Grupo de Economia da Energia

Os últimos acontecimentos do Catar e os efeitos no mercado de GNL

In gás natural, GNL on 01/08/2017 at 12:06

Por Yanna Clara Prade (*)

Yanna082017O Catar possui a terceira maior reserva provada de gás natural no mundo, atrás apenas da Rússia e Irã, e é o principal país exportador de gás natural liquefeito no mercado mundial do energético, posição que vem mantendo desde 2006, com aproximadamente 30% do market share mundial.

No entanto, sua posição de liderança está comprometida pelos projetos que vêm sendo desenvolvidos nos Estados Unidos e principalmente na Austrália, cujos terminais em construção irão permitir que o país se torne o maior exportador de GNL por volta de 2020. Diante deste risco e devido a necessidade de reverter o declínio previsto na produção, o Catar decidiu em abril de 2017 retirar a moratória de produção do Campo Norte, o maior campo de gás natural do mundo, o que pressiona seus competidores com projetos mais custosos.

Um novo momento na história do país ocorreu em junho deste ano, com o Egito, a Arábia Saudita, os Emirados Árabes e Bahrein cortando relações diplomáticas com o Catar, alegando que o governo do país possui envolvimento com o terrorismo. Essa questão respinga, inevitavelmente, no mercado de GNL e na segurança de suprimento do mercado.

Diante de tantos acontecimentos recentes, o objetivo do presente artigo é descrever a saga do Catar como líder no mercado de GNL e o momento atual do mercado, buscando identificar tendências que possam se manter para o futuro.

A trajetória do Catar

O Catar é um pequeno país do Oriente Médio que possui aproximadamente 2 milhões de habitantes. O país faz fronteira com a Arábia Saudita e está bem próximo do Irã, Emirados Árabes e Bahrein. A economia do Catar é bastante dependente dos recursos petrolíferos e foi capaz de manter uma boa taxa de crescimento econômico ao longo dos anos, devido ao forte crescimento da sua produção de gás natural.

O Catar é relativamente novo no mercado de GNL, tendo iniciado suas exportações apenas em 1996, mas com um rápido crescimento nos anos seguintes. A produção de gás natural no país e a consequente exportação do energético foram incentivadas após desenvolvimentos do Campo Norte. Tais recursos foram descobertos na década de 70 pela Royal Dutch Shell, mas apenas na década de 90 a produção tomou um impulso, com estratégia focada na exportação do energético.

Figura 1 – Produção e Consumo de gás natural no Catar – 1970 a 2016

Fonte: Elaboração própria com dados do BP Statistical Review 2017.

Em apenas dez anos do início das exportações, o país se tornaria o maior exportador de GNL do mundo e também líder em tecnologias e produção GTL (gas-to-liquid). O Catar possui sete plantas de liquefação com capacidade total de 77 milhões de toneladas por ano (25% da capacidade mundial existente), em consórcio com algumas das empresas mais presentes no mercado de GNL como Shell, ExxonMobil, Total, Marubeni e Mitsui.

Uma importante característica do GNL do Catar é seu custo relativamente mais baixo que os demais países exportadores. De acordo com Fattouh et al (2015), o break even do GNL catariano é de aproximadamente US$ 2/MMBtu, enquanto os novos projetos de GNL nos EUA giram em torno de Henry Hub + US$ 4 a 5 por MMBtu, e outros projetos greenfield fora dos EUA em torno de US$ 9 a 12 por MMBtu (Rogers, 2017). Essa vantagem do Catar se mantém inclusive com relação aos novos projetos em construção nos demais países, que passaram por importantes elevações de custos, principalmente os projetos australianos os quais sofreram com particularidades do seu próprio mercado (um choque no câmbio e escassez de mão-de-obra especializada local).

Figura 2 – Infraestrutura do Catar e o Campo Norte

https://www.eia.gov/beta/international/analysis_includes/countries_long/Qatar/images/energy_infrastructure_map.pngl

Fonte: EIA, 2015.

O Campo Norte é uma das maiores jazidas de gás natural não associado do mundo, com reserva estimadas de 25 trilhões de metros cúbicos, o que equivale a aproximadamente 13% das reservas mundiais conhecidas. A jazida ultrapassa o limite marítimo do Catar e é dividida com o Irã, cuja parcela do campo se chama South Pars. Atualmente, a produção de gás do Catar é quase em sua totalidade proveniente de tal jazida.

Em 2005, o governo do Catar, preocupado com o rápido desenvolvimento do Campo Norte, declarou moratória que impediria a exploração e produção de novos recursos. A moratória duraria até 2006, mas sua retirada foi adiada por anos, com a justificativa de que era importante conhecer melhor as reservas antes de explorá-las. Em abril de 2017, o país decidiu retirar tal restrição declarando que será possível aumentar a produção de gás e condensado em 10% e a exportação de GNL em 30% daqui a cinco a sete anos, quando os novos projetos estiverem concluídos. Uma justificativa plausível para essa ação inesperada após tantos anos de atraso é o fato da produção de gás natural no país ter iniciado sua trajetória de declínio, que será parcialmente compensada com a entrada em produção do último projeto aprovado pré-moratória, o campo de Barzan, ainda em 2017. Independente do motivo pelo qual a moratória foi retirada, isto traz um novo impulso para o país manter seu market share diante dos novos exportadores de GNL.

