Grupo de Economia da Energia

Archive for the ‘biocombustíveis’ Category

Previsão de demanda de combustíveis veiculares no Brasil até 2025 e emissões de CO2

In etanol, gasolina, GNV on 15/08/2017 at 11:00

Por Niágara RodriguesLuciano LosekannGetulio Silveira Filho 

O segmento de transporte rodoviário brasileiro dispõe de condição única com parcela significativa da frota capaz de utilizar outros combustíveis além da gasolina e do óleo diesel, como etanol, biodiesel e, em menor escala, o gás natural veicular (GNV). Apesar da presença dos biocombustíveis o setor de transportes é responsável por uma grande parcela das emissões dos gases causadores do efeito estufa (GEE) no Brasil, sendo a gasolina responsável por 34% das emissões de combustíveis líquidos e o óleo diesel 62%.

Na 21ª Conferência das Partes (COP21) em Paris, o Brasil assumiu o compromisso voluntário de adotar medidas para reduzir as emissões de GEE em 37% em 2025 e 43% em 2030 em relação as emissões de 2005, com o objetivo de contribuir para que a temperatura média global não aumente 2°C acima dos níveis pré-industriais. Para atender tal objetivo o Brasil estipulou a meta de aumentar a participação de bioenergia sustentável na matriz energética para 18% até 2030, expandindo o consumo de biocombustíveis, o que inclui o aumento da oferta de etanol e biodiesel (MRE, 2015).

Todavia, chama a atenção o expressivo crescimento do consumo de combustíveis para transporte nos últimos anos. O consumo agregado de gasolina e óleo diesel dobrou de 2000 para 2013, crescendo a uma taxa de 4% ao ano (ANP, 2017a), e, apesar da taxa de crescimento da demanda ter diminuído com a crise brasileira, o consumo apresentou crescimento médio superior ao Produto Interno Bruto (PIB) entre os anos 2010 e 2015. Continue lendo »

Bioeconomia em construção XII – Bioeconomia no Brasil: explorando questões-chave para uma estratégia nacional

In biocombustíveis on 10/07/2017 at 10:30

Por José Vitor Bomtempo, Flavia Alves e Fábio Oroski*

Durante 5 semanas, em maio e junho, o nosso Grupo de Estudos em Bioeconomia, em parceria com a ABBI – Associação Brasileira de Biotecnologia Industrial e com a CNI – Confederação Nacional da Indústria, realizou, em São Paulo, a segunda edição do nosso programa de capacitação em Bioeconomia. O programa, denominado Mini MBA em Bioeconomia e Inovação, foi desenvolvido com o objetivo de apresentar e discutir, na perspectiva da bioeconomia, a dinâmica tecnológica e de inovação que envolve a formação e o desenvolvimento das indústrias baseadas em recursos biológicos renováveis.

A perspectiva adotada nas sessões foi de buscar sempre uma visão global da bioeconomia. Na linha das discussões que têm sido conduzidas neste blog, partiu-se da premissa de que a indústria biobased é uma indústria emergente e explorou-se como eixo de todas as discussões o processo de estruturação da indústria. Esse processo, na nossa visão, se articula em torno de quatro dimensões: matérias-primas, tecnologias, produtos e modelos de negócios. Essas dimensões co-evoluem dentro de um macroambiente – a paisagem sócio-técnica – que envolve as políticas, regulações e tendências da sociedade. Continue lendo »

Bioeconomia em construção XI – O desafio de desenhar políticas para o desenvolvimento da bioeconomia no Brasil: quais as dimensões chave?

In biocombustíveis on 04/04/2017 at 12:27

Por José Vitor Bomtempo

untitledMovimentos recentes parecem colocar, finalmente, a bioeconomia no centro das discussões no Brasil. O MCTIC está conduzindo um grupo de trabalho que busca definir uma agenda de iniciativas para o desenvolvimento da bioeconomia no Brasil. O SEBRAE também está construindo, no âmbito dos pequenos negócios, a definição de um termo de referência para orientar a sua atuação na bioeconomia.

No cenário internacional, sob a coordenação do Brasil, foi lançada na COP22, em Marrakesh, em dezembro do ano passado, a plataforma biofuturo. Essa plataforma reúne 20 países, entre eles Brasil, EUA, China, Índia, Canadá, França e Itália, que pretendem criar e desenvolver um espaço de cooperação internacional para o desenvolvimento da bioeconomia. O documento de lançamento da plataforma assume a noção de bioeconomia como norte e busca um futuro sustentável para a produção de energia, combustíveis, químicos, materiais e outros produtos que possam valorizar a exploração dos recursos renováveis.

Nesta postagem reafirmamos o interesse da bioeconomia como um espaço privilegiado para a inserção competitiva do Brasil no cenário internacional e, revendo a literatura recente, lançamos um olhar inicial sobre as dimensões chave que as políticas para o desenvolvimento da bioeconomia devem considerar. Continue lendo »

Por que as primeiras plantas comerciais de etanol 2G são quase experimentais?

In biocombustíveis, etanol on 19/10/2016 at 12:14

Por José Vitor Bomtempo e Gustavo Soares (*)

vitor102016Numa postagem anterior, “A chegada do etanol 2G, um passo importante para a inovação em bioeconomia”, destacamos o início de operação das primeiras plantas comerciais. Quase 2 anos depois, essa primeira geração de plantas ainda enfrenta dificuldades operacionais importantes. Tem sido difícil para os pioneiros estabilizar a produção e operar regularmente.

Nesta postagem, examinamos essa situação e tentamos entender porque as primeiras plantas comerciais de etanol 2G são quase experimentais. Achamos que uma clara compreensão do problema é importante em diversos aspectos. Permite que as estratégias tecnológicas das empresas e as políticas públicas de financiamento à inovação se alinhem. Além disso, do ponto de vista da construção da bioeconomia, pode nos ajudar a entender a complexidade do projeto de utilização da biomassa como matéria-prima para a produção de bioenergia, bioprodutos e materiais.

