposentei. Em 1987, recebi do Conselho Universitário da UFRJ o título de Professor Emérito.

Em 1996, deu-se a reorganização do ensino de economia na UFRJ, surgindo a configuração que sobrevive até hoje. O Departamento de Economia da FEA e o Instituto de Economia Industrial fundiram-se, constituindo o atual Instituto de Economia da UFRJ.

3) Verbete CPDOC:

Antônio Dias Leite Júnior nasceu no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, no dia 29 de janeiro de 1920, filho de Antônio Dias Lei­te, empresário têxtil, e de Georgeta Lahmeyer Leite. Sua irmã Eulália Maria Lahmeyer Lobo tornou-se im­portante historiadora.

Cursou o secundário no Colégio Anglo-­Americano, no Rio, concluindo-o em 1935.  No início de 1937 ingressou na Escola Nacio­nal de Engenharia da Universidade do Brasil, pela qual se formou engenheiro civil e mecânico em 1941. Em dezembro do mesmo ano viajou aos Estados Unidos para fazer estágio em engenharia mecânica e, em seguida, exercer uma função permanente de engenheiro na Worthington Pump and Machinery Co. De volta ao Rio em 1943 em função da declaração de guerra do Brasil à Alema­nha e à Itália, foi convocado para o Exército com a patente de segundo-tenente, servindo no cais do porto do Rio de Janeiro como tradutor de faturas e manuais de equi­pamentos da Força Expedicionária Brasileira (FEB).

No final de 1944 foi nomeado assessor da primeira Comissão de Planejamento Econômi­co criada no Brasil, vinculada ao Conselho de Segurança Nacional, e em 1946 tornou-se pro­fessor assistente das cadeiras de estatística, economia política e finanças da Escola de En­genharia, onde se formara.  No mesmo ano, assumiu a chefia da Equipe de Renda Nacio­nal da Fundação Getúlio Vargas — grupo en­carregado da elaboração das primeiras estima­tivas sobre a renda nacional realizada no país — da qual participaria até 1949.

Nomeado em 1948 professor titular de economia da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Brasil, mais tarde Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ainda nesse ano prestou concurso para livre-docência na Escola Nacional de Engenharia, pela qual se doutorou em 1950. Doutorou-se também pela Faculdade de Ciências Econômicas em 1952, ano em que foi aprovado no concurso para catedrático de economia dessa mesma fa­culdade. Paralelamente, assumiu em 1955 o cargo de diretor da Ecotec – Economia e Engenharia Indus­trial S.A. Consultores -, fundada por Jorge F. Kafuri, tornando-se posteriormente seu vice-presidente. Em 1960 viajou para os Es­tados Unidos como professor convidado da Eisenhower Exchange Fellowships Inc.

Em 1963, durante o governo João Gou­lart, foi subsecretário para assuntos econômicos do ministro da Fazenda, Francis­co Clementino de San Tiago Dantas durante seis meses, até a queda do ministro, ainda no governo João Goulart.

No início de 1965, já no governo do general Humberto Castelo Branco — guindado à presidência da República, após o movimento político-militar de 31 de março de 1964, que afastou João Goulart do poder — Dias Leite foi indicado para integrar o Conselho Consultivo do Pla­nejamento (Consplan), órgão criado em março por Castelo Branco com o objeti­vo de debater os problemas relacionados com a política econômica do governo estipulada pelo Plano de Ação Econômica do Governo (Paeg), de 1964.  Na primeira sessão do Consplan, realizada em abril de 1965, afirmou que as medidas econômicas adotadas pelo go­verno não correspondiam às necessidades reais do país. Criticou o Paeg, considerando-o in­consistente e com objetivos incompatíveis en­tre si. Nessa mesma ocasião, levantou a ques­tão de que a ajuda proporcionada pelos inves­timentos externos no país dependia das deci­sões políticas dos governos estrangeiros, esca­pando portanto ao controle do governo brasi­leiro.  Nesse sentido, propôs que o capital es­trangeiro fosse substituído pelo aumento for­çado da propensão à poupança interna, por uma maior apropriação do Estado sobre os bens produzidos no país e pela maior eficácia do sistema econômico.  Defendeu ainda o con­trole do Estado sobre os setores petrolífero, de energia nuclear, de energia elétrica, side­rúrgico de minério de ferro e de transportes.

Em fins de 1965 voltou a criticar a políti­ca econômica do governo e apresentou ao Consplan um programa de ação econômica em face da realidade nacional, de sua autoria. Contudo, tanto as críticas que fez como o programa que elaborou foram rebatidos pelos demais membros do Consplan, entre eles os economistas Antônio Delfim Neto, Glycon de Paiva e Roberto Campos, secretário executivo do conselho e então ministro do Planejamento.  Em 1966, a pedido dos ministros Otávio de Bu­lhões, da Fazenda, e Nei Braga, da Agricultu­ra, elaborou a minuta que se transformaria na Lei de Incentivos ao Reflorestamento.

