Grupo de Economia da Energia

Transição Energética: Como as companhias petrolíferas estão se preparando para atuarem numa economia de baixo carbono

In petróleo on 05/09/2021 at 22:20

Carlos Felipe G. Lodi[1]

No início de agosto de 2021, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) divulgou um relatório preparatório para a COP26, a realizar-se em Glasgow em novembro deste mesmo ano, considerando cenários que indicam, com mais de 50% de probabilidade, que o limite de temperatura de 1,5ºC acima da era pré-industrial poderá ser atingido até 2040, uma década antes das suas previsões anteriores.

Tal constatação provocará os governos dos países signatários do Acordo de Paris a anteciparem e reforçarem as metas de redução de emissões de gases de efeito estufa (GEE), com impactos maiores ainda do que os previstos sobre o setor energético mundial e, em particular, sobre as companhias petrolíferas, uma vez que essa indústria, ao longo de toda a sua cadeia de valor, é responsável por cerca de 53% das emissões no planeta.

O propósito deste artigo é apresentar um panorama geral atualizado das estratégias que vêm sendo adotadas pelas principais companhias petrolíferas no contexto da transição energética e trazer elementos para uma reflexão sobre a velocidade com que está se dando a sua transformação para atuarem competitivamente numa economia de baixo carbono, vis-à-vis à adoção das tecnologias inventariadas pela IEA (International Energy Agency) e pela IRENA (International Renewable Energy Agency).

A análise se baseia nos movimentos estratégicos de grupos de empresas, cujas estratégias individuais foram estudadas detalhadamente e consolidadas pelos autores que constam nas referências. Convencionalmente, as companhias petrolíferas são divididas em quatro grupos: as integradas internacionais (International Oil Companies – IOCs), as independentes, as estatais nacionais (National Oil Companies – NOCs) e as estatais internacionais (International Oil Companies – INOCs). 

 As IOCs representam a ponta mais dinâmica da indústria sob os pontos de vista financeiro e tecnológico e são listadas nas principais bolsas de valores do mundo. Têm menor participação em reservas e produção, mas são dominantes no downstream (refino, trading, distribuição e revenda). Com base nas pesquisas realizadas para fins do presente artigo, esse grupo, o qual também será referido como Majors, é formado por: BP, Chevron, Eni, Equinor, Exxon Mobil, RD Shell e Total[2].

As companhias independentes concentram suas atividades em determinados países e regiões, podendo ser localmente integradas ou circunscritas ao upstream (exploração e produção) ou downstream da cadeia petrolífera; pela diversidade que apresenta, esse grupo não costuma ser considerado em trabalhos comparativos internacionais mais amplos.

As NOCs mais relevantes são tipicamente as empresas estatais dos países grandes produtores e exportadores, cujas estratégias são direcionadas pelas políticas governamentais; pertencem a esse grupo: ADNOC, KPC, NIOC, PDO, Pemex e Saudi Aramco. As INOCs, por sua vez, são controladas societariamente pelos estados nacionais que as instituíram e são listadas em bolsas de valores, com uma governança mais próxima das IOCs, porém com visões e missões corporativas que contemplam interesses sociais de seus países-sede; neste grupo, são analisadas a Petronas da Malásia, as chinesas CNOOC e CNPC e as russas Gazprom e Rosneft.

A Petrobras, citada em algumas das fontes consultadas, vem passando, nos últimos anos, por um significativo reposicionamento estratégico e seu direcionamento para a economia de baixo carbono merece ser abordado com maior profundidade em trabalhos futuros.

Cenários para a Transição Energética 

A transição energética compreende um conjunto de mudanças tecnológicas, econômicas, políticas e sociais, cuja consecução depende de investimentos, instituições, crenças e valores para sustentar essas mudanças. A necessidade de fazer a transição energética e o reconhecimento das grandes metas que se pretende atingir são tendências consolidadas nos cenários energéticos de longo prazo; por outro lado, a velocidade com que as transformações vão acontecer são a principal incerteza que condiciona as decisões estratégicas das companhias petrolíferas.

 A dimensão de tal incerteza fica bem caracterizada nos dois cenários adotados pela IEA (2020a), como mostra a tabela 1. No cenário STEPS (Stated Policies Scenario), baseado nas políticas vigentes e com a premissa de que a pandemia da COVID-19 esteja controlada até o final de 2021, a demanda mundial de energia primária crescerá a uma taxa de 0,8% a.a. até 2040, com o óleo e o gás natural atendendo, conjuntamente, a 54% das necessidades globais em 2030 e a 53%, em 2040, participações semelhantes a que têm atualmente. No cenário SDS (Sustainable Development Scenario), onde se consideram investimentos vultosos em energia limpa nas próximas décadas, a demanda de energia primária cairá a uma taxa de -0,5% a.a., com o óleo e o gás natural conseguindo manter sua participação conjunta em 2030, mas caindo para 46% em 2040. Em ambos os cenários, a bioenergia e outras fontes renováveis adquirem papel crescente para atender a demanda de energia primária, atingindo participações de 19% e 31%, respectivamente, no final das duas próximas décadas.