Este texto discute, com base nos princípios da economia da inovação, a natureza dos problemas enfrentados pelas primeiras plantas comerciais da chamada nova indústria biobased e em particular examina o caso do etanol 2G. O argumento desenvolvido traz como conclusão a visão de que, em alguns casos, as primeiras plantas em indústrias emergentes devem ser vistas como um estágio avançado do próprio processo de desenvolvimento. Assim, a primeira geração das plantas de etanol 2G, inauguradas nos últimos três anos, são efetivamente estágios experimentais que exigem ainda esforços específicos de P&D para atingirem estágios operacionais regulares. Continue lendo »

Bioeconomia em construção IX – Os desafios da bioeconomia no Brasil: explorando algumas questões-chave

In biocombustíveis on 11/07/2016 at 00:15

Por José Vitor Bomtempo, Flavia Alves e Fábio Oroski

vitor072016Matérias-primas no Brasil: foco nas culturas tradicionais ou diversificação de fontes?  Como montar um portfólio de bioprodutos? Qual o papel dos produtores de biocombustíveis no desenvolvimento da bioeconomia? E o papel das startups e empresas estabelecidas? As políticas de demanda de biocombustíveis podem e devem ser estendidas para bioprodutos e bioplásticos? O Brasil precisa de uma estratégia estruturada em bioeconomia? São muitas e complexas questões que exigiriam mais do que uma postagem para discuti-las com alguma profundidade. Mas achamos que vale colocá-las como pontos de reflexão.

Nas últimas semanas, o nosso Grupo de Estudos em Bioeconomia realizou a primeira edição de um programa de capacitação em Bioeconomia e Inovação. O programa teve 40 horas de duração e foi desenvolvido com o objetivo de apresentar e discutir, na perspectiva da bioeconomia, a dinâmica tecnológica e de inovação que envolve a formação da indústria baseada em matérias-primas renováveis. Procuramos identificar os atores-chave envolvidos na bioeconomia e discutir suas estratégias e políticas. A perspectiva adotada nas sessões foi de buscar sempre uma visão global da bioeconomia. Ao final, foi feito um exercício de trazer algumas questões para o âmbito brasileiro e colocá-las em discussão com os participantes. Essa discussão ilustra de certa forma os desafios que se colocam para o desenvolvimento da bioeconomia no país. Continue lendo »

Bioeconomia em construção VIII – O potencial inovador das trajetórias baseadas em recursos naturais: a vida fora do high tech

In biocombustíveis on 11/04/2016 at 00:15

Por José Vitor Bomtempo

vitor042016

A bioeconomia envolve o uso de recursos biológicos renováveis que são convertidos em energia, produtos e materiais. O uso de matérias-primas renováveis, de biomassa de diversas origens, tem para a construção dos diversos setores da bioeconomia uma importância fundamental. É o caso, por exemplo, dos segmentos de bioenergia, produtos químicos e materiais derivados da biomassa, a chamada biobased industry.

A posição brasileira na produção desses recursos – cana de açúcar, culturas agrícolas, florestas para papel e celulose – gera uma oportunidade de aproveitamento desses insumos para a construção de uma forte indústria biobased. Mas qual o potencial inovador dessa trajetória baseada em recursos renováveis? O discurso da capacitação tecnológica e inovadora é frequentemente reticente em relação às trajetórias baseadas em recursos naturais. A capacitação inovadora dos países emergentes costuma ser vista como um esforço de alcance do nível de capacitação dos países desenvolvidos nos segmentos dinâmicos da indústria. É o famoso processo catching-up que nas últimas décadas tem o exemplo coreano como o case exemplar. Trajetórias baseadas em recursos naturais seriam então a princípio limitadas para a geração de capacitação inovadora de ponta para o país. Continue lendo »

Bioeconomia em construção VII – Por que as oportunidades de inovação no setor sucroenergético não são exploradas?

In biocombustíveis on 09/11/2015 at 00:15

Por José Vitor Bomtempo, Daniella Fartes e Flávia Alves

vitor112015Na construção da bioeconomia, a capacidade de inovação está no centro das políticas e estratégias. Nas postagens anteriores desta série, discutimos diversas vezes a definição de uma agenda de inovação para a bioeconomia no Brasil, destacando a importância das políticas e das iniciativas estratégicas de uma variedade de atores. Uma conclusão central da nossa visão tem sido que a agenda dos biocombustíveis deve evoluir na direção de incorporar uma lógica de bioeconomia e não se ater apenas a uma lógica ligada ao mercado de combustíveis. Não que essa lógica seja mais simples ou menos desafiadora. Mas a construção da economia biobased que está em curso exige a incorporação de conceitos econômicos, ambientais e sociais que só podem ser atingidos com agendas mais integradoras como as pretendidas pela bioeconomia.

Nesse processo de construção da bioeconomia, como o setor sucroenergético brasileiro, que se tornou uma referência mundial em biocombustíveis, tem visto as suas próprias oportunidades de inovação? Os produtores e os agentes do sistema de produção e inovação sucroenergético reconhecem essas oportunidades? Que dificuldades identificam para explorá-las? Faltam conhecimento e tecnologia? Ou a limitação decorre de um ambiente institucional pouco propício às iniciativas de inovação?

Explorando essas questões, foi defendida recentemente na Escola de Química da UFRJ uma dissertação de mestrado:  Oportunidades de Inovação no Setor Sucroenergético. A dissertação é o resultado da pesquisa de mestrado de Daniella Fartes realizada sob a orientação de José Vitor Bomtempo e Flávia Alves. Discutimos nesta postagem os principais resultados do trabalho. Continue lendo »

Bioeconomia em construção VI – A importância (e a urgência) de se criar uma agenda de inovação para a bioeconomia no Brasil

In biocombustíveis on 24/08/2015 at 00:15

Por José Vitor Bomtempo

vitor082015O post anterior desta série foi desenvolvido em torno de uma pergunta: Existe uma agenda de inovação para bioeconomia no Brasil? A resposta foi negativa. Existem estudos e diagnósticos interessantes, existem programas originais em execução, mas não existe uma visão integrada e articulada voltada para a bioeconomia como é o caso de outros países e regiões importantes do mundo. Os programas, estudos e diagnósticos brasileiros tendem a se dirigir a um dos aspectos da questão, mas sempre de forma isolada, às vezes compartimentada, e desconsiderando o conjunto dos desafios e oportunidades da bioeconomia: cana de açúcar, mas não recursos florestais, resíduos urbanos e outras culturas e resíduos; biocombustíveis, mas não bioprodutos; químicos renováveis, mas não biocombustíveis. Isso sem falar nas inter-relações com a produção de alimentos, com a questão ambiental e com a economia circular.

