Grupo de Economia da Energia

A indústria de gás natural em 2020

In gás natural on 15/07/2021 at 19:47

Marcelo Colomer

O gás natural talvez tenha sido o combustível fóssil com maior resiliência durante o ano de 2020. Isto é, apesar da queda do consumo de 2,3%, a mesma verificada na crise financeira de 2009, a participação do gás natural na matriz energética mundial manteve seu crescimento, atingindo 24,7%. (BP, 2021)

O consumo de gás natural se reduziu basicamente em todas as regiões, com exceção da China e do Iran que viram o consumo do energético aumentar em 6,9% e 4,0% respectivamente. Nos EUA e na Europa, a redução do consumo foi respectivamente de 2,6% e 2,5%. (BP, 2021)

A produção mundial de gás natural em 2020 acompanhou a queda da demanda se reduzindo em 3,3%. Na Rússia e nos EUA, essas quedas foram de 41 e 15 bcm, respectivamente. Seguindo a tendência da produção, houve uma redução dos esforços exploratórios o que levou a uma redução das reservas provadas de 2,2 Tcm (BP, 2021). Atualmente a relação reserva produção (R/P) no mundo é de 48 anos, com destaque para o oriente médio (110 anos). 

Figura 1 – Produção e Consumo de Gás Natural por Região

Gráfico

Descrição gerada automaticamente

Fonte: (BP, 2021)

A pandemia do Covid-19 também reduziu significativamente o comércio de gás natural, que se contraiu em 5,3%. O comércio de GNL aumentou apenas 0,6%, patamar este muito abaixo dos últimos 10 anos (média de 6,8% ao ano) (BP, 2021). As regiões mais afetadas pela redução do comércio de GNL foram a Europa e a África.

Sendo um dos principais mercados de gás natural, o comércio na Europa funciona como um termômetro para o preço do gás natural. Caracterizado pela competição gás-gás e por uma elevada participação do GNL na oferta regional, o mercado europeu apresenta uma elevada influência sobre os preços internacionais absorvendo ou refletindo as variações na oferta do mercado norte americano e as variações de demanda do mercado Asiático. 

No primeiro semestre de 2020, por exemplo, as exportações de gás da Rússia para a Europa reduziram sua participação na estrutura de oferta europeia de 35 para 31% enquanto a participação do GNL praticamente não se alterou (BP, 2021). Isto é, a redução da demanda ocorrida em 2020 se refletiu basicamente na redução das importações provenientes da Rússia, que preferiu perder mercado a ajustar seus preços às novas condições de consumo. 

Figura 2 – Comércio Internacional de GNL

Gráfico, Gráfico de superfície

Descrição gerada automaticamente

Fonte: (BP, 2021)

Os gráficos acima chamam a atenção para a entrada dos EUA no comércio de GNL ocorrida a partir de 2015. Fruto da expansão da produção decorrente da “revolução” do shale gas, as importações de GNL norte-americanas vêm crescendo nos últimos anos, disputando tradicionais mercado antes dominados pela Austrália, Indonésia e Catar.

Apesar da demanda de gás natural ter se mostrado mais resiliente do que a dos demais combustíveis fósseis, a queda dos preços do gás natural, tanto no mercado norte-americano quanto no mercado asiático, atingiu níveis recordes em 2020. A cotação do metano no Henry Hub (principal hub de negociação norte-americano) chegou a U$ 1,99/MMBtu, o menor índice desde 1995. No mercado asiático, esse preço chegou a U$ 4,39/MMBtu, o mais baixo da história (BP, 2021). 

De fato, a queda acentuada dos preços do gás natural ocorrida em 2020 nada mais foi do que um reforço do comportamento, já verificado nos últimos anos, do preço do gás natural. A entrada dos EUA no mercado de GNL, a conclusão de vários mega projetos de liquefação na bacia do Pacífico e a redução da demanda de gás natural na Europa em função da expansão das energias renováveis vem puxando o preço do gás natural para baixo desde dezembro de 2018.

De fato, até 2019, o mercado internacional vinha conseguindo absorver o excesso de oferta. Com a redução do consumo de gás natural chinês e com a contração dos demais mercados asiáticos ocorrida no primeiro trimestre de 2019, o preço spot do gás natural liquefeito, tanto na Ásia quanto na Europa, caiu do patamar de U$ 10 por MMBtu para cerca de U$ 5 por MMBtu. 

Os preços só não caíram mais porque durante 2019 o mercado europeu, aproveitando-se dos preços baixos do GNL no mercado spot, absorveu o excesso de oferta a partir da redução da produção local de gás natural e da injeção de um elevado volume de gás importado em suas infraestruturas de estocagem. Como resultado, as importações europeias de GNL no inverno de 2018/2019 mais que dobraram. Dessa forma, 2020 se inicia com elevados estoques de GNL no mercado Europeu, com um inverno relativamente ameno no hemisfério norte e com as primeiras notícias sobre um novo vírus na China, o Covid-19.

As políticas de isolamento social necessárias para o controle da pandemia causada pelo COVID-19 levaram à redução drástica do consumo de energia, principalmente dos setores industrial e comercial. Nesse contexto, ao excesso de oferta que vinha se formando no mercado de GNL desde 2015 somou-se, em 2020, uma drástica redução da demanda de gás natural.

Até março de 2020, contudo, as quedas verificadas nos preços spots do gás natural, eram de certa forma, amortecidas pelos contratos de GNL indexados ao preço do barril de petróleo. Assim, muitas empresas exportadoras de GNL conseguiram reduzir suas perdas a partir dos seus contratos de exportação indexados ao preço do petróleo. É importante ressaltar que atualmente 2/3 das vendas de GNL no mercado internacional se dão sob contratos indexados ao petróleo. A partir de março de 2020, no entanto, a queda acentuada no preço do barril de petróleo reduziu o spread entre os preços spot e os preços indexados. 

Embora o GNL seja responsável por apenas 11% da oferta global de gás natural, seu papel como fonte de suprimento marginal em muitos mercados pressiona os preços Spots em muitos hubs de negociação. Isso pode ser visto, atualmente, no mercado norte-americano onde o preço do henry hub vem se mantendo abaixo de U$ de 2 por MMBtu desde janeiro de 2020. 

Existem inúmeras incertezas no mercado de gás natural. Puxado principalmente pelos esforços de mitigação do aquecimento global, o crescimento da demanda mundial de gás natural irá depender do impacto da recessão econômica sobre a trajetória de transição energética dos países. Existe uma grande incerteza sobre o processo de transição energética no mundo pós Covid. A manutenção das políticas de redução dos níveis de emissão pode abrir, no médio e longo prazo, novos mercados para o gás natural. Por outro lado, o reforço das políticas nacionais em detrimento dos acordos de cooperação internacionais poderá levar a valorização das dotações de recursos de cada país. Nesse sentido, há um menor esforço de conversão do setor elétrico para carvão em países com grandes reservas carboníferas. 

Bibliografia

BP. (12 de Julho de 2021). Statistical Review of World Energy. Fonte: BP : https://www.bp.com/en/global/corporate/energy-economics/statistical-review-of-world-energy/natural-gas.html

Leia outros textos de Marcelo Colomer no Blog Infopetro

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