Grupo de Economia da Energia

Nuclear para reduzir emissões: ter ou não ter, eis a questão

In energia, energia nuclear on 09/05/2018 at 14:27

Por Renato Queiroz

Renato052018As mudanças climáticas e a segurança energética, em uma era de transitoriedade, delimitam as decisões no estabelecimento de políticas públicas energéticas, mecanismos regulatórios, investimentos no setor de energia, pesquisas acadêmicas, entre outros. O contexto de transitoriedade cria incerteza e, sob essa tônica, o exercício de planejar o futuro deve considerar como condição necessária a inovação (QUEIROZ, 2010). A velocidade das mudanças pode ser de tal ordem que o estado de permanência das tecnologias que movimentam os negócios fique cada vez menor. Os ambientes fabris estão sendo impulsionados a tomarem decisões com poucas margens de erros e com rapidez; como um arqueiro que permanece em uma mesma posição, em um breve tempo, mirando o alvo certo antes de disparar a flecha.

“Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o que, com frequência, poderíamos ganhar, por simples medo de arriscar”. William Shakespeare

Assim, o quadro nos incita a observar as políticas públicas de países desenvolvidos. Afinal, o domínio das novas tecnologias, a implantação de novas diretivas, sempre focadas, são características inerentes ao mundo desenvolvido que constantemente se antecipam em decisões que, ainda que não se afastando de acordos mundiais, atendam aos interesses dos seus países. As Agências, Institutos de Energia em seus relatórios, consolidam esses movimentos e fazem exercícios de previsão para os diversos países.

O relatório Renewables 2017 (IEA, 2017), por exemplo, ao focar a geração de eletricidade, informou que, em 2016, as energias renováveis ​​representaram quase dois terços da nova capacidade de produção de eletricidade em todo o mundo e foram impulsionadas pelo forte mercado de energia solar fotovoltaica, sobretudo pela China. O relatório, que parte do ano de 2016 para apresentar previsões até 2022, aponta um robusto e contínuo crescimento da capacidade de eletricidade renovável em 43% até o final do período. Ressalta, no entanto, que embora a energia solar fotovoltaica vá pontuar como a fonte com maiores adições anuais de capacidade instalada, superando, inclusive, as fontes eólica e hídrica, o carvão deverá permanecer como a maior fonte de geração de eletricidade nesse período. A China será a responsável por mais de 40% do crescimento da capacidade renovável global, não ficando somente na expansão via solar PV. Vão liderar, também, nessa expansão as hidrelétricas, eólicas, bioenergia, sem falar em outros segmentos. Há sinais citados pelo próprio relatório que são: o crescente custo dos subsídios renováveis ​​e a falta de integração da rede que podem limitar esse crescimento previsto para a China. O desdobramento de novas políticas energéticas, nesse país, para enfrentar tais problemas, prevê uma expansão e/ou integração de redes de transmissão e um incremento da geração distribuída.

A IEA antevê, em seus estudos, que a China, a Índia e os Estados Unidos vão capitanear a expansão renovável global nos próximos anos. Os americanos são o segundo maior mercado em crescimento para renováveis, mesmo com todas as polêmicas do governo Trump. Nos EUA, deverão ser implantadas novas capacidades de energia eólica e solar, com incentivos fiscais federais, bem como políticas estaduais para incremento da energia solar fotovoltaica distribuída. No caso da Índia, a previsão é que o país dobre sua capacidade atual de eletricidade renovável com as fontes Solar PV e Eólicas. A Índia tem muitos desafios no campo da infraestrutura e há incertezas políticas e regulatórias. O sistema energético necessita de uma guinada em direção a uma matriz mais sustentável, visto que há cerca de 300 milhões de pessoas sem acesso à eletricidade, sendo que a população total é de 1,3 milhões de habitantes. O ministro da Energia da Índia Piyush Goyal, no último Fórum de Energia em Viena (VIENA, 2017), declarou que a Índia vai implementar energias renováveis, sistemas de iluminação eficientes e carros elétricos em um grande projeto de transformação energética.

Já na União Europeia, o crescimento de renováveis tem uma previsão pessimista de queda de 40%, em comparação com o período de cinco anos anterior ao do relatório.

Nessa postagem vale entender o que está ocorrendo com os europeus, quanto à redução das emissões na geração elétrica, através de alguns países aqui selecionados.

Avaliando, por exemplo, o andamento das políticas voltadas à produção de eletricidade nos países nórdicos, Dinamarca, Finlândia, Islândia, Noruega e Suécia, países que investem maciçamente em pesquisas e desenvolvimento em projetos energéticos e têm características próprias na geração de eletricidade, tem-se: a Dinamarca definiu que vai reduzir suas emissões em 40% até 2020, com a participação da fonte eólica, que deverá suprir mais da metade do consumo energético nos próximos 10 anos com parques offshore e usinas eólicas construídas em terra. A meta é produzir cerca de 70% da energia a partir de fontes renováveis. Hoje já são 43%. Até 2050, esse país pretende produzir somente energia e calor limpos, eliminando as emissões de dióxido de carbono no setor.