A iniciativa mais importante, até agora, em torno do conceito de bioeconomia foi, a nosso conhecimento, a da CNI/MEI (Mobilização Empresarial pela Inovação) que realizou três fóruns importantes em 2012, 2013 e 2014, buscando construir uma proposta para o setor. Como resultado, foi elaborado um documento: Bioeconomia, oportunidades, obstáculos e agenda como sugestão ao debate por ocasião das eleições de 2014. A iniciativa é elogiável e deveria ser ampliada com o envolvimento mais abrangente de interlocutores. A agenda de desenvolvimento da bioeconomia para o Brasil identifica três dimensões básicas: biotecnologia industrial, setor primário e saúde humana. Propõe que o Estado priorize ações que possam se constituir como uma plataforma única. Essa plataforma, conjugada com ações específicas para cada área, poderá gerar, segundo a CNI, importantes resultados científicos, tecnológicos e empresariais, traduzidos em benefícios sociais, econômicos e ambientais para o país. O documento é um excelente ponto de partida e deve ser colocado na perspectiva das discussões e iniciativas que se multiplicam atualmente. Continue lendo »

Bioeconomia em construção V – Existe uma agenda de inovação para a bioeconomia no Brasil?

In biocombustíveis on 01/06/2015 at 00:15

Por José Vitor Bomtempo e Flávia Alves

vitor062015No primeiro post desta série caracterizamos a bioeconomia como uma indústria em construção que envolve o uso dos recursos biológicos, vegetais e animais, de forma integrada e fortemente relacionada às atividades de produção e consumo de energia, produtos químicos e materiais, mas também alimentos, tanto para uso humano quanto animal. A bioeconomia tem portanto uma amplitude econômica, social e ambiental bem mais larga do que a produção de biocombustíveis e bioprodutos derivados da biomassa.

Essa visão tem se estabelecido e vem sendo discutida e adotada, com interpretações às vezes variadas, nos principais países e regiões. Na Europa, por exemplo, a Bioeconomy Stakeholders Conference, realizada em outubro de 2014, ilustra bem esse esforço de levar em conta os múltiplos interesses e variáveis envolvidos na construção da bioeconomia. O tema central do evento é ilustrativo: “From sectors to system, from concept to reality”. Todas as discussões e apresentações da conferência estão disponíveis aqui.

No detalhado e abrangente relatório Bioenergy and Sustainability: bridging the gaps, coordenado pelo BIOEN/FAPESP e recentemente divulgado, a perspectiva da bioeconomia é destacada e revista no capítulo 20 do trabalho. Na visão do relatório, que envolveu a contribuição de 137 especialistas, a bioeconomia é uma indústria promissora, mas ainda emergente e por isso necessita de políticas que estimulem seu desenvolvimento. O relatório defende ainda que mudanças tecnológicas capazes de reduzir custos e viabilizar a utilização integral da biomassa para alimentos, rações, energia, materiais e químicos são necessárias para aumentar a competitividade da nova indústria. No campo das tecnologias, o desenvolvimento de rotas mais eficientes de conversão da biomassa, em particular as que convertem os materiais lignocelulósicos em combustíveis, químicos e materiais é crítico para proporcionar a transição para uma indústria biobased competitiva. Continue lendo »

Bioeconomia em construção IV – Os novos produtos-plataforma

In biocombustíveis on 09/03/2015 at 00:15

Por José Vitor Bomtempo

vitor032015Desde que a indústria baseada em biomassa começou a identificar que as oportunidades mais interessantes e promissoras não se encontravam necessariamente ou exclusivamente nos biocombustíveis, mas em bioprodutos e biomateriais, surgiu uma pergunta chave: quais os “melhores” produtos que deveriam ser explorados a partir da biomassa ou dos açúcares? Num primeiro momento, algumas propostas adotaram a ideia de que produtos drop in deveriam ser o alvo da indústria. A receptividade que o PE verde da Braskem teve ao ser lançado, há cerca de quatro anos, é o fato marcante dessa estratégia de inovação. O dilema drop in ou não drop in vem sendo uma das incertezas na construção da bioeconomia. Algumas dimensões desse dilema estão discutidas no artigo Bioplastics tipping point: drop in or non drop in? (Oroski, Bomtempo, Alves, 2014).

Mas nos últimos anos começou a ganhar espaço uma visão de que os produtos derivados da biomassa deveriam, para serem viáveis, tanto do ponto de vista econômico quanto ambiental, aproveitar a característica inerente da biomassa – moléculas oxigenadas e funcionalizadas – e não “imitar” a petroquímica. Partir dos açúcares e, com grande perda de massa, chegar às mesmas moléculas que a petroquímica deriva de forma muito fácil do petróleo ou do gás natural, não parece ser o caminho mais produtivo para a bioeconomia.  Quais seriam então os produtos mais promissores? Alguns estudos que tentam identificar esses produtos são bastante conhecidos. Continue lendo »

Bioeconomia em construção III – A chegado do etanol 2G: um passo importante para a inovação na bioeconomia

In biocombustíveis, etanol on 22/09/2014 at 00:15

Por José Vitor Bomtempo

vitor092014O etanol 2G foi durante muito tempo o foco das políticas de inovação voltadas para os biocombustíveis. Há cinco anos, os recursos aplicados pelo Biomass Program do Department of Energy (DOE), certamente o mais importante programa de inovação em biocombustíveis do mundo, se concentravam no etanol celulósico. O resultado esperado desse grande esforço de inovação estava refletido nas metas de consumo de etanol 2G do RFS (Renewable Fuels Standard).

Entre 2007 e 2009, mais de 30% dos recursos aplicados – US$ 200 milhões anuais, em média – eram dirigidos diretamente ao etanol celulósico. Somente em 2010 as aplicações em biocombustíveis não etanol e outros produtos se tornaram expressivas, atingindo em 2011 mais de 40% do total de recursos aplicados. Pouco se falava dos combustíveis drop in e dos demais bioprodutos, como químicos e plásticos, como alvo dos projetos inovadores. Entretanto, a produção comercial de etanol 2G, como não é raro em inovações mais ambiciosas, revelou-se uma meta muito mais difícil do que se esperava. Houve fracassos, decepções e mudanças de planos. Empresas deixaram de existir, como a Range Fuels. Projetos de demonstração pioneiros acabaram não se viabilizando em escala comercial, como o da Iogen. Projetos tiveram que rever seus conceitos iniciais, como o da Coskata que trocou a biomassa pelo gás natural como matéria-prima. Como consequência, as metas do RFS não foram atingidas no tempo previsto.

