Grupo de Economia da Energia

O comportamento dos preços do petróleo no ano de 2020

In petróleo on 07/10/2020 at 15:00

Helder Queiroz e Pedro Pontillo (*)

O ano de 2020 ficará marcado na História por conta da pandemia do COVID 19 e de seus impactos econômicos. Para o mercado internacional do petróleo o ano também se revelou particularmente especial, mesmo antes da pandemia. Tal como destacado em trabalho anterior1,  as flutuações de preços foram significativas, desde o início do ano e se acentuaram após o início da pandemia. Nos últimos doze meses, o barril do petróleo tipo Brent oscilou entre US$ 16 e US$ 72. Entretanto, desde junho a volatilidade foi fortemente reduzida e um novo patamar de preços, entre US$ 40-45, pode ser identificado. Este artigo busca reunir alguns elementos explicativos sobre o comportamento dos preços ao longo de 2020.  

Evidentemente, o traço saliente das flutuações de preços no primeiro semestre está relacionado à forte queda da demanda no período março-abril 2020, com redução de 7,3%, ou seja, aproximadamente 7,3 milhões de barris/dia (ver tabela 1). De acordo com esses números, a demanda por petróleo em 2020 terá uma queda de quase 9% em relação ao ano anterior, principalmente pelos impactos do primeiro semestre na economia mundial.

Tabela 1: Demanda Mundial por Petróleo em 2020 

Fonte: OPEC Monthly Oil Market Report – Julho 2020 

Assim, como pode ser observado no gráfico 1, o preço do petróleo sofreu uma brutal queda a partir de março, conseguindo iniciar sua recuperação apenas no fim de abril. Esse comportamento se explica por fatores relacionados à demanda ao longo do ano. Porém, cabe destacar igualmente a importância de alguns choques de oferta que causaram uma movimentação considerável nos preços em determinados momentos do ano. 

Neste registro, o fato mais marcante do período de instabilidade foi o descolamento dos preços dos petróleos tipo Brent e WTI e o episódio registrado, em 20 de abril, de preços negativos (Petróleo WTI) no dia 20/04/2020. 

Tal como explicado por Delgado e Pinto Jr (2020)2, com preços futuros no mercado futuro mais baixos que os preços spot, os comercializadores buscaram liquidar rapidamente os contratos para evitar a entrega física do barril, devido às restrições de espaço para armazenagem. Essa corrida de liquidação de contratos levou a uma queda contínua e sem precedentes dos preços do petróleo WTI que, em poucas horas, atingiu valores negativos, tal como destacado no gráfico 1. Isto significa que os compradores passaram a pagar aos fornecedores para não receber o produto.

Gráfico 1 – Petróleo Brent e WTI ao longo do ano 2020 

Fonte: Investing.com

O Gráfico 1 ilustra ainda as variações do preço de alta e baixa do petróleo, desde janeiro. É importante recordar alguns dos fatores explicativos de tais oscilações. No plano geopolítico, as tensões se agravaram, com reflexos de alta nos preços, logo na primeira semana do ano, após a morte do general iraniano Qasem Soleimani, no Iraque, o que suscitou grandes preocupações acerca das tensões entre EUA e Irã. Tal situação agravou o conflito dos EUA com o Irã e afetou as expectativas com a oferta de petróleo no curtíssimo prazo e os preços se mantiveram em alta por quatro dias. Após pronunciamento de Donald Trump, amenizando o conflito e melhorando as expectativas sobre o mercado de petróleo, os preços interromperam a tendência altista.  

É importante, ainda, observar a diferença3 entre os comportamentos de subida e descida do preço do petróleo no início do ano. O crescimento ocorreu de forma muito mais rápida e retornou ao preço anterior na mesma velocidade. Além das questões particulares de cada conflito, um dos fatores para tal comportamento se trata de problemas com expectativas de oferta. O conflito no Irã afeta diretamente a produção de petróleo, ou seja, qualquer indicativo de amenização dos conflitos já propiciam o retorno da oferta do óleo ao seu nível normal, regulando os preços. 