Tabela 1 – Cenários da IEA: Demanda de Energia Primárias (Mtoe)

Fonte: IEA (2020a)

De acordo ainda com a IEA (2021), o cenário SDS pavimenta um caminho para que, em 2050, o setor energético mundial consiga operar com emissões líquidas nulas de GEE. Nesse cenário (NZE2050), resumido na tabela 2, a eletricidade assume um papel preponderante para suprir o consumo mundial de energia (49%), novos combustíveis de origens renovável e sintética emergem e o óleo e o gás natural juntos têm sua participação reduzida a18%, sendo o primeiro destinado à produção de combustíveis líquidos.

Tabela 2 – Cenário IEA Net-Zero 2050: Consumo Final de Energia (EJ)

                               Fonte: IEA (2021)

As principais tendências que explicam essas mudanças na demanda de energia, além do expressivo aumento esperado da eficiência energética, são: o deslocamento dos motores de combustão interna por motores elétricos nos veículos de passeio e de cargas leves; o uso de biocombustíveis em todos os modais de transporte, incluindo rodoviário de carga pesada, marítimo e aeroviário; e o aumento das fontes renováveis na geração elétrica.

As políticas públicas constituem um fator determinante para a velocidade com que se dará a transição energética, mas trazem, ao mesmo tempo, incertezas pelo fato de serem mutáveis ao longo do tempo e de variarem geograficamente em função dos regimes políticos e dos ciclos eleitorais dos países, o que trás uma complexidade a mais para as decisões estratégicas das empresas de óleo e gás. Como Fattouh e Poudineh (2018) observam, a transição energética é direcionada pela política e não pela inovação tecnológica ou pela competitividade econômica das fontes de energia substitutas.

Um segundo aspecto crítico é a dependência que a transição energética tem com relação à disseminação de tecnologias já existentes e ao aperfeiçoamento ou desenvolvimento de novas, cuja velocidade tem dependido, historicamente, de estímulos governamentais como mandatos, tributações e subsídios, além de investimentos públicos para implantar infraestruturas – fundamental para a expansão da eletrificação – e para fomentar a P&D&I.

Por fim, mas não menos importante, uma importante fonte de incerteza diz respeito ao volume de recursos financeiros necessários para fazer a transição energética. A IEA (2020a) estima que o cenário SDS demanda recursos da ordem de UD$ 68 trilhões nos próximos 20 anos, ou seja, US$ 3,4 trilhões por ano, a serem arcados tanto pelos agentes privados, quanto pelos governos. Para as companhias petrolíferas, a decisão de investimentos dessa monta se torna mais difícil ainda num cenário de redução da demanda e de preços menores e mais voláteis para seus produtos.

Por outro lado, há cada vez mais fatos portadores de uma futura economia de baixo carbono que impelem as empresas de óleo e gás a colocarem em marcha a sua transformação. Para começar, as três maiores economias do planeta anunciaram recentemente programas de recuperação econômica pós-pandemia da COVID-19, que contemplam investimentos públicos e incentivos direcionados para a transição energética. Nos EUA, o Governo Biden pretende investir US$ 2 trilhões em quatro anos para incentivar o uso de energia limpa nos setores de transporte, eletricidade e construção civil.  A União Europeia criou o programa European Green Deal, com um orçamento de 1 trilhão de euros para a próxima década, com o objetivo de ajudar os 27 países do bloco a atingirem a meta de zero emissões de GEE em 2050; enquanto isso, a China definiu um plano para alcançá-la em 2060.

Paralelamente a esses programas estruturantes, é de se esperar a continuidade e ampliação de várias políticas governamentais concernentes à proibição de circulação de veículos com motores de combustão interna em grandes centros urbanos e ao estabelecimento de mandatos de redução das respectivas frotas e de substituição por veículos elétricos. A esse respeito, cabe comentar que a indústria automobilística tem sido bastante responsiva: entre 2010 e 2020 foram produzidos mais de 10 milhões de veículos elétricos e as previsões são de que em 2021 as vendas sejam o dobro das do ano anterior.[3]

Além das crescentes pressões da opinião pública em favor das questões climáticas e ambientais e de ações judiciais para forçar o cumprimento das metas do Acordo de Paris, os consumidores estão preferindo, cada vez mais, produtos “verdes”, incluindo substitutos de combustíveis fósseis, e mudando seu comportamento quanto à mobilidade, optando pelo transporte coletivo de qualidade, pelo uso compartilhado de veículos individuais e por outros modais elétricos para pequenas distâncias. Uma outra mudança de estilo de vida que já vinha se desenhando com o trabalho em domicílio (home-office) tende a se consolidar, reduzindo a demanda por transporte, segmento visto, pelas companhias petrolíferas, como o mais resiliente à transição energética.  