Na iniciativa privada, trabalhou durante a década de 1960 na Ecotec. Em 1967, neste escritório, surgiu a iniciativa de se fazer uma empresa de reflorestamento, a Aracruz Florestal, logo depois Aracruz Celulose, empresa de sociedade aberta que, recém-fundada, comercializou ações na Bolsa de Nova Iorque, e da qual Dias Leite teve participação desde o início.

Em março de 1967, logo após a posse do marechal Artur da Costa e Silva na presidên­cia da República, Dias Leite foi nomeado presidente da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD).  Sua administração incentivou principalmente o se­tor exportador, buscando um contato direto com as indústrias consumidoras e entrando em entendimentos com algumas para a cons­trução conjunta de usinas de pelotização de minérios. No final de 1968, deixou a direção da companhia para se tornar ministro das Minas e Energia.

Ministro das Minas e Energia (1969-1974)

Nomeado ministro das Minas e Energia em janeiro de 1969 pelo presidente Costa e Silva, em substituição a José Costa Cavalcan­ti. Nessa ocasião, deixou a Aracruz Celulose. Em maio seguinte, Dias Leite, ao reu­nir-se com o ministro do Planejamento, Hé­lio Beltrão, para instalar uma comissão con­sultiva para o planejamento econômico, afirmou que o governo não pensava em tomar medidas favoráveis à descentrali­zação da Petrobrás.  Referindo-se aos minerais atômicos, acrescentou que as alterações que seriam feitas no setor não implicavam a perda do monopólio governamental sobre a utilização do urânio.

À frente do ministério, tomou várias medi­das, entre as quais a revogação, em maio de 1969, doDecreto-Lei nº 59.430, de outubro de 1966, que obrigava os fornecedores de pe­tróleo bruto e derivados à Petrobrás a investi­rem parte de suas divisas em atividades especí­ficas no país. Tal medida foi justificada pela finalidade de compensar o ônus da aplicação de capital a que ficavam obrigados os fornece­dores estrangeiros.  Ainda nesse mês, foi assi­nado um decreto pelo presidente Costa e Silva ampliando de quatrocentos para dez mil hecta­res as áreas a serem consignadas a empresas de mineração. Em junho desse ano, o ministro da Fazenda, Delfim Neto, firmou um emprésti­mo com um consórcio bancário da Alemanha Ocidental, visando o desenvolvimento do sis­tema energético brasileiro.

Com o objetivo de incentivar a pesquisa no setor mineral, em agosto seguinte, foi criada a Companhia de Pesquisas de Recursos Minerais, que, além de dar apoio aos serviços de campo do Departamento Nacional de Pesquisas Mine­rais, apoiaria a realização de pesquisas por ter­ceiros, criando condições para o funcionamen­to dessas atividades junto aos bancos de de­senvolvimento. Dois anos depois, a Companhia Vale do Rio Doce foi autorizada a criar uma subsidiária — a Do­cegeo ­— para pesquisar outros minerais, princi­palmente na serra de Carajás, no Pará.

Em outubro de 1969, o general Emílio Garrastazu Médici foi empossado na presidên­cia da República, em substituição ao marechal Costa e Silva, afastado por problemas de saú­de em agosto anterior, e Dias Leite foi manti­do na pasta das Minas e Energia.  Ainda em 1969, foram lançadas as bases que conduzi­ram ao acordo para o aproveitamento do rio Paraná, no local previsto para a futura insta­lação da usina hidrelétrica de Itaipu.

Com relação às pesquisas no campo da energia nuclear, foi criada em dezembro de 1971, pela Lei nº 5.740, a Companhia Brasi­leira de Tecnologia Nuclear, encarregada de executar  pesquisas nessa área, reservando à Comissão Nacional de Energia Nuclear as funções de natureza política.

No setor petrolífero, foi feita uma revisão dos planos de pesquisa de petróleo pela Petro­brás. Ainda no final de 1971, foi proposto um plano que envolvia: 1) o incentivo às ativida­des de pesquisa pela Petrobrás, dando maior ênfase aos gastos com a busca de novas áreas produtoras no país; 2) a criação de subsidiárias da Petrobrás no exterior, associadas a em­presas locais; 3) o convite a empresas estran­geiras especializadas em pesquisa petrolífera para reforçar as tarefas da Petrobrás, através de contratos de prestação de serviço com cláu­sula de risco.  Na ocasião, os contratos de risco foram vetados pelo presidente da Petrobrás, general Ernesto Geisel, apoiado pelo ministro do Exército, general Orlando Geisel.  Contudo, esses contratos viriam a ser firmados pelo pró­prio general Ernesto Geisel, quando presiden­te da República, em 1975.