Finalmente, o etanol 2G – etanol baseado em materiais lignocelulósicos como resíduos agrícolas e florestais – parece estar se concretizando com o início de operação das primeiras plantas em escala comercial. Em 2013, começou a operar a planta da Beta Renewables (Grupo M&G) em Crescentino, na Itália. Em 2014, três outros projetos importantes estão iniciando a produção em escala: Du Pont e Poet/DSM, nos EUA, e Granbio, no Brasil. Ainda no Brasil, Raizen está concluindo também uma planta e Petrobras tem um projeto em definição. Os projetos americanos são baseados em resíduos agrícolas do milho, Granbio utiliza a palha da cana e Raizen o bagaço. Continue lendo »

Bioeconomia em construção II – Os grants e subvenções às empresas: comparando o Biomass Program do DOE e o PAISS do BNDES/FINEP

In biocombustíveis on 30/06/2014 at 00:15

Por José Vitor Bomtempo

vitor062014O título desta série destaca uma dimensão central da indústria baseada em biomassa que não podemos perder de vista em nossas análises: é uma indústria em construção, ainda sem definição clara das dimensões estruturais que caracterizam setores mais maduros. As entradas (e saídas) de novos competidores são numerosas e frequentes e os perfis desses competidores são também variados, de startups de base tecnológica a empresas estabelecidas de diversas origens e indústrias. Novas bases de conhecimento, com destaque para a biologia sintética, desafiam esses competidores que, configurando um cenário de corrida tecnológica, são com frequência apoiados por políticas de inovação.

A estruturação dessas políticas é particularmente notável no caso americano através do Department of Energy (DOE) e do Department of Agriculture (USDA) e no caso europeu através de diversas iniciativas da Comissão Europeia. No Brasil, a iniciativa conjunta BNDES/FINEP, conhecida como PAISS, deslanchada a partir de 2010, pode ser vista como a versão brasileira melhor estruturada, até agora, em políticas de inovação para a bioeconomia. Há estudos em andamento sobre a diversificação da indústria química (BNDES) e sobre as tecnologias prioritárias em química renovável (ABDI/CGEE, dentro do Programa Brasil Maior), mas não resultaram ainda em iniciativas concretas de políticas de inovação.

Um dos mecanismos de apoio às empresas envolvidas no desenvolvimento da bioeconomia tem sido a concessão de grants ou subvenções para as etapas de P&D, da bancada a plantas de demonstração, passando pelas plantas-piloto. Esse mecanismo é recente no Brasil e vem sido utilizado pela FINEP para apoio a diversos setores. As empresas brasileiras entretanto manifestam com frequência queixas quanto à relativa modéstia dos recursos destinados e à forma de concessão da subvenção econômica. Continue lendo »

Bioeconomia: as regras do jogo

In biocombustíveis on 28/04/2014 at 00:15

Por Miguel Vazquez

miguel042014Em uma postagem anterior, Jose Vitor Bontempo iniciou uma série dedicada a estudar a construção da bioeconomia. Esta postagem se propõe levantar algumas reflexões sobre a importância do desenho institucional para entender e orientar o desenvolvimento dessa indústria em construção.

A bioeconomia é um campo no qual numerosos jogadores interagem de forma complexa, mas essa não é uma situação estranha na vida cotidiana. Por exemplo, ir para o escritório envolve depositar a sua confiança em que um grande número de indivíduos se transladando a grandes velocidades vão respeitar as regras de circulação. O fato é que uma grande parte das nossas atividades está baseada na nossa capacidade de compreender as situações, de compreender o que pode e não pode ser feito; em resumo, as regras do jogo.

Uma das principais complexidades vem do fato de que essas situações não são fixas e individuais, elas dependem fortemente do contexto. Eu já fui reprendido por atravessar a rua com o semáforo fechado em Berlim, e exatamente pelo contrario (esperar a que o semáforo estivesse verde) no centro do Rio de Janeiro. O que pode e não pode ser feito depende do contexto.

Essa interação está intimamente relacionada com o que Elinor Ostrom chamou de action arenas. Isto é um tabuleiro de jogo para desenvolver um arcabouço teórico que descreve como as definições de regras, os atributos dos bens e os atributos das comunidades impactam nas decisões dos agentes envolvidos. Em outras palavras, compreender atividades econômicas (entre outras) vai além de compreender os aspetos tecnológicos. O objeto de estudo é a interação entre um número potencialmente grande de agentes. A pergunta então seria: a interação dos agentes deve nos preocupar no contexto da construção da bioeconomia? A minha resposta é sim: as regras contribuem para definir a evolução de uma indústria e as escolhas feitas por ela. E as regras dependem fortemente do contexto. Continue lendo »

Bioeconomia em construção I – Os fatores de competitividade na bioeconomia

In biocombustíveis on 31/03/2014 at 00:15

Por José Vitor Bomtempo

vitor032014Esta postagem inicia uma nova série de artigos. A diferença fundamental é que, coerente com a linha de raciocínio que foi sendo desenvolvido ao longo da série O futuro dos biocombustíveis”, a nova série aborda explicitamente a dinâmica de uma indústria em construção. Essa indústria envolve tanto biocombustíveis quanto bioprodutos e biorrefinarias. A indústria, seus produtos e configurações têm sido abarcados no conceito mais amplo de bioeconomia. O que é bioeconomia?

Vínhamos usando o termo bioeconomia na série anterior para designar a inserção da indústria de biocombustíveis num contexto maior, mais complexo e mais próximo das transformações em curso. Mas valeria aqui registrar algumas definições mais conhecidas. Um dos primeiros registros do uso recente do termo é o da OCDE, 2009:

the bioeconomy can be thought of as a world where biotechnology contributes to a significant share of economic output. The emerging bioeconomy is likely to be global and guided by principles of sustainable development and environmental sustainability. A bioeconomy involves three elements: biotechnological knowledge, renewable biomass, and integration across applications.

Dois registros mais recentes complementam e dão mais foco à definição da OCDE. A Comissão Europeia, no documento Innovating for sustainable growth: a bioeconomy for Europe, 2012, define que: Continue lendo »

O futuro dos biocombustíveis XIX – Encerrando a série e continuando o processo de construção da indústria baseada em biomassa

In biocombustíveis on 04/11/2013 at 00:15

Por José Vitor Bomtempo

vitor112013Nas 18 postagens anteriores procuramos discutir a evolução de uma indústria, associando-a a uma ideia de futuro. Na primeira postagem desta série, publicada em março de 2010, terminávamos com algumas perguntas que seriam a base das reflexões dos artigos a seguir:

Como será o amanhã? Que papel o Brasil poderá ter nessa indústria? A posição competitiva em etanol garante uma posição de liderança na indústria de exploração integrada das biomassas do futuro? Como estamos nos preparando para isso nas estratégias empresariais? Além das alianças e joint ventures, que esforços tecnológicos nossas empresas estão empreendendo? Que papel pretendem ter no futuro os atuais produtores de etanol? E a indústria química e petroquímica brasileira? E a PETROBRAS? Que políticas de ciência, tecnologia e inovação estão sendo colocadas em prática pelo MCT? São voltadas para o futuro da indústria e a criação de vantagens competitivas nas novas bases que estão sendo desenvolvidas? Ou são voltadas para a preservação das vantagens competitivas atuais, baseadas na bem sucedida indústria brasileira do etanol?”