Os investidores e acionistas também estão cobrando dos administradores das empresas de óleo e gás – assim como de outras indústrias – compromissos e estratégias em favor da redução de emissões, de modo a mitigar os riscos de terem que fazer baixas contábeis de ativos que se tornem irrecuperáveis, a médio e longo prazos, na medida em que as políticas climáticas se tornem cada vez mais restritivas.

O posicionamento dos investidores está bem refletido no Relatório de Progresso da  Climate Action 100+ (2020), uma iniciativa que reúne 615 investidores em ativos que montam a US$ 55 trilhões em 167 empresas, responsáveis por mais de 80% das emissões globais de GEE. Os números para a indústria de óleo e gás são significativos: 39 empresas com US$ 1,9 trilhões em ativos. A instituição monitora seus movimentos através de indicadores como metas para redução de emissões no curto, médio e longo prazos, projetos aprovados fora dos cenários climáticos, alinhamento dos gastos de capital com os cenários da IEA e divulgação de premissas de preços para testes de imparidade, determinantes para baixas contábeis de ativos.

Beck et al (2021) desenvolveram um modelo para avaliar a competitividade da produção de óleo em campos existentes e de projetos em fase final de decisão de investimentos, considerando como variáveis os preços do petróleo e do carbono. Segundo eles, no ano de 2030, 90% da produção de óleo seria viável ao preço de US$ 60/bbl sem cobrança pelo carbono e 79% da produção resistiria ao preço de 100 US$/tonCO2. Para o petróleo a US$ 30/bbl, esses percentuais caem, respectivamente, para 26% e 19%.

O referido estudo apresenta os resultados por tipo de recurso, cabendo aqui destacar que para as reservas em águas profundas e ultraprofundas, sem precificação do carbono, 90% da produção se manteria competitiva a US$ 60/bbl de óleo, mas somente 4% se viabilizaria quando preço do petróleo cai para US$ 30/bbl; considerando a tonelada de CO2 a US$ 100, esses números se reduzem drasticamente para 64% e 5%, respectivamente.

Assim como os acionistas direcionam as companhias petrolíferas privadas, os governos dos países produtores e exportadores de petróleo determinam as estratégias das suas companhias petrolíferas estatais. Desde 2014, muitos desses países, principalmente em partes do Oriente Médio, vêm se engajando em programas de modernização e diversificação de suas economias para gerar empregos para uma expressiva população de jovens e reduzir a dependência fiscal da renda petrolífera no longo prazo[4].

De acordo com a IEA (2020b), o cenário STEPS gera para esses países uma perda de receita anual com as exportações de petróleo de US$ 1,8 bilhões para US$ 1,0 bilhão. Análise feita por Manley et Heller (2021) estimam que, se as NOCs não considerarem adequadamente a transição energética até 2030, elas correm o risco de que US$ 1 trilhão em investimentos possam não ter retorno financeiro se o preço do petróleo ficar abaixo de US$ 30/bbl e de US$ 400 bilhões, ao preço menor de US$ 40/bbl.

No caso da Rússia, a situação é diferente dos países do Oriente Médio, mas não menos significativa em termos de sustentabilidade da indústria de óleo e gás considerando o todo da economia. A renda petrolífera é captada sob a forma de tributação sobre as empresas, sendo a Gazprom e a Rosneft as maiores, com 50% de participação estatal, além de serem controladoras de várias empresas menores que foram re-estatizadas na primeira década do século XXI. As elevadas, ainda que voláteis, receitas fiscais têm sido utilizadas para proteger a pouca competitiva indústria doméstica e, desde 2016, depois das sanções internacionais impostas após a anexação da Criméia, elas têm sido utilizadas para financiar um programa de capacitação de setores estratégicos e de substituição de importações.[5]

Objetivos Estratégicos, Capacidades Empresariais e Escolhas Tecnológicas

 Diante das incertezas que os cenários de transição energética trazem, principalmente quanto à velocidade das mudanças necessárias para atingir as metas de redução de emissões, as IOCs e, em certa medida, as NIOCs, se defrontam com objetivos estratégicos, cuja conciliação em seus planejamentos estratégicos e em seus planos de negócios é uma tarefa bastante desafiadora.