Os acontecimentos recentes e as possíveis consequências para o mercado de GNL

O corte de relações diplomáticas com o Catar por parte da Arábia Saudita, os Emirados Árabes, Bahrein e Egito foi anunciado em junho de 2017. A justificativa para o movimento foi baseada na alegação que o governo catariano apoia células terroristas e mantém relações amigáveis com o Irã, com quem a Arábia Saudita possui um histórico de conflitos. Os países cortaram relações e proibiram acessos vindos do Catar pelo espaço aéreo, terrestre e marítimo. No entanto, as consequências para as relações comerciais ainda são incertas, apesar do corte imediato do comércio entre Arábia Saudita e Catar, que forçou este último a buscar importações em outros países, principalmente de alimentos.

Os países do boicote listaram algumas exigências que fariam com que as relações diplomáticas se restabelecessem. Dentre as exigências estaria o fechamento da rede catariana de TV Al Jazeera e limitação das relações com o Irã. Em especial, a exigência sobre o Irã torna uma reconciliação mais difícil, pois uma das principais razões para o Catar manter relações amigáveis com o Irã está no fato de manterem a reserva compartilhada do Campo Norte e South Pars.

Sobre o mercado de GNL, o governo catariano logo realizou anúncios sobre as exportações de gás natural do país, afirmando que estas não seriam afetadas, principalmente para os maiores consumidores asiáticos, Japão, Índia, Coreia do Sul e China. No entanto, a incerteza ainda paira no ar, principalmente sobre possíveis restrições de acesso ao Canal de Suez, no Egito, rota de acesso para o mercado europeu.

As opiniões dos especialistas sobre as consequências da tensão diplomática têm se alinhado da mesma maneira: possivelmente não afetará no curto prazo nem as exportações do Catar, que consegue escoar para outros mercados (caso as exportações para o Egito e Emirados Árabes sejam prejudicadas); nem tampouco os países consumidores (principalmente Egito), que podem encontrar outras fontes de suprimento, mesmo que mais custosas [1]. O maior impacto previsto viria da limitação ao uso do Canal de Suez ou da elevação na taxa de uso do Canal para embarcações do Catar. No caso do improvável impedimento do uso do Canal, haveria necessidade de levar os cargos por outra rota o que elevaria os custos de transporte para o mercado europeu em aproximadamente US$ 0,05 por MMBtu. Por sua vez, diante da necessidade de internalizar tal custo, o Catar poderia decidir redirecionar seus cargos para venda no mercado asiático que poderia resultar em uma queda dos preços spot na Ásia (Rogers, 2017).

Por mais que no curto prazo o impacto possa ser mínimo, as incertezas geradas com relação a segurança no fornecimento de GNL catariano podem trazer consequências ao longo prazo. São vislumbradas duas possibilidades: uma com relação aos projetos de liquefação de GNL pelo mundo e outro com relação aos novos contratos de GNL.

Atualmente, a capacidade total de liquefação é de 452 bilhões de metros cúbicos (bcm). Considerando projetos com Final Investment Decision (FID), a capacidade alcançará 650 bcm em 2022, contra uma demanda esperada de 460 bcm, de acordo com o IEA (2017). Essa projeção não considera ainda o novo anúncio do Governo catariano de retornar ao desenvolvimento do Campo Norte, que pode elevar ainda mais a capacidade mundial de liquefação.

A perspectiva para o médio prazo é de sobreoferta no mercado de GNL, situação que já vem sendo considerada desde 2015, como já discutido neste blog à época, e que vem afetando o desenvolvimento de novos projetos de liquefação. Um dos motivos para os projetos não receberem o FID é a dificuldade de se conseguir contratos de consumo de longo prazo, necessários para viabilizar os investimentos. Diante das incertezas geradas pela crise diplomática do Catar, é possível que os consumidores de GNL prefiram realizar contratos de longo prazo com outras fontes que possibilitem maior segurança, abrindo, portanto, janelas de oportunidade para os novos projetos de liquefação. Um possível cenário é que as incertezas gerem maior poder de negociação por parte dos compradores de GNL do Catar, que iriam negociar melhores cláusulas e condições para lidar com o risco de falta de suprimento.

O futuro sobre o GNL catariano ainda é muito incerto e o impacto dos acontecimentos políticos da região pode ter grandes proporções no mercado. Ao mesmo tempo em que o país planeja reiniciar os investimentos para viabilizar uma maior produção de gás natural, as condições geopolíticas do país podem afastar compradores que buscam uma fonte segura de GNL.

Referências:

Agência Internacional de Energia – IEA (2017). Natural Gas Market Report 2017.

EIA (2015). Country Report – Qatar.

Fattouh, B; Rogers H.; Stewart, P. (2015) The US shale gas revolution and its impact on Qatar’s position in gas markets. Center on Global Energy Policy, Columbia University, NY.

Rogers, H. (2017). Qatar Lifts its LNG Moratorium. The Oxford Institute for Energy Studies, University of Oxford, abril 2017.

Notas:

(*) Doutoranda em Economia do IE-UFRJ.

[1] Platts, Reuters e Oxford Energy.

Leia outros textos de Yanna Clara no Blog Infopetro

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