Grupo de Economia da Energia

As dificuldades do acordo dos países produtores e a nova posição brasileira no mercado internacional do petróleo

In petróleo on 03/05/2017 at 00:52

Por Helder Queiroz

helder052017Desde dezembro de 2016 as atenções do mercado internacional do petróleo se voltaram para os impactos esperados do acordo que estabeleceu o compromisso de cortes de produção dos principais produtores, notadamente da OPEP, com adesão de outros países, dentre os quais o mais importante foi a Rússia.

Convém recordar que acordos desta natureza não são facilmente obtidos e são de difícil manutenção no que concerne o cumprimento dos compromissos assumidos.

Quais foram as consequências objetivas sobre os preços e estrutura de oferta desde o acordo firmado entre os produtores? Neste texto vamos apontar alguns dos principais elementos de resposta, a partir do exame do comportamento dos países da OPEP, ainda que seja cedo para identificar tendências estruturais de longo prazo[1]. Além disso, é discutida a nova e cada vez mais importante posição brasileira de exportador líquido neste mercado.

Em primeiro lugar, cabe destacar que o anúncio do acordo alterou as expectativas do mercado e, mesmo antes do efetivo corte da produção, os preços rapidamente registraram forte alta. Como mostra a tabela 1, o preço médio no último mês do ano de 2016 atingiu US$ 54 por barril, o que representou uma alta de mais de 16% com relação ao mês anterior e a maior alta mensal do ano.

Desde o início de 2017, o patamar das flutuações do preço foi puxado para cima e os preços passaram a oscilar na faixa entre US$ 50 e US$ 55 por barril ao longo do primeiro trimestre do ano. Porém, desde março o preço tem ficado mais próximo do piso desta faixa (tabela 1).

Tabela 1- Variação do Preço Médio Mensal do Petróleo tipo Brent

Mês Preço Taxa de variação
mar/16 39,07
abr/16 42,25 8,14%
mai/16 47,13 11,55%
jun/16 48,48 2,86%
jul/16 45,07 -7,03%
ago/16 46,14 2,37%
set/16 46,19 0,11%
out/16 49,73 7,66%
nov/16 46,44 -6,62%
dez/16 54,07 16,43%
jan/17 54,89 1,52%
fev/17 55,49 1,09%
mar/17 51,97 -6,34%

Fonte: US Energy Information Administration

É importante examinar qual foi o comportamento da oferta de petróleo dos países membros da OPEP com relação ao cumprimento do acordo. A tabela 2 destaca a produção OPEP ao longo dos últimos trimestres, com relação aos volumes de produção registrados nos anos anteriores. Comparado com os dois últimos trimestres de 2016, a produção OPEP agregada foi reduzida respectivamente em 653 mil e 1,13 milhões barris/dia.

A Arábia Saudita, em decorrência do fato de ser o principal produtor, segue cumprindo um papel de liderança e de swing producer interno à organização. Ainda na tabela 2, é possível observar que, comparada com a produção do terceiro trimestre de 2016, a redução da produção saudita (679 mil barris/dia) foi maior do que a redução do total da OPEP (653 mil barris/dia).

Tabela 2- Produção de Petróleo dos Países da OPEP: antes e depois do acordo de corte de produção – em mil barris / dia

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Fonte: Elaboração a partir do OPEC  Monthly Oil Market Report (abril 2016)

Três fatores contribuem para explicar a dificuldade de manutenção do acordo de cortes de produção ainda neste primeiro semestre do ano. O primeiro é interno à própria OPEP e decorrente de situações excepcionais. Cabe lembrar que o Irã ainda está em processo de retomada do ritmo de produção, após a suspensão de sanções comerciais e, de fato, continua a aumentar a produção, com anuência dos demais países membros.

Merece registro igualmente o caso da Líbia que depois de muito tempo retoma a produção do campo gigante de Sharara, embora os conflitos internos, especialmente com relação ao controle da refinaria Ras Lanuf e das jazidas de Sidr, continuem sendo uma fonte de forte instabilidade política. Apesar de ter crescido ao longo dos últimos meses e atingir no primeiro semestre deste ano 660 mil barris/dia, vale lembrar que a produção líbia de petróleo está longe ainda dos patamares registrados antes da guerra civil. Em 2010, a Líbia produzia 1,6 milhões de barris/dia, porém a infraestrutura de escoamento, armazenamento e terminais sofreu danos gravíssimos e só agora os níveis de produção começam a ser retomados.