Tomávamos como base a premissa de que a indústria de biocombustíveis estava se transformando e se tornando bem diferente da que então conhecíamos. Os produtos não se limitariam a etanol e biodiesel. Novas matérias-primas, novas tecnologias, novos modelos de negócios estavam sendo testados e trazendo em consequência uma transformação importante nas bases estruturais da indústria. Continue lendo »

O futuro dos biocombustíveis XVIII: Os dilemas dos produtos na bioeconomia

In biocombustíveis on 26/08/2013 at 00:15

Por José Vitor Bomtempo

vitor082013Nesta série de artigos, temos traçado uma visão da indústria baseada em matérias-primas renováveis (biobased industry) como um setor em estruturação, isto é, ainda sem estrutura industrial definida. Podemos dizer que o setor apresenta características de uma indústria emergente.

É importante então tentarmos entender o processo de estruturação da indústria. Que variáveis seriam críticas na definição estrutural da nova indústria? Na nossa série de artigos, diversos aspectos desse processo foram discutidos. Podemos identificar quatro variáveis chave cuja evolução, ou se preferirem co-evolução, está na base desse processo: matérias-primas, tecnologias de conversão, produtos e modelos de negócios. Nessa perspectiva, entender o processo de estruturação da indústria é entender a evolução de cada uma dessas variáveis e de suas inter-relações.

Discutimos hoje a dimensão “produtos”. Numa postagem anterior já tínhamos discutido que o etanol tendia a deixar de ser o produto dominante e que uma variedade de novos produtos estava em busca de espaço no mercado. Diversos dilemas cercam o desenvolvimento desses produtos, não só em biocombustíveis como, talvez em maior grau ainda, no caso dos bioprodutos químicos e bioplásticos.

A dimensão produtos é um espaço de importância crescente na estruturação do setor. A dinâmica inicial voltada para biocombustíveis orientou-se num primeiro momento para a produção de etanol e biodiesel. O problema era mais de desenvolver melhores tecnologias, isto é, melhores processos, para a produção de etanol e biodiesel. Esses dois produtos podem ser vistos como substitutos relativamente imperfeitos dos combustíveis de base fóssil. O etanol tem densidade energética inferior à gasolina em 30%; exige adaptação dos motores e estrutura dedicada de distribuição. O biodiesel em função das matérias-primas utilizadas pode ter comportamentos variados conforme as condições de temperatura ambiente. O aumento do teor de biodiesel na mistura depende de testes e avaliações para que os fabricantes de equipamento assegurem as garantias de seus produtos. Continue lendo »

O futuro dos biocombustíveis XVII: Competências para inovar e o futuro da indústria do etanol no Brasil

In biocombustíveis, etanol on 03/06/2013 at 00:10

Por José Vitor BomtempoFlavia Chaves Alves

vitor062013O etanol tem estado em evidência nos últimos meses.  Não tanto pela presença abundante e barata nas bombas como acontecia até 2008/2009. Mas pela discussão das dificuldades recentes do setor e das medidas governamentais para recuperar, ou não, a eficiência e a produtividade aparentemente perdidas. Numa postagem recente, aqui no Blog  Infopetro, Thales Viegas discutiu em detalhe algumas dessas medidas.

Acompanhando os boletins do site novaCana.com pode se ter uma boa perspectiva dos debates em curso: as reivindicações da indústria, as iniciativas do governo e as opiniões de analistas. Muitas questões têm sido colocadas: qual a natureza verdadeira da crise atual do setor?Preços da gasolina? Crise de investimento em decorrência da crise financeira de 2008? Por que a queda de produtividade? Efeito da mecanização? Do regime de chuvas? São suficientes as medidas do governo? O setor perdeu a sua competitividade tão alardeada antes da crise dos últimos 3 anos? Lembre-se que estudos estimavam à época que essa competitividade situava-se em torno de um preço de petróleo a 40 dólares o barril! Para uma discussão do custo de produção e da competitividade do etanol em relação ao preço do petróleo, na perspectiva de 2007, pode-se ver o estudo de Almeida, Bomtempo e Silva, publicado pela OCDE.

A quantidade e a variedade das questões alertam para o fato de que a indústria não enfrenta desafios apenas conjunturais, mas também, e talvez principalmente, estruturais. Assim, seguindo a linha de raciocínio desta série de artigos, o foco deve estar na indústria do futuro que traz grandes oportunidades para a exploração da cana de açúcar brasileira mas, ao mesmo tempo, grandes desafios.  Nossa tese de base tem sido que a indústria do futuro será  essencialmente diferente da que hoje conhecemos como  indústria sucroalcooleira. Essa transformação já se encontra em curso e movimenta um fluxo de inovações que faz parte da construção da chamada bioeconomia.

Logo, na perspectiva do futuro dos biocombustíveis e da indústria baseada em biomassa, a pergunta pode ser bem outra: qual a capacidade de inovação da indústria no Brasil? Esta postagem procura lançar esta discussão e abrir eventualmente uma linha de pesquisa estruturada em torno do futuro da indústria e de capacidade de inovação. Continue lendo »

Por que os estímulos federais não satisfazem os produtores de Etanol?

In etanol on 29/04/2013 at 00:15

Por Thales Viegas

thales042013O governo federal editou nova uma medida para desonerar a produção de etanol. Eliminou o PIS/COFINS sobre o etanol, em valor equivalente a R$ 0,12 por litro. Esta medida faz parte de um pacote de estímulos ao setor sucroalcooleiro, que envolve, em especial, o aumento de 20% para 25% de mistura de etanol anidro na gasolina C, a redução das taxas de juros nas linhas de financiamentos do BNDES. Em postagens anteriores tratamos de políticas públicas voltadas ao setor e da importância de uma regra transparente de precificação dos combustíveis fósseis e nesta vamos enfocar os limites da ação governamental.

Nesse contexto, o objetivo deste texto é discutir a importância da desoneração tributária sobre a competitividade do etanol em relação à gasolina A. Uma pergunta a ser respondida antes é a seguinte: reduzir a tributação federal satisfaz os agentes do setor sucroenergético? A reposta é negativa, segundo Elisabeth Farina, presidente da UNICA, entidade representativa do setor. Sendo assim, a pergunta nuclear se coloca. Por que, mesmo quando o governo federal atende grande parte das reivindicações do setor, ele não se mostra satisfeito?