 A sua primeira e fundamental decisão consiste em equilibrar as decisões de investimentos nos negócios de óleo e gás no curto prazo, garantindo retornos e pagamentos aos acionistas e fazer a transição para negócios de baixo carbono que vão possibilitar a sua sobrevivência e prosperidade no longo prazo. Isso significa terem que se recolher de um setor de alta lucratividade que dominam historicamente para entrarem em outros setores que comportam diferentes modelos de negócios e escalas, onde atuam competidores mais especializados e que apresentam menor potencial de geração de valor para os acionistas no curto prazo.

Além da alocação dos recursos para investimentos, é importante que as empresas de óleo e gás decidam sobre a sua distribuição ao longo do tempo, uma vez que o aumento da produção de gás natural é o viabilizador de uma primeira mudança para um combustível com menos carbono e as receitas com as vendas de hidrocarbonetos são indispensáveis para o financiamento da transição energética. Se o ritmo for muito lento, as companhias petrolíferas correm o risco de perder espaço para seus competidores nos negócios de baixo carbono e de terem que fazer baixas contábeis das reservas irrecuperáveis de óleo. Se o ritmo for muito acelerado, elas podem entrar precipitadamente em setores para os quais não tenham tido tempo de desenvolver suas capacidades técnicas e gerenciais ou de apostar em tecnologias menos promissoras ou pouco compatíveis com seus modelos de negócios tradicionais.

No caso das NOCs, essa escolha é um pouco mais fácil porque os investimentos em energias renováveis fazem parte dos programas de diversificação e modernização das economias nacionais, permitindo atender as crescentes demandas domésticas e deslocando excedentes da produção de hidrocarbonetos para a exportação, gerando receitas adicionais para financiar as reformas econômicos que os países planejam implantar.

Assim, as escolhas tecnológicas são chaves para definir as estratégias de transformação das companhias petrolíferas e as suas adequações às respectivas capacidades são determinantes da velocidade e do grau de sucesso desse movimento.

Além, naturalmente, da elevada geração de caixa e da liquidez financeira – que lhes permitem investir e P&D&I e fazer aquisições de empresas de energia de baixo carbono – as companhias de óleo e gás reúnem um conjunto expressivo de vantagens competitivas. Elas têm marcas fortes que ainda desfrutam de boa reputação junto aos consumidores, infraestruturas logísticas de transporte e de distribuição, redes de postos de revenda, ativos de produção e processos sinérgicos ou adaptáveis, campos desativados, conhecimentos especializados em geologia, engenharia química e em suprimento e comercialização (supply and trading) de commodities e experiência em gestão de projetos grandes e complexos, sobretudo em áreas offshore. A tabela 3 relaciona as tecnologias de energia de baixo carbono consideradas pela IEA (2020b) e pela IRENA (2020) com as capacidades das companhias petrolíferas elencadas acima.

Tabela 3 – Tecnologias de Baixo Carbono e Capacidades das Companhias Petrolíferas

*Carbon Capture, Usage and Storage

Fontes: IEA (2020b) e IRENA (2020). Elaboração do autor.

Cabe observar que o caminho natural das companhias petrolíferas para iniciar a sua descarbonização tem sido, já há alguns anos, a intensificação de suas atividades para o gás natural, não só pelas sinergias inequívocas entre as duas cadeias produtivas, como também pela oportunidade de entrada no mercado de geração elétrica à gás para atender às suas operações e para comercializarem com as redes de distribuição. Algumas empresas, como será visto mais adiante, têm se expandido para a geração elétrica a partir de fontes renováveis, como a solar e a eólica, principalmente através de aquisições e parcerias, tendo em vista a diversidade entre os modelos de negócios e falta de experiência operacional e comercial. Além disso, a eletricidade, por si só, não é suficiente para compensar a perda de participação no setor de transportes.

A integração para a indústria petroquímica, seja através de aquisições, parcerias ou diversificação das refinarias, representa uma alternativa importante para a transformação das companhias de petróleo em função das sinergias de ativos e processos, conhecimentos de engenharia química e de supply & trading e do compartilhamento das grandes infraestruturas logísticas.

Estratégias Genéricas

Uma forma de tipificar as estratégias genéricas que as companhias petrolíferas estão empreendendo ou pretendem adotar para se preparar para uma economia de baixo carbono consiste em avaliar os compromissos que elas anunciam em termos de metas de redução de emissões e os respectivos investimentos em operações correntes, tecnologias e modelos de negócios em linha com os três escopos estabelecidos pelo Protocolo Internacional de GEE (CHG Protocol). A tabela 4 apresenta as opções tecnológicas da indústria de óleo e gás para cada um desses escopos.