O segundo fator diz respeito à participação do petróleo OPEP vis-à-vis à oferta mundial. Em 2010, a produção da OPEP representava 42% da oferta mundial; em 2017, esta participação caiu a 34%. Ainda que os dados deste ano reflitam a estratégia adotada de redução da produção, eles denotam a progressiva perda de market share do petróleo proveniente dos países da OPEP. Este aspecto acentua as dificuldades de manutenção de acordo coletivo, pois a participação agregada cai, mas tal situação também acirra as disputas para a manutenção das fatias de mercado individuais de cada um dos países integrantes da OPEP.

O terceiro fator deriva diretamente do anterior. As razões da ampliação da oferta dos países Não OPEP são largamente conhecidas. Em particular, o papel do petróleo não convencional nos EUA permitiu o forte incremento da produção e a redução das importações norte-americanas. A queda dos preços desde 2014 afetou, evidentemente, a oferta norte-americana de produtores marginais e impôs um freio ao ritmo de investimentos novos.

De fato, a produção de petróleo nos EUA caiu em 2016 comparada ao ano anterior, totalizando 13,6 milhões de barris dia. Cabe notar, contudo, que a queda foi pequena (420 mil barris) e ocorreu nos três primeiros trimestres de 2016; porém, a produção já registrou um aumento no último trimestre do ano passado ante à expectativa quanto ao aumento de preços no mercado internacional. Isto é decorrente da possibilidade de rápido incremento da produção nos EUA, em virtude da existência de um número significativo de poços perfurados, mas não ainda fraturados. Tal circunstância indica que a elasticidade-preço de curto prazo da oferta de petróleo é alta, em particular no que tange à estrutura atual de oferta nos EUA.

Isto posto, cabe examinar a posição brasileira no mercado internacional do petróleo. As características da produção offshore são distintas daquelas observadas nos EUA com respeito ao petróleo convencional. Assim como o petróleo não convencional, o pré-sal constitui uma nova e importante fronteira de exploração e produção de hidrocarbonetos. A produção no pré-sal bate recordes mês a após mês e seus poços produtores têm revelado uma altíssima produtividade.

Desse modo, não obstante a queda de preços, o Brasil continua a aumentar sua produção doméstica e, em especial, sua participação no comércio internacional de petróleo. Segundo os dados da ANP a produção total registrada em fevereiro de 2017 cresceu, comparada ao mesmo mês do ano anterior, 14,6% alcançando 2,68 milhões de barris/dia.

Ademais, chama bastante atenção o expressivo incremento das exportações brasileiras em 2017 (Gráfico 1). Em janeiro e fevereiro, os dados de exportação de petróleo bruto, segundo a ANP, registraram respectivamente 1,3 milhões e 1,45 milhões de barris/dia. Assim, pela primeira vez, as exportações brasileiras ultrapassaram o patamar de um milhão de barris/dia e atingiram, nos mesmos meses, 1,76 e 2,07 bilhões US$ FOB respectivamente.

Por um lado, este patamar de exportações pode ser parcialmente explicado pela recessão econômica. O menor ritmo de crescimento da demanda de combustíveis reduz, no momento atual, o total da carga de petróleo bruto para o processamento do refino (menos cerca de 13% comparado com 2014). Além disso, uma parcela da demanda tem sido coberta pelo aumento das importações de derivados, em particular gasolina e diesel[2].

Gráfico 1

helder052017b

Fonte: ANP

Como se sabe, o Brasil continua ser um importador de petróleo bruto, dadas as características do seu parque de refino e a consequente necessidade de processar um mix de óleos leves e pesados. Porém, como a carga processada tem diminuído, as exportações líquidas (exportação menos importação) tem registrado igualmente valores muito expressivos (Gráfico 2) e uma posição exportadora que se consolida, pouco a pouco, no mercado internacional.

Tal condição depende evidentemente da conquista de mercados compradores do petróleo brasileiro. Este esforço tem sido aparentemente bem sucedido. Para tal, é natural que haja um desconto vis-à-vis ao mercado internacional para que seja possível que um “novo” petróleo conquiste market share no mercado internacional. Isso tem ocorrido com relação ao petróleo do pré-sal.