Para responder esse questionamento há que se refletir sobre os papéis dos agentes públicos e privados no cenário desafiador em que se encontra o setor. Em verdade, os usineiros esperam soluções “de fora para dentro”, que reduzam os custos e aumentem o preço da gasolina. Chegam a cobrar do governo uma pseudo “previsibilidade” – num mundo com importantes incertezas econômicas e climáticas. A economia e os preços do petróleo se comportam de forma cíclica. Já o setor sucroalcooleiro é sazonal e dependente das condições no setor petróleo. Continue lendo »

O futuro dos biocombustíveis XVI – Perfis de empresas e as diferentes perspectivas em relação à bioeconomia

In biocombustíveis on 08/04/2013 at 00:15

Por José Vitor Bomtempo

vitor042013Na nossa série sobre o futuro dos biocombustíveis esteve sempre presente uma premissa de base: a indústria baseada em biomassa  é  um setor ainda não estruturado, com características de indústria emergente.  Nos artigos anteriores abordamos em diversas oportunidades as estratégias de diferentes empresas em biocombustíveis ou em bioprodutos, como Shell, BP, Petrobras, Braskem e Amyris.

Nesta postagem retomamos esse universo diversificado de empresas que têm se envolvido na bioeconomia e discutimos como os diferentes perfis de empresas apresentam diferentes perspectivas em relação ao desenvolvimento e estruturação da indústria. A caracterização desses diferentes perfis, das competências que cada um detém e das competências que  faltam a cada um pode ajudar a entender a dinâmica da indústria e do processo de estruturação em curso. Qual o papel dos diferentes atores na estruturação da indústria?

A estruturação da oferta da indústria biobased depende da evolução, ainda em curso, de um conjunto de variáveis. Esse processo evolutivo busca encontrar respostas aos múltiplos problemas a serem superados para viabilizar e consolidar comercialmente as oportunidades identificadas. Podemos considerar que essas soluções dependem de quatro espaços de estruturação que são, com efeito, espaços de inovações interdependentes. A estruturação da oferta do setor depende da dinâmica de inovação em: Continue lendo »

Projeção da importação brasileira de gasolina: cenários e impactos

In etanol, gasolina on 11/03/2013 at 00:15

Por Luciano Losekann e Gustavo Haydt

luciano032013Nos últimos dois anos, a importação de gasolina se tornou uma forte preocupação de política energética e econômica no Brasil. Em 2012, foram importados 3,7 bilhões de litros de gasolina A. O dispêndio com importação foi de US$ 2,9 bilhões e 12% da gasolina A utilizada no Brasil foi importada em 2012. Esses valores não eram observados no país desde a década de 1970, quando o país era fortemente dependente de suprimento externo de energia.

A postagem “Oferta apertada de etanol e perspectivas de importação de gasolina” apontou que a importação de gasolina será muito significativa nos próximos anos se a oferta de etanol continuar restringida. Nessa postagem, serão apresentadas as projeções de importação de gasolina em diferentes cenários de oferta de etanol e de mistura de etanol anidro na gasolina.  Além disso, serão estimados o dispêndio com importações e o prejuízo que pode gerar ao importador, a Petrobras, em contexto que os preços internacionais e domésticos estão descolados.

A restrição de oferta de etanol se reflete em seu preço relativo pouco competitivo com a gasolina. Consideramos três possibilidades de preço relativo de etanol: 0,70, 0,75 e 0,80, e duas possibilidades de mistura de etanol anidro, 20% e 25% (E20 e E25). Continue lendo »

O futuro dos biocombustiveis XV: A difícil transição em 2012 e o caso da Metabolix

In biocombustíveis on 21/01/2013 at 00:58

Por José Vitor Bomtempo e Fabio Oroski*

vitor012013O começo do ano é sempre o momento de alguma reflexão e balanço. O ano de 2012 foi sem dúvida muito mais de dificuldades do que de realizações para os projetos inovadores na bioeconomia. Numa revisão do que teria ocorrido de importante em 2012 em inovação em energia, o MIT Technology Review destacou como os avanços dos renováveis, mesmo se alguns deles possam ter sido notáveis, parecem pálidos diante do impacto do shale gas nos EUA.

O shale gas tem atraído inclusive o interesse de empresas com projetos em biocombustíveis que tentam reconverter os seus processos para o uso de gás natural no lugar de biomassa. É o caso, por exemplo, da Coskata que decidiu substituir em sua primeira planta de escala comercial a biomassa por gás natural. O gás natural será convertido em  gás de síntese que será transformado por fermentação em etanol e outros produtos.  Calysta Energy , uma startup anunciada recentemente, pretende aplicar a biotecnologia para converter gás natural em diesel. Continue lendo »

Oferta apertada de etanol e perspectivas de importação de gasolina

In etanol, gasolina on 10/12/2012 at 01:31

Por Luciano Losekann

luciano122012Nos últimos dez anos, a balança comercial brasileira de gasolina sofreu uma inversão (figura 1).  Com a introdução do carro flex e quando os preços do etanol eram competitivos, o país produziu excedentes significativos de gasolina para colocação no mercado internacional até 2009. Em 2007, as exportações líquidas de gasolina alcançaram 3,7 bilhões de litros. Valor que não era observado desde o final da década de 1980, quando os automóveis a etanol eram dominantes no Brasil.

Nos últimos três anos, a situação se transformou radicalmente. O etanol pouco competitivo fez o consumo de gasolina disparar. Em 2011, foram importados 1,9 bilhões de litros de gasolina e, em 2012, as importações líquidas atingiram 2,8 bilhões de litros até o mês de outubro.  Segundo nossas estimativas, 11% da gasolina consumida será importada. O Brasil não importava montantes tão significativos de gasolina desde a década de 1970. Continue lendo »

Vai faltar combustível no Brasil?

In diesel, etanol, gasolina on 19/11/2012 at 02:27

Por Thales Viegas

O aumento do consumo e das importações de gasolina (e diesel) no Brasil suscitou o debate sobre o risco de desabastecimento no país. A Petrobras e a ANP foram convocadas, reiteradamente, a responder sobre essa possibilidade. Nesse contexto, o fito deste artigo é analisar um dos principais problemas do mercado de combustíveis do ciclo Otto (gasolina e etanol) no Brasil, qual seja: a dificuldade de aumentar a oferta desses dois combustíveis. A pergunta relevante é a seguinte: há incentivos suficientes para o aumento adequado da produção de combustíveis para veículos leves no país?