A Finlândia, segundo a Agência Internacional de Energia, colocou a meta de 38% da participação de fontes renováveis em sua matriz até 2020. Cabe ressaltar que a matriz energética finlandesa é baseada em combustíveis fósseis e os planos de investimentos para esse setor apontam que as emissões de gás carbono serão reduzidas com novos investimentos em fontes renováveis e em usinas nucleares. Segundo a IEA se todas as usinas nucleares previstas forem construídas, a participação da fonte no total de geração elétrica da Finlândia será de 60% em 2025. O país busca, primordialmente, aumentar sua segurança energética, já que é um grande importador de combustíveis fósseis. Já a Suécia investe fortemente em pesquisas voltadas às tecnologias renováveis e tem centros de excelência em parcerias com indústrias de ponta. Segundo dados da Bloomberg (BLOOMBERG, 2015), a Suécia pretende tornar-se uma das primeiras nações do mundo totalmente livre de combustíveis fósseis. A meta sueca é reduzir drasticamente as emissões de carbono a partir de 2020. No caso da Noruega, embora, um grande exportador de petróleo, sendo o maior produtor na Europa, já é um dos países mais sustentáveis do mundo, pois 96% da sua energia elétrica é energia hidrelétrica. A Islândia, outro país nórdico interessante de se observar, tem suas necessidades elétricas atendidas com energia hidráulica e geotérmica. Atualmente quase toda a eletricidade da Islândia é gerada a partir de fontes renováveis, sendo cerca de 70% através da energia hidrelétrica e praticamente o restante através da energia geotérmica. Importante citar que as políticas públicas apontam o desenvolvimento da geração de eletricidade, a partir de potenciais geotérmicos offshore, com usinas instaladas no mar, em plataformas semelhantes às de petróleo.

Olhando para a Alemanha, tida como referência devido ao programa de transição energética, “Energiewende”, que nasceu em 2010, verifica-se que há alguns percalços. O programa alemão foi concebido para atingir 80 % de participação de fontes renováveis, baseada em plantas eólicas, biomassa e solar em 2050. Nesse programa haveria o desligamento das plantas nucleares e de usinas à base de fósseis. O programa veio com grande determinação e desde 2014 as energias renováveis são as fontes mais importantes da matriz elétrica da Alemanha, fornecendo um terço da energia consumida no país. Há dez anos forneciam apenas 9%. O plano estabeleceu chegar a 2020 com uma redução de 40% das emissões em relação aos dados de 1990. Mas há especialistas que preveem que o país não atingirá essa meta. A grande questão levantada é se será possível acabar com o parque nuclear apenas com energias renováveis ​​e, ao mesmo tempo, reduzir as emissões. A “Energiewende”, no entanto, tem trazido insatisfações ao povo alemão, pois o preço da eletricidade tem afetado os orçamentos familiares. Essa política traz maiores custos de produção de energia e consequentemente dos preços das tarifas de eletricidade. A poderosa indústria alemã, já que a Alemanha é um dos países mais industrializados do mundo, e, sobretudo, a indústria elétrica não renovável, que perde com os subsídios dado aos investidores de plantas renováveis, vêm pressionando o governo alemão para alterar o ritmo do “Energiewende”. A própria Comunidade Europeia pressionou para haver mudanças. De fato, uma nova lei de incentivos às fontes de energia renováveis, EEG 2.0 (Erneuerbare Energien Gesetz), freia o apoio a essas fontes para garantir, sobretudo, a competitividade da indústria alemã. A Alemanha tem, ainda, a questão da transmissão de energia produzida no Mar do Norte pelas Eólicas para a região de maior demanda que é o sul do paemissõesís. E como fator complicador, a população também pressiona para não haver poluição visual com linhas de transmissão.

Outra informação relevante é o documento que a Comissão Europeia publicou sobre o aumento das emissões preliminares em 2017, no âmbito do Esquema de Comércio de Emissões (ECE/UE), conforme aponta o Instituto Sandbag – Smarter Climate Policy (SANDBAG, 2018) (1). O ECE da EU é o maior esquema de comércio de emissões de gases de efeito estufa de todo o mundo, envolvendo múltiplos países e setores. Segundo o Instituto, a taxa de construção de plantas eólicas e solar não é suficiente para descarbonizar o setor de energia, no período desejado, ao mesmo tempo que usinas nucleares fecham. Há ainda um agravante que é o cenário de aumento da demanda por eletricidade nesse período. O Sandbag aponta que as emissões de fontes estacionárias totais (2) do ECE/EU aumentaram 0,3% em 2017, o que corresponde ao primeiro aumento em 7 anos. No ano de 2010, as emissões se recuperaram ligeiramente em 2%, após uma queda de 11% em 2009. As emissões caíram, em média, 2,7% /a.a nos primeiros 11 anos do ECE/EU de 2005 a 2016.