Tabela 4 – Opções Tecnológicas para a Indústria de Óleo e Gás

Escopo 1Escopo 2Escopo 3
Emissões DiretasEmissões Indiretas
Operações efetuadas ou controladas pela empresaGeração adquirida de energia elétrica, vapor, calor ou resfriamento pela empresaOperações na cadeia de valor da empresa, tanto no upstream quanto no downstream
Aumentos de eficiência (substituição de válvulas, bombas e compressores) Instalação de unidades de recuperação de vapor Redução de flaring e venting de* Reduções de metano Mudança de óleo para gás Uso de renováveis Uso de CCUS no refinoDependente do poder de barganha das companhias petrolíferas sobre seus fornecedores para aumentarem suas eficiências energéticas e substituíres carvão e óleo por gás e renováveis como insumosUso de CCUS Aumentar injeção de CO2 na EOR Biocombustíveis (e outros líquidos de baixo carbono) Hidrogênio (e outros gases de baixo carbono) Mudar foco do portfólio de óleo para gás Aumento da participação da eletricidade na geração renovável (eólica off e onshore, solar) e na comercialização Expansão da produção de petroquímicos Aumentar investimentos de P&D em baterias, hidrogênio e CCUS

*Flairing é a queima controlada de hidrocarbonetos gasosos e venting é a liberação direta de metano, resultantes dos processos da indústria de óleo e gás.    Fonte: IEA (2020b); Porter et al (2020).  Elaboração do autor.

Com base nessa estrutura e nas análises das estratégias individuais das companhias petrolíferas detalhadas nas referências deste artigo, podem ser identificadas cinco estratégias genéricas: reativa, conservadora, de adaptação intensiva ou extensiva e disruptiva.

A estratégia reativa consiste em a empresa não aderir voluntariamente a qualquer opção acima, a não ser que as operações sejam ameaçadas pela regulação. É o caso de algumas companhias independentes de pequeno porte, tanto de upstream, quanto de downstream, cujos ativos estejam em fase de declínio ou obsolescência, não compensando os investimentos para se manterem no negócio nesse novo cenário. A tendência é seu fechamento ou a aquisição por empresas maiores que, em função de ganhos de escala, consigam gerar valor com investimentos para reduzir emissões. Como essas companhias estão fora do escopo deste artigo, tal estratégia não será aprofundada.

A estratégia disruptiva implica na saída de uma empresa do negócio de hidrocarbonetos e sua entrada num segmento de energia de baixo carbono. A literatura pesquisada aponta dois exemplos emblemáticos[6].  O primeiro caso vem da Finlândia, onde a Neste, no início dos anos 2000, decidiu deixar de ser uma empresa local de óleo e gás para ser um líder global em renováveis e soluções circulares. Embora ainda mantenha operações na área de óleo e gás, a empresa hoje é o maior produtor mundial de diesel renovável e desenvolve tecnologias para combustíveis de aviação, químicos e polímeros também renováveis. No Relatório Anual de 2020, a Neste se compromete em atingir a meta de carbono-neutro por volta de 2035.

O segundo exemplo é o da Ørsted, a maior empresa multinacional de energia da Dinamarca, controlada pelo governo, originária da DONG (Dansk Olie og Naturgas). Sua transformação começou no início dos anos 2000, com a aquisição de empresas de eletricidade e conclui-se em 2017 com a venda de todos os ativos da cadeia petrolífera. Atualmente, a Ørsted é o maior desenvolvedor de geração eólica offshore no mundo, com 29% da capacidade instalada e 88% das suas fontes são renováveis e pretende atingir 100% até 2025, de acordo com seu Relatório Anual de 2020.

            De acordo com a IEA (2020b), a adesão aos Escopos 1 e 2 é essencial para as companhias petrolíferas desempenharem o papel esperado no cenário SDS; caso contrário, a demanda de hidrocarbonetos terá que cair mais rápido do que o cenário aponta; portanto, as estratégias que vão nessa direção contribuem para sustentar a demanda por mais tempo, gerando recursos para investimentos em opções de baixo carbono.

Uma estratégia conservadora significa que a empresa acredita que as necessidades de hidrocarbonetos serão relevantes a longo prazo, ainda que a demanda apresente uma tendência de queda e, em consequência, ela se atém em reduzir suas emissões operacionais, limitando-se a compromissos com as metas do Escopo 1. A diferença desta estratégia em relação à estratégia reativa reside no tempo de maior sobrevivência da companhia e no fato de ela não querer que seus ativos se desvalorizem, os quais, provavelmente, serão adquiridos e consolidados por petrolíferas maiores.