Essa questão será respondida por meio da análise de três elementos a partir dos quais será possível compreender as causas das decisões do governo, dos consumidores e das empresas, bem como as suas consequências para o mercado de combustíveis e para a economia brasileira. Os três aspectos são os seguintes: i) o contexto politico-econômico do Brasil; ii) as estruturas de oferta e demanda de combustíveis e; iii) o desempenho econômico dos produtores e os seus investimentos. Continue lendo »

O futuro dos biocombustiveis XIV: Qual o sentido das políticas públicas e industriais para o futuro dos biocombustíveis?

In biocombustíveis on 22/10/2012 at 00:15

Por José Vitor Bomtempo

As crises e problemas do etanol e do biodiesel recolocam com frequência a questão das políticas de apoio aos biocombustíveis. Têm sentido essas políticas? Qual a direção e foco que devem ter?

Na perspectiva da abordagem que temos desenvolvido nesta série de artigos, essas políticas devem antes de tudo ter como orientação a indústria do futuro, o que significa ter como ponto de partida o conjunto da bioeconomia e não se ater apenas aos biocombustíveis. Isso quer dizer que o centro do problema é a exploração da biomassa para gerar de forma econômica e sustentável produtos de valor para a economia do século XXI e para buscar a inserção competitiva da indústria brasileira nessa indústria em construção.

A agenda brasileira, que se originou e teve resultados notáveis com foco em biocombustíveis, tem sido de certa forma tímida na transição para uma agenda mais ambiciosa e ampla voltada para a bioeconomia como um todo. Iniciativas como a do PAISS – Plano BNDES-FINEP de Apoio à Inovação dos Setores Sucroenergético e Sucroquímico –, já discutido em postagens anteriores, e a iniciativa em curso do Plano Brasil Maior – identificação de tecnologias emergentes em Química Verde a serem apoiadas com a perspectiva de conferir à indústria química brasileira competitividade e capacidade de inovação – são exemplos desse processo de transição. Continue lendo »

O futuro dos biocombustíveis XIII: a matéria-prima como fator estruturante da indústria

In biocombustíveis on 30/07/2012 at 00:15

Por José Vitor Bomtempo

Na formação da bioindústria do futuro, os problemas, desafios e oportunidades situam-se em quatro dimensões-chave: matérias-primas, processos ou tecnologias de conversão, produtos e estratégias/modelos de negócio. Na postagem X tínhamos discutido um importante ponto das matérias-primas: a busca de açúcares ou substratos fermentáveis, essenciais para os processos biotecnológicos e alguns processos químicos.

Nesta postagem, discutimos a questão das matérias-primas de uma perspectiva mais geral: que efeitos a adoção de uma nova matéria-prima poderia ter sobre a estrutura da indústria? Que lições poderíamos tirar dos processos de adoção de novas matérias-primas, como o do carvão no final do século XIX, e de processos de transição, como o da passagem para petróleo e gás natural no século XX? Que desafios têm que ser vencidos para que uma indústria baseada em biomassa possa amadurecer?

A adoção de um tipo de matéria-prima deve ser vista como um elemento que exerce uma influência importante na estrutura da indústria. Por isso, a transição de um tipo de matéria para outro é um tema central na história da indústria química orgânica. Spitz, no seu livro Petrochemicals: the rise of an industry, defende a tese de que a disponibilidade de matéria-prima, e não tecnologia ou mercado, tem sido o direcionador chave da indústria. Continue lendo »

O futuro dos biocombustíveis XII – As novas empresas da bioindústria e o Brasil: comparando Amyris, Solazyme e LS9 *

In biocombustíveis on 14/05/2012 at 00:15

Por José Vitor Bomtempo e Flávia Chaves Alves

Os resultados do Plano Conjunto BNDES-Finep de Apoio à Inovação Tecnológica Industrial dos Setores Sucroenergético e Sucroquímico (PAISS)  são muito interessantes para se compreender o processo de desenvolvimento da bioindústria no Brasil. Um dos pontos que saltam aos olhos ao consultar a relação das empresas selecionadas é a presença de start ups americanas que estão realizando ou pretendem realizar investimentos no Brasil para desenvolver seus projetos de inovação. Esse fenômeno foi mencionado na nona postagem dessa série. Apresentamos hoje uma reflexão inicial de uma pesquisa em andamento que tem por objetivo entender a natureza desse processo na construção da bioindústria e sua relação com a inovação no Brasil.

Fizemos uma comparação entre três importantes start ups da bioindústria – Amyris, Solazyme e LS9 – que estão desenvolvendo parte de seus projetos de inovação no Brasil e tiveram seus planos de negócios selecionados pelo PAISS. Continue lendo »

O futuro dos biocombustíveis XI: 2011 – ano 1 da era pós-etanol?

In biocombustíveis on 27/02/2012 at 00:15

Por José Vitor Bomtempo

A revista Technology Review, editada pelo MIT, divulgou no final do ano passado um interessante balanço das inovações em energia em 2011. O relato resume os sucessos e fracassos; as surpresas e decepções do ano nos diversos segmentos da área de energia.  Em biocombustíveis, foram destacados dois pontos: o início da produção da Amyris e o surgimento de um grupo de empresas que anunciam processos inovadores para a obtenção de açúcares a baixo preço a partir de materiais lignocelulósicos.  Esta corrida pelo açúcar, vista hoje como uma passagem crítica para o futuro da bioindústria, foi destacada no nosso artigo anterior.

Mas como poderíamos sintetizar o ano de 2011 dentro da perspectiva do futuro dos biocombustíveis e da bioindústria? O ponto de partida do primeiro artigo desta série, publicado em 29 de março de 2010, foi bem enfático: “a indústria de biocombustíveis do futuro será bem diferente da que conhecemos hoje”. A indústria estaria em transformação e se afastando da lógica inicial centrada nos chamados biocombustíveis de primeira geração: etanol e biodiesel.  Ao longo dos dois últimos anos tentamos acompanhar esse processo de transformação.  Ao revermos a evolução da agenda em torno dos biocombustíveis, parece-nos que o último ano marcou o que poderia ser o “ano 1 da era pós-etanol”. Continue lendo »

O futuro dos biocombustiveis X: as duas corridas do açúcar

In biocombustíveis on 21/11/2011 at 00:15

Por José Vitor Bomtempo

Na corrida para desenvolver os novos processos e produtos que formarão a bioindústria do futuro, a busca por matérias primas adequadas, principalmente no caso dos processos baseados em biotecnologia, é um ponto estratégico. À medida que alguns projetos inovadores tentam ultrapassar o estágio piloto e fazer o scale up para o de demonstração e o comercial, a garantia do acesso à matéria prima torna-se crítica. Para muitos desses processos, e provavelmente para os mais inovadores, o açúcar é a matéria prima de eleição.