No ano de 2017, as emissões do setor elétrico foram afetadas, também, pela queda da produção nuclear francesa que caiu para o nível mais baixo, neste século, bem como da geração hidroelétrica na União Europeia. Vale destacar, ainda, que quase 40 % das emissões do ECE/EU foram provenientes de usinas a carvão e, pela primeira vez, mais da metade delas são de linhito (carvão de baixo poder calórico) que já superou as emissões de carvão, no ano de 2017. Mesmo na Alemanha as emissões do uso de linhito diminuíram somente 1%. Os outros países emissores também aumentaram as emissões com o uso do linhito (3).

Uma outra análise que foi trazida para essa postagem é a do pesquisador e escritor Michael Shellenberger, que hoje é o presidente da Organização Environmental Progress, que tem como missão “tirar todos os seres humanos da pobreza e salvar o meio ambiente, tendo como estratégia manter sua independência financeira sem contribuições de empresas de energia ou de quaisquer interesses voltados a energia” (EP 2018). Shellenberger tem trazido muitas polêmicas para o meio energético, sobretudo para os ambientalistas dedicados ao setor elétrico. Ele afirma, por exemplo, que “se a Alemanha não tivesse fechado as plantas nucleares, as suas emissões seriam cerca de 40 % menores do que são atualmente”. Adiciona que “o preço da eletricidade na Alemanha é o dobro da França porque a Alemanha necessitou de muita eletricidade na transição para fontes renováveis” (SHELLENBERGER, 2017).

As conclusões deixadas para reflexão são: i) o ritmo de construção das plantas eólicas e solar ainda não sustenta as quedas nas emissões do setor elétrico na Europa; ii) os mecanismos de incentivos para as renováveis estão trazendo prejuízos a outros segmentos econômicos, principalmente na Alemanha; iii) esses mecanismos estão sendo revistos e pode haver uma diminuição, ainda maior, nesse ritmo de implantação de novas renováveis, o que pode atrasar os compromissos de diminuição das emissões; iv) as usinas nucleares ao saírem da matriz elétrica de determinados países vão impactar o cronograma da diminuição das emissões e as metas estabelecidas não vão se configurar; v) cada país busca primordialmente a sua segurança energética, e cada decisão deve ser bem avaliada internamente pelos decisores de políticas energéticas.

Eis, então, a questão: para atingir os níveis de emissões de gases de efeito estufa previstos nos prazos desejáveis no mercado europeu, será necessária a participação das usinas nucleares, juntamente com a construção de usinas renováveis?

Referências:

  1. Queiroz (2010). Blog Infopetro GEE/ IE/UFRJ postagem publicada em 22/01/2010 sob o titulo:”O planejamento energético em uma era de transitoriedade”.
  2. SANDBAG (2018) – Sandbag –Smarter Climate Policy Disponível: https://sandbag.org.uk/2018/04/03/new-data-european-ets-emissions-rise-for-first-time-in-7-years/
  3. IEA (2017) – Renewables 2017. Agencia Internacional de Energia. Disponível: https://www.iea.org/publications/renewables2017/
  4. IEA- International Energy Agency. World Energy Outlook (WEO)2017:Disponível: http://www.iea.org/
  5. BLOOMBERG(2015). Disponível : https://www.bloomberg.com/news/articles/2015-09-16/sweden-boosts-renewables-to-become-first-fossil-fuel-free-nation
  6. VIENA (2017). Vienna Energy Forum – Disponível: https://www.unido.org/news-centre/events/vienna-energy-forum/vienna-energy-forum-2017
  7. EP (2018). Environmental Progress. Disponível: http://environmentalprogress.org/
  8. SHELLENBERGER (2017).“Why I changed my mind about nuclear power” Michael Shellenberger.Disponível:https://www.youtube.com/watch?v=ciStnd9Y2ak

Notas:

  1. Instituto Europeu e do Reino Unido de Pesquisas sobre políticas climáticas tem sedes em Bruxelas e Londres. O Instituto tem como principal foco melhorar o funcionamento do Regulamento do “Esquema de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa da União Europeia – ECE/EU”, em inglês, Emissions Trading Scheme – ETS.
  2. Fontes que se encontram em um local fixo, como as refinarias, indústrias químicas, e centrais de energia elétrica.
  3. Polônia, República Tcheca, Grécia, Bulgária, Romênia e Espanha.

Leia outros textos de Renato Queiroz no Blog Infopetro

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