A estratégia de adaptação intensiva representa um avanço importante e mostra que a companhia petrolífera está engajada nos Escopos 1 e 2 e na diversificação de suas operações com uso de tecnologias de baixo carbono. A estratégia de adaptação extensiva leva a empresa a aderir ao Escopo 3, adotando tecnologias mais relevantes para a redução das emissões de carbono e diversificando seus portfólios de negócios.

A adaptação permite equilibrar, a curto e médio prazos, a geração de retornos privados pelas IOCs e de receitas fiscais através das NOCs necessários, respectivamente, para financiar a transformação das atuais companhias de óleo e gás para operarem numa economia de baixo carbono e para viabilizar a diversificação das economias dos países produtores e exportadores. É sobre as duas estratégias adaptativas que a presente análise se debruça na sequência.

Olhando de uma forma bastante abrangente, no universo das 39 empresas monitoradas pelo Climate Action 100+, já citado anteriormente, cabe destacar o número das que se comprometeram com metas de redução de GEE claramente definidas para cada escopo a curto, médio e longo prazos: 14 para 2020-25, 8 para 2026-2035 e 21 para 2050. Essa dispersão revela a intenção de uma minoria das companhias petrolíferas se engajarem desde logo na economia de baixo carbono e das outras se adaptarem, no curto prazo, limitando-se às suas operações ou de evoluírem gradualmente para sobreviverem até 2050.

Em 2014, foi criada a Oil and Gas Climate Iniative (OGCI), liderada pelos principais executivos de 12 companhias petrolíferas, internacionais e nacionais, com o objetivo de empreender ações para apoiar o Acordo de Paris. Em seu conjunto, essas empresas respondem por 28% da produção mundial de óleo e gás e por 16% do atendimento à demanda de energia primária. De acordo com o Relatório de Progresso de 2020 da OGCI, as metas de curto prazo (2025) e as ações para alcançá-las dizem respeito a reduções de emissões de GEE, de metano e de flairing, inerentes ao Escopo 1 e, parcialmente ao Escopo 2. A tabela 5 consolida a evolução dos indicadores que medem essas metas no período 2017-2019.

Tabela 5 – OGCI: Indicadores de Emissões e Investimentos em Tecnologias de Baixo Carbono

Fonte: OGCI (2020).

Visando permitir o avanço para o Escopo 3, a OGCI desenvolve um projeto piloto para CCUS com o objetivo de, até 2025, alavancar economias de escala, reduzir custos, comprovar a sua viabilidade técnico-econômica, atrair investimentos e sensibilizar os formuladores de política públicas como, por exemplo, a precificação do carbono.

Por sua vez, a IRENA (2020) oferece um quadro bastante detalhado das estratégias das IOCs em termos de compromissos com metas de redução de emissões de curto e longo prazos, opções tecnológicas e negócios de energia de baixo carbono, sintetizados na tabela 6, a seguir. Cabe observar que, à exceção da Exxon Mobil, todas as companhias relataram iniciativas adicionais através da constituição de fundos de P&D com universidades e centros de pesquisa, de investimentos de capital de risco e da formação de parcerias com empresas especializadas e start-ups em energias renováveis.

Tabela 6 – IOCs: Metas de Redução de Emissões e Opções Tecnológicas de Baixo Carbono 

Fonte: IRENA (2020). Elaboração do autor.

A análise dos dados acima permite identificar um padrão geográfico nos movimentos das IOCs.  As companhias europeias estão claramente adotando a estratégia de adaptação extensiva, com visão de longo prazo, comprometendo-se com metas e iniciativas de reduções de emissões previstas nos 3 escopos do Protocolo Internacional de GEE; em seus posicionamentos de marca, elas já estão, inclusive, se identificando como empresas integradas de energia. Por outro lado, as Majors dos EUA estão centradas na estratégia de adaptação, com foco no curto prazo e nos Escopos 1 e 2. Essa constatação se explica, em parte, pelos diferentes suportes políticos que os governos da União Européia e dos EUA vêm dando ao enfrentamento das questões climáticas.

Em que pese estarem seguindo a mesma estratégia genérica, pode-se perceber enfoques específicos dados pelas IOCs europeias. BP e Equinor, por exemplo, estão fazendo uma aposta grande na geração eólica offshore, alavancada pelas suas competências de produção de petróleo no Mar do Norte, enquanto Eni, Shell e Total estão buscando oportunidades de maior integração com a eletrificação. Todas as IOCs aqui analisadas fazem parte da OGCI e são monitoradas pela Climate Action 100+.

A Tabela 7 procura aplicar para as NOCs o mesmo referencial da análise empregado acima, tomando por base o levantamento feito por Shojaeddini et al. (2019). No entanto, algumas precauções precisam ser tomadas antes de identificar as estratégias genéricas que tais empresas estão adotando.