Por outro lado, o início da queda dos preços ocorreu pela incerteza tanto do lado da oferta, quanto da demanda. Com relação à oferta, o fracasso das negociações sobre redução da produção, na primeira semana de março, lideradas pela Arábia Saudita, e a Rússia, principal produtor Não OPEP, provocou uma guerra de preços, iniciada pelos árabes e grandes disputas por market share. E, pelo lado da demanda, tal como já mencionado, a crise sanitária do COVID-19 e a consequente desaceleração da economia global, influenciaram as expectativas de consumidores e produtores.  

Segundo Delgado e Pinto Jr (2020), essa situação impactou fortemente o nível de investimentos na indústria do petróleo. E, como lembrado em Pinto Jr (2020) 4, logo após quedas acentuadas de preços do petróleo, ocorrem revisões dos planos estratégicos das companhias petrolíferas, seguidas de medidas gerais de redução de custos operacionais (opex) e do capex, em especial dos investimentos nas atividades de maior risco como upstream. 

Por fim, é importante observar que, desde junho, as empresas de petróleo e os importadores parecem acomodar as expectativas em torno de um novo patamar de preços (US$ 40-US$ 45). É difícil prever por quanto tempo esse patamar irá perdurar, mas, tal como ilustra o gráfico 2, a forte volatilidade de janeiro a junho de 2020 dá sinais de ter se reduzido. No gráfico 2, analisando apenas o Petróleo Brent, é possível observar as variações diárias, em termos percentuais, do preço do petróleo desde o início do ano.

Gráfico 2: Variação de Preços do Petróleo Brent em 2020 

Fonte: Investing.com 

É visível como a variação se acentua entre os meses de Março e Abril, quando ocorreram as grandes quedas e a “guerra” de preços, e aparenta mostrar uma maior estabilidade no início do segundo semestre do ano. Além disso, a diferença aberta entre o petróleo Brent e WTI também deixou de existir após a redução da oferta dos principais produtores e o fim da guerra de preços, iniciada pela Arábia Saudita em março. Desde então, a produção saudita foi reduzida de 9,8 para 7,5 milhões de barris/dia (junho de 2020). A produção da Rússia também diminui de 11,5 para 10,2 milhões de barris/dia; e, no mesmo período, a produção norte-americana caiu cerca de 1 milhão de barris/dia. 

A evolução futura dos preços dependerá das saídas das crises sanitária e econômicas globais, as quais serão decisivas para a retomada de crescimento. Entretanto, as flutuações de preços, oferta e demanda ocorridas este ano reforçam o principal aspecto estrutural na indústria mundial do petróleo e que deverá estar presente a curto e médio prazos: excesso de oferta e aumento da concorrência, com disputas por market share por parte dos produtores.

Notas:

(*) Assistente de pesquisa GE/IE/UFRJ

(1) – Pinto Jr, H.Q. (2020), “O Mercado de Petróleo em 2020: incerteza, volatilidade e tentativas de adaptação” https://infopetro.wordpress.com/2020/03/28/o-mercado-de-petroleo-em-2020-incerteza-volatilidade-e-tentativas-de-adaptacao/#more-8622 

(2) – Delgado, F. , Pinto Jr, H.Q “Petróleo: perspectivas e condições para os investimentos”, in Conjuntura Econômica, vol 74, n. 6, pp 46-48.

(3) – Essa diferença também pôde ser observada em setembro de 2019, quando o preço cresceu e diminuiu de forma muito rápida, também por conta de um conflito pelo lado da oferta. Dessa maneira, o comportamento do preço do petróleo varia de forma diferente dependendo de 2 fatores principais, se a trajetória é de crescimento ou de queda, e se a causa da variação se trata de questões de oferta ou demanda.

(4) – Pinto Jr, H.Q. (2020), “O Mercado de Petróleo em 2020: incerteza, volatilidade e tentativas de adaptação” https://infopetro.wordpress.com/2020/03/28/o-mercado-de-petroleo-em-2020-incerteza-volatilidade-e-tentativas-de-adaptacao/#more-8622

 

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