Grupo de Economia da Energia

Transição energética: lenta, gradual e irrestrita

In energia on 26/11/2018 at 10:56

Por Renato Queiroz

renato112018O Grupo de Economia da Energia (GEE) vem discutindo internamente, ao longo do presente ano, as transformações no setor energético – tanto no campo das inovações tecnológicas quanto no âmbito das estratégias empresariais e das políticas públicas, dentro do movimento mundial denominado, de Transição Energética. Essas transformações trazem uma riqueza nas agendas de pesquisa.

De fato, o uso da energia está em franca transformação. Sistemas elétricos inteligentes (smart grids), carros elétricos em substituição aos convencionais a combustão, cidades com uma grande quantidade de sensores e aparatos elétricos, novas tecnologias  de geração de eletricidade (sobretudo renováveis), competindo com as tradicionais e assim por diante. Ou seja, os países ricos nos apresentam uma verdadeira engenharia de inovações disruptivas que já estão invadindo a nossa forma de viver. O que se apresenta é um mundo cada vez mais digital e robotizado sob pinceladas “verdes”.

As agendas dos reguladores também se tornam bem mais complexas, assim como as rotinas das indústrias. Não temos a mínima ideia, por exemplo, de como serão as modalidades de trabalho daqui a 25 anos, desde a produção de um saco de biscoitos até a mobilidade urbana.

“A mudança é a lei da vida. E aqueles que apenas olham para o passado ou para o presente irão com certeza perder o futuro”. John Kennedy

No caso da indústria da energia há transformações muito rápidas como nunca visto antes. Mas todas essas mudanças são movidas por um drive exógeno ao setor energético, as Mudanças Climáticas. Segundo os cientistas, os países devem desenvolver esforços para uma meta limite de aquecimento global de 1,5 graus Celsius. Os 2º C, antes considerados como meta já não são mais seguros para a humanidade, sendo prejudiciais aos ecossistemas no mundo todo. Os especialistas em clima já sinalizaram que os riscos de mudanças climáticas[1] sem controle podem ameaçar, no mínimo, 20% do PIB mundial.  A transição para uma economia de baixo carbono é um desafio que vem exigindo ações tanto por parte das instituições privadas, quanto por parte das públicas. Os problemas decorrentes do aquecimento global se constituem na principal evidência das mudanças climáticas.

O mundo empresarial já estabelece em seus planos de negócios estratégias que atendam às exigências dos organismos ambientais internacionais evitando, assim, as barreiras comerciais nos mercados importadores e exportadores globais.  As questões ambientais não são mais discutidas dentro de um ambiente que atenda às demandas sociais locais. Elas já geram pressões do mercado no mundo corporativo. Os acordos que buscam a diminuição do aquecimento global já impactam o comércio internacional.

Cumpre destacar, no entanto, que, mesmo com todo esse ambiente global de mudanças climáticas atingindo, inclusive, o mundo dos negócios, a Agência Internacional de Energia, AIE, divulgou em julho deste ano o relatório World Energy Investment 2018, que traz análises inquietantes. O investimento global em energia renovável caiu 7% em 2017 e, em contrapartida, o investimento em combustíveis fósseis cresceu, mesmo com a geração de eletricidade atraindo mais capital do que a indústria de petróleo e gás natural. O próprio relatório traça um diagnóstico buscando explicar  esses resultados como: a retomada da indústria do Xisto nos EUA; o aumento dos investimentos no setor petrolífero pelas empresas petrolíferas; o aumento de  plantas de geração a combustível fóssil na Ásia; o corte de subsídios em novos projetos de energia solar da China[2]; maturidade tecnológica de fontes como a eólica e solar com a diminuição dos custos de capital dessas fontes como painéis solares e turbinas eólicas e queda dos investimentos em geração hidrelétrica. O fato é que o crescimento da capacidade adicionada das renováveis foi menor em 2017.

Sobre a evolução do uso do grande vilão da sociedade consumidora de fontes fósseis, o carvão, verifica-se que os investimentos em usinas de geração de eletricidade a carvão vêm caindo. Isso se deve à desaceleração na China, Índia e Sudeste Asiático (WEI 2018). Mas é bom alertar que no mundo há novas plantas em construção, projetos para saírem das gavetas e usinas operando ainda com uma vida útil longa.

A velocidade das transformações no setor energético tem sido rápida, pois as mudanças vêm oferecendo amplo campo de oportunidades para novos mercados e novos investimentos lucrativos.

Mas o processo de transição energética, embora lento e gradual, parece não ter volta.

Os esforços para restringir o aumento da temperatura da Terra são enormes.  Não faltam, políticas, diretrizes e acordos, buscando alterações na forma de gerar e usar a energia.  O Acordo de Paris, aprovado em dezembro de 2015, e que entrou em vigor, oficialmente, em novembro de 2016, determinou metas para todos os 195 países signatários do acordo a partir de 2020. Mas observa-se que há incertezas quanto ao cumprimento dessas metas. As contestações do presidente americano, por exemplo, em relação ao Acordo, trazem retrocessos significativos ao movimento global de mudanças climáticas e ainda influenciam outros países a seguirem essa decisão, o que posterga as metas de controle do aquecimento global.

Referências:

  1. RICA (2011). Revista Ibero‐Americana de Ciências Ambientais v.2 ‐ n.1 Maio de 2011
  2. WEI (2018). World Energy Investment 2018-International Energy Agency-IEA

Notas:

[1] O aquecimento global refere-se ao aumento estacionário (estocástico), a longo prazo, neste equilíbrio de temperatura resultado de um processo de acúmulo de gases de efeito estufa na atmosfera, que está em curso desde a revolução industrial. O efeito estufa refere-se ao processo natural no qual a presença de certos gases na atmosfera faz com parte da energia solar irradiada à Terra não seja dissipada para o espaço, permitindo a existência de um equilíbrio da temperatura na superfície do planeta( RICA2011).

[2] A participação da China no investimento global em energia solar fotovoltaica beira a 40%. Como a China atua no setor energético mundial através de empresas estatais, as políticas públicas de corte de subsídios influem nos investimentos chineses no mundo.

Leia outros textos de Renato Queiroz no Blog Infopetro

  1. Republicou isso em Itaparica Ambiental.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s