Uma medida desse desconto pode ser calculada, como proxy, tomando por base o preço médio dos barris exportados e importados. No Gráfico 3, é possível constatar que a diferença entre estes preços tem se reduzido pouco a pouco, o que denota uma perspectiva bastante positiva para a evolução de longo prazo das exportações de petróleo bruto e para a balança comercial brasileira. Tal situação dependerá, em contrapartida, da retomada do crescimento econômico e da ampliação do processamento de petróleo bruto nas refinarias nacionais.

Gráfico 2

helder052017c

Fonte: Elaboração própria a partir dos ANP

Gráfico 3

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Fonte: Elaboração própria a partir dos ANP

A posição brasileira com relação aos países da OPEP é peculiar, pois do total das importações brasileiras de petróleo, cerca de 90% é proveniente da OPEP, sendo, portanto, um parceiro comercial. Por outro lado, o aumento da produção e exportações brasileiras torna o Brasil um novo competidor dos países da OPEP no cenário internacional do petróleo[3].

A nova condição exportadora do Brasil não tem passado despercebida[4], posto que o incremento recente da produção é relevante e sustentado. Em 2016, a média das exportações brasileiras de petróleo bruto foi de 810 mil barris/dia. Em fevereiro, chegou a 1,45 milhões de barris/dia. Essa diferença positiva de 640 mil barris/dia é da mesma magnitude da redução observada na produção saudita (ver tabela 2), cuja a contribuição em termos de corte de produção foi a mais alta no âmbito do recente acordo firmado entre os países produtores.

Neste sentido, a nova posição brasileira no mercado internacional e a elevada elasticidade-preço de curto prazo da oferta nos EUA constituem dois limites objetivos à manutenção deste acordo, pois amplifica as disputas por recuperação, manutenção ou conquista de novas fatias de mercado. Em complemento a este ponto, vale lembrar que existem vários projetos em curso e que tenderão pouco a pouco a acrescentar novas capacidades de produção. Este aspecto é reconhecidamente preocupante para os países da OPEP.[5]

Uma vez mais as atenções dos analistas e agentes econômicos estará voltada para a próximas reunião da OPEP em maio quando os resultados do acordo serão avaliados com vistas a continuação ou não dos compromissos assumidos no final de 2016. Dadas as condições atuais da estrutura de oferta e um ritmo de demanda abaixo das expectativas em 2017, é de se esperar uma dificuldade crescente para o estabelecimento e engajamento firme de novos compromissos que sinalizem uma redução da produção ainda mais significativa por parte da OPEP e dos produtores co-signatários do acordo não pertencentes à organização.

Notas:

[1] Não será examinada aqui a posição dos países NOPEP participantes do acordo.

[2] Em um texto futuro será discutido o papel dos preços praticados pela Petrobras com relação ao comércio externo de petróleo e derivados. Registra-se aqui somente que, nos dois primeiros meses deste ano, as importações de gasolina e diesel cresceram significativamente.  No caso da gasolina ,1,04 bilhões de litros contra 257 milhões de litros em janeiro/fevereiro de 2016; e no caso do diesel, as importações já atingiram 2 bilhões de litros em 2017, muito acima do volume de 575 milhões de litros contabilizados em janeiro e fevereiro de 2016. Fonte: ANP

[3] Ver o artigo de Pinto Jr., H. Q. e Tavares, A. “The Evolution of Brazilian Oil Industry: the relationships with oil producers and importers”, Anais da Conferência OPEC and the Global Energy Order: From its Origins to the Present Time, Abu Dhabi, NYUAD, 18-20 april 2017.

[4] Os Outlooks internacionais e as publicações da OPEP (Monthly Oil Market Report e OPEC Bulletin, por exemplo) têm destacado o crescimento da produção e exportações brasileiras como um dado relevante para a conjuntura do mercado internacional do petróleo.

[5] No número de abril de 2017, p.40, o Monthly Oil Market Report da OPEP destaca: “From the supply point of view, it is evident that there are many projects waiting to come on stream in the coming years. The period 2017-2019 is likely to see the largest production increase from mega projects in the industry’s history. Large projects in Brazil, Russia, Canada and the Gulf of Mexico are expected to reach completion and add to global supply between 2017 and 2019.”

Leia outros textos de Helder Queiroz no Blog Infopetro

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