Tabela 7 – NOCs – Opções Tecnológicas de Baixo Carbono

        Fonte: Shojaeddini et al. (2019). Elaboração do autor.

Em primeiro lugar, cabe ressaltar que, nesse grupamento de empresas, a aplicação de novas tecnologias de baixo carbono na cadeia produtiva de óleo e gás está fortemente centrada no desenvolvimento de projetos de CCUS. Em segundo lugar, a utilização de energias renováveis se basicamente resume à solar, por motivos geoclimáticos óbvios, priorizada para o atendimento das necessidades internas. Os projetos mais ambiciosos para venda de eletricidade para terceiros são feitos em parceria com suas congêneres do setor elétrico e gerenciados por estas. Por fim, os investimentos em hidrogênio estão associados a projetos experimentais e em parceria com empresas estrangeiras.

Essas observações não invalidam o reconhecimento de que as NOCs aqui tratadas estão se movimentando para enfrentar os desafios que lhes impõe a transição para uma economia de baixo carbono, permitindo concluir que elas estão adotando estratégias de adaptação intensiva, mas com diferentes graus de evolução, destacando-se a ADNOC como que a apresenta maior potencial de futuramente se reposicionar para uma adaptação mais extensiva. A Saudi Aramco é a única empresa deste grupo que participa da OGCI.

O grupo das NIOCs apresenta um pouco mais de diversidade. A Gazprom já tem um legado robusto em termos de produção de hidrocarbonetos (principalmente gás natural) e de geração e comercialização de eletricidade, que permite caracterizá-la como uma empresa integrada de energia e seu movimento para as novas renováveis indica uma estratégia de adaptação extensiva. Por outro lado, a outra petrolífera russa parece estar ancorada na estratégia conservadora. Essas duas companhias são monitoradas pela Climate Action 100+.

Quanto às chinesas CNPC e CNOOC, pelos dados acessados secundariamente para a elaboração este artigo, a estratégia adotada pela primeira aproxima-se bastante do que se verificou para as IOCs europeias, ou seja, de adaptação extensiva, enquanto a segunda se direciona através de uma adaptação intensiva, assim como a Petronas, a outra NIOC asiática analisada. A CNPC participa da OGCI e a CNOOC é acompanhada pela Climate Action 100+.

Tabela 8 – NIOCs – Opções Tecnológicas de Baixo Carbono

         Fonte: Shojaeddini et al. (2019). Elaboração do autor.

Conclusões

As companhias petrolíferas analisadas neste artigo foram responsáveis, em 2020, por cerca de 50% da produção mundial de petróleo. A análise realizada permite concluir que elas estão se preparando para atuarem numa economia de baixo carbono, adequando-se com o uso de tecnologias para a redução das emissões em suas operações e fazendo investimentos em tecnologias de energias renováveis, seja para utilização na própria cadeia de óleo e gás, seja para se posicionarem em novos negócios de energias limpas.

Nesse panorama, destacam-se as Majors europeias (BP, Eni, Equinor, Shell e Total) com estratégias de adaptação extensiva, vale dizer, comprometidas com metas de longo prazo, aderindo aos 3 escopos do Protocolo Internacional de GEE, adotando tecnologias mais relevantes para a redução das emissões de carbono e diversificando seus portfólios de negócios, o que tem as tem levado a se identificarem como empresas integradas de energia. Pelas informações disponíveis, a chinesa CNPC e a russa Gazprom são prováveis adotantes desta estratégia.

As Majors dos EUA (Exxon Mobil e Chevron), por sua vez, estão empreendendo estratégias de adaptação intensiva, comprometidas com metas de curto prazo, engajadas nos Escopos 1 e 2 e na diversificação de suas operações com uso de tecnologias de baixo carbono. É o caso também das NOCs dos países produtores do Oriente Médio (Abu Dhabi, Arábia Saudita, Irã, Kuweit e Oman), que têm, em paralelo, desenvolvido projetos de geração de energia solar. Neste subgrupo, cabe destacar a ADNOC pela maior diversificação de negócios que está empreendendo. A adaptação intensiva parece ser também o caminho escolhido pela chinesa CNOOC e pela malaia Petronas.

 As estratégias de adaptação refletem uma escolha racional das companhias petrolíferas diante das grandes incertezas quanto à velocidade com que a transição energética vai se dar. Elas permitem equilibrar, a curto e médio prazos, a geração de retornos privados e de receitas fiscais para financiar a transformação das empresas de óleo e gás para operarem numa economia de baixo carbono e para viabilizar a diversificação das economias dos países produtores e exportadores.