Os estudos sobre o rio Tocantins, em Tu­curuí (PA), tiveram início em abril de 1972, buscando ali instalar uma fonte geradora de energia elétrica que viesse a suprir as necessi­dades surgidas com as descobertas de bauxita e minério de ferro na região.  Em outubro seguin­te, foram assinados os decretos-leis nº 71.248 e 1.240, visando a estimular as atividades de mi­neração com incentivos à indústria de trans­formação primária de minerais carentes e às empresas de exportação de minerais abundan­tes.  Ainda no final do ano consolidaram-se os entendimentos entre a Companhia Vale do Rio Doce e a empresa canadense Alcan, para desenvolvimento do projeto da bauxita na re­gião do rio Trombetas, às quais se associaram mais cinco empresas estrangeiras e o grupo Votorantim.

Terminados os trabalhos de pros­pecção e preparadas as bases para a moderni­zação da indústria carbonífera de Santa Cata­rina em maio de 1973, foi lançada a licitação para que se implantassem unidades mineradoras integradas e mecanizadas na bacia carbonífera da região. Na mesma época foi estabeleci­do um entendimento com a Polônia para a troca de minério de ferro por carvão metalúr­gico, objetivando diminuir a dependência em que se encontrava o setor com relação aos Es­tados Unidos.

No campo da energia elétrica, ainda em maio de 1973, após a assinatura do tratado entre Brasil e Paraguai para a construção da usina de Itaipu, foi enviada ao Congresso uma mensagem, que resultou na Lei nº  5.899, pro­mulgada em julho do mesmo ano, definindo as condições da usina e a distribuição de sua energia no território nacional.

Com relação ao treinamento e aperfeiçoa­mento do pessoal do ministério, foi organiza­do, durante a gestão Dias Leite, o Plano de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Supe­rior, com dotação específica de verbas para os cursos de especialização, que passaram a ser realizados através de convênios com as univer­sidades.  Dias Leite voltou-se também para o trabalho de revisão do Código de Águas e em março de 1974, no fim do governo do general Médici, deixou a pasta das Minas e Energia, sendo substituído por Shigeaki Ueki.

Na Universidade e na iniciativa privada

No mesmo mês retornou de Brasília para o Rio de Janeiro e, mais tarde, reingressando na UFRJ, passou a exercer funções administra­tivas na instituição e a lecionar na Faculdade de Economia e Administração (FEA).  Dedicou-se também a atividades de con­sultoria econômica.

Em 1975 foi convidado por Celso Rocha Miranda, dono da Companhia Internacional de Seguros, para fazer uma revisão administrativa em sua companhia. Essa revisão lhe rendeu, meses depois, a presidência da companhia, cargo que ocupou por mais de três anos e que o aproximou do setor de seguros, no qual voltou a trabalhar prestando consultoria por diversas vezes.

Em entrevista ao Jornal do Brasil, publicada em agosto de 1977, defen­deu a “necessidade de uma nova estrutura po­lítica”, mostrando-se contrário ao sistema par­tidário existente, que considerava inadequado, e favorável ao pluripartidarismo como forma de tornar nítidas “as preocupações e posições políticas” e de evitar os “extremismos”.

Dias Leite teve papel relevante na organização da Fundação Universitária José Bonifácio, da UFRJ, tendo, em janeiro de 1980, assumido a presidência do seu Conselho de Administração. Em abril de 1982 foi nomeado diretor da FEA. Foi durante muitos anos colaborador do cader­no especial do Jornal do Brasil e daFolha de São Paulo, e responsável pela síntese econômi­ca da revista SPES, da Pontifícia Universidade Católica (PUC).

Em 1985 se aposentou da FEA, após 40 anos de serviços prestados à UFRJ. Dois anos depois foi titulado professor emérito daquela universidade.

Em 1994 foi coordenador dos trabalhos de revisão da estrutura do setor de seguros privados, na Federação Nacional dos Seguros Privados (Fenaseg).

Consultor do Ministério das Minas e Energia sobre a reforma do setor elétrico e sobre a questão das usinas térmicas e sua relação com o meio ambiente durante os anos de 1996 e 1997, ganhou o Prêmio Jabuti de Literatura em 1998, com o livro A energia do Brasil (1997), trabalho sobre o qual se debruçou por quatro anos.

Casou-se com Manira Alcure Dias Leite, com quem teve seis filhos.

Além da obra citada, publicou Renda nacional (1948), Teoria da produção (1952), Caminhos do desenvolvi­mento: contribuições para um projeto brasilei­ro (1965), Política mineral e energética (1973),Equilíbrio financeiro das empresas de crescimento regular e continuado (1976), Caminhos da reconstrução(1983), Uma investigação de alternativas de reequilíbrio simultâneo de preços relativos (1985), A transição para a Nova República (1985), Plano Cruzado – esperança e decepção (1987) e Em busca de novos caminhos(1990).

FONTES: CACHAPUZ,P. Cronologia; CURRIC.BIOG.; Encic. Mirador, FI­ECHTER, G. Regime; Grande encic. Portugue­sa; INF.BIOG.; MAGALHÃES, I. Segundo; MIN.MINAS E ENERG. Cor­respondência; SILVA, F.  His­tória;VIANA FILHO, L. Governo; Who’s who in Brazil.

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