Portanto, não é de se esperar uma redução voluntária significativa na produção de petróleo nos próximos anos, a menos que d políticas públicas reforcem as restrições que configuram o cenário STEPS da IEA. O relatório mais recente da Climate Action 100+ aponta que, em 2019-2020, trinta companhias monitoradas aprovaram 194 projetos de exploração de petróleo convencional ou não convencional, totalizando US$ 64,5 bilhões, em desacordo com o cenário STEPS-B2DS[7]. Por sua vez, a IEA (2020b) alerta que as companhias petrolíferas em seu todo têm destinado menos do que 1% de seus investimentos em novos projetos fora da cadeia de óleo e gás.

             Este artigo se propôs a fazer um levantamento atualizado das estratégias das companhias petrolíferas para enfrentarem a transição energética e, para tanto, se baseou em trabalhos recentes publicados entre 2018 e 2021. A monitoração dos movimentos dessas empresas e o aprofundamento analítico de suas estratégias devem fazer parte de um roteiro para futuros estudos que permitam avaliar como a sua transformação contribuirá efetivamente para o atingimento das metas climáticas.

Referências

BECK, C. et al. The big choices for oil and gas in navigating the energy transition. McKinsey & Company, March 2021. Disponível em: www.mckinsey.com.

BRADSHAW, N., VAN de GRAAF, T. et CONNOLLY, R. Preparing for the new order? Saudi Arabia and Russia. Energy Strategy, v.26, November 2019.

CLIMATE ACTION 100+. 2020 Progress Report. Disponível em: http://www.climateaction100.org.

FATTOUH, B. et POUDINEH, R. The rise of renewables and energy transition: what adaptation strategy for oil companies and oil-exporting countries?. The Oxford Institute for Energy Studies, May 2018.

IEA – International Energy Agency. World Energy Outlook 2020. Paris: IEA, 2020a. Disponível em: http://www.iea.org/t&c.

______– The Oil and Gas Industry in Energy Transitions: Insights from IEA analysis. Paris: IEA, 2020b. Disponível em: https://www.iea.org/reports.

______– Net Zero by 2050: A roadmap for the global energy sector. Paris: IEA, 2021. Disponível em: http://www.iea.li/nzeroadmap.

IRENA – International Renewable Energy Agency. Scenarios for the Energy Transition: Global experience and best practices. IRENA, 2020. Disponível em: http://www.irena.org/publications.

LENNOX-WARBURTON, R. et OSTERWALD, E. UK: The strategy dilemma faced by oil and gas in the Energy Transition. Osterwald Rathbone & Partners, July 2021. Disponível em: http://www.mondaq.com/uk/renewables.

MANLEY, D. et HELLER, P. R. P. Risky Bet: National Oil Companies in the Energy Transition. Natural Resource Governance Institute, 2021. Disponível em: http://www.resourcegovernance.org.

OGCI – Oil and Gas Climate Initiative. Delivering on a Low Carbon Future: a Progress Report. December 2020. Disponível em: http://www.ogci.com.

PORTER, S., DICKSON, D., HARDIN, K. et SHATTICK, T. Oil, gas, and the energy transition: How the oil and gas industry can prepare for a lower-carbon future. Deloitte, August 2020. Disponível em: www2.deloitte.com.

SHOJAEDDINI, E., NAIMOLI, S., LADISLAW, S. et BAZILIAN, M. Oil and gas company strategies regarding the energy transition. IOP Science: Progress in Energy, July 2019. Disponível em: http://www.iopscience.iop.org.

TAGLIAPIETRA, S. The impact of global energy transition on MENA oil and gas producers. Energy Strategy, v.26, November 2019.


Notas:

[1] Pesquisador do GEE-IE/UFRJ e Professor (Quadro Externo) do IAG da PUC-Rio. M.Sc. em Planejamento Energético e Doutorando em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento pela UFRJ.

[2] Embora seja uma empresa controlada pelo governo norueguês, a Equinor apresenta uma governança e uma atuação muito mais próxima das IOCs do que dos demais grupos tratados neste trabalho.

[3] Ver: https://www.ev-volumes.com.

[4] Para uma análise detalhada do impacto da transição energética sobre os países produtores de petróleo no Oriente Médio e Norte da África, ver o artigo de Tagliapietra (2019).

[5] Bradshaw et al (2019) aprofundam a discussão sobre o papel das receitas petrolíferas na economia russa e o compara com a situação da Arábia Saudita.

[6] Ver: Lennox-Warburton et Osterwald (2021) e Manley et Heller (2021).

[7] O cenário B2DS (Beyond 2 Degrees Scenario) prevê que o setor energético mundial precisa atingir a meta de emissões líquidas nulas de GEE em 2060 para limitar o aumento de temperatura a 1,75ºC em 2100 Climate Action 100+ (2020).

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