Instala-se em consequência uma verdadeira corrida do açúcar que tem ares de uma corrida do ouro para os bioprocessos. Aliás, evidenciaram-se nos últimos meses não apenas uma, mas duas corridas do açúcar: uma mais imediata e de natureza comercial/estratégica para assegurar o melhor açúcar que existe hoje – o da cana de açúcar brasileira – e a outra de natureza tecnológica para buscar o abundante açúcar que existe nas plantas em geral  (2/3 do material lignocelulósico é composto de açúcares: celulose e hemicelulose). Continue lendo »

O futuro dos biocombustiveis IX: A diversidade de estratégias e o futuro da bioeconomia – comparando Shell, Braskem e Amyris

In biocombustíveis on 05/09/2011 at 00:10

Por José Vitor Bomtempo (*)

Em postagens anteriores, exploramos as estratégias das empresas de petróleo em biocombustíveis. Em particular, discutimos os movimentos de Shell, BP, Petrobras e Total. A principal conclusão a que se pode chegar a partir dessas análises é a de uma diversidade de visão e de abordagem do negócio “biocombustíveis”.

Na postagem de hoje vamos estender a discussão sobre a diversidade de estratégias que podem ser observadas no desenvolvimento da bioeconomia fazendo uma comparação entre Shell, Braskem e Amyris. Essa comparação ilustra a notável variedade de estratégias de inovação e de iniciativas empreendedoras que marca a construção da indústria de bioprodutos.

São centenas de projetos em andamento pelo mundo afora envolvendo start-ups de base tecnológica ao lado de empresas estabelecidas em diferentes indústrias tais como petróleo e gás, química, biotecnologia, e  agroindústria. Como as empresas estão construindo suas trajetórias na nova indústria? Essas estratégias são convergentes ou divergentes?

Procurar uma tipologia das estratégias e iniciativas pode ajudar na compreensão do processo em curso. Esta postagem é uma tentativa inicial de buscar elementos para a construção dessa tipologia. Continue lendo »

O futuro dos biocombustiveis VIII: Os contrastes das estratégias das grandes empresas de petróleo e o futuro da bioeconomia

In biocombustíveis on 04/07/2011 at 00:26

Por José Vitor Bomtempo

O recente Ethanol Summit organizado pela UNICA, em São Paulo, nos dias 6 e 7 de junho, nos pareceu um evento interessante para a linha de raciocínio que temos desenvolvido nesta série de artigos. De certa forma, o Ethanol Summit colocou com clareza – pela primeira vez, me parece, num evento desse peso no Brasil – a questão da indústria do futuro. Claro que muitos assuntos de interesse específico da indústria brasileira de etanol foram destacados e preencheram boa parte da pauta, mas algumas plenárias e as mesas sobre Futuro e Tecnologia se dedicaram a questões não tão imediatas.

Aproveitando a deixa do Ethanol Summit, propomos uma mudança neste blog que nos parece coerente com o que temos desenvolvido: não falaremos mais de biocombustíveis do futuro mas da nova indústria que inclui além de biocombustíveis, bioenergia, bioprodutos, biorrefino e outros bios que surjam. Que nome dar a essa indústria?   Ficamos, como sugestão inicial, com bioeconomia, que nos parece bastante abrangente. Assim, podemos dizer que o Ethanol Summit nos proporcionou a discussão de uma série de questões ligadas ao desenvolvimento da bioeconomia no mundo e no Brasil em particular. Aliás, todos os vídeos das plenárias e conferências podem ser assistidos aqui.

Vamos destacar nesta postagem a plenária que teve por titulo O futuro do petróleo e o papel dos biocombustíveis. A plenária reuniu executivos das quatro empresas de petróleo mais importantes em biocombustíveis: BP, Petrobras, Shell e Total. Continue lendo »

A solução para a crise do etanol: incentivos, subsídios, regulação ou defesa da concorrência?

In etanol on 20/06/2011 at 01:04

Por Thales Viegas

O mundo tem enfrentado um processo inflacionário puxado pelo vetor da alta nos preços das commodities. A ampliação da liquidez internacional ao longo da maior parte dos anos 2000 teria iniciado essa trajetória. Após os efeitos imediatos da crise financeira o preço das commodities voltou a subir. Na condição de insumos importantes de uma gama de atividades produtivas, esse aumento de preços se traduziu em inflação de custos para diversos setores. O aumento no preço da terra (que também tem um conteúdo especulativo) retroalimenta a inflação por meio dos produtos agrícolas, como é o caso da cana-de-açúcar.

O problema é que a história brasileira conformou uma cultura inflacionária que disseminou entre os agentes o hábito de remarcar preços para se defender e para garantir melhores margens de lucro. O resultado foi o estabelecimento de uma guerra por rendas entre os diferentes agentes econômicos que culminaria num processo hiperinflacionário e perduraria até meados dos anos 1990. A memória desse contexto recente ainda está impregnada nos agentes. Frente à ameaça de aumento de custos e após uma compressão de lucros (como aquela experimentada pelas usinas durante a crise financeira mundial), os formadores de preço buscam elevar sua margem na cadeia produtiva em relação aos outros elos e frente ao consumidor final. Continue lendo »

Crise de oferta no mercado do etanol: conjuntural ou estrutural?

In etanol on 30/05/2011 at 00:15

Por Edmar de AlmeidaThales Viegas

Após queda nos preços do etanol, com o início da safra, a questão que fica para o Governo e para os consumidores é se a crise de oferta do etanol é uma questão conjuntural ou estrutural. Ou seja, este foi um problema pontual referente apenas à última entressafra ou algo que tende a se repetir nos próximos anos.

Para responder a esta pergunta é necessário uma análise mais cuidadosa dos fatores que estão detrás do problema.  A razão básica do recente pico de preços foi o desequilíbrio entre oferta e demanda. Algumas causas deste desequilíbrio são conjunturais. Entretanto, nos parece que existem outras cujos efeitos podem durar por um período mais longo de tempo.

Depois da crise de 2008, a demanda potencial de etanol cresceu muito à frente da oferta de etanol. Em março de 2011, o setor automotivo alcançou a marca de 13,19 milhões de veículos flex-fuel licenciados desde 2003 e a participação destes veículos na frota total de veículos leves alcançou 43%.  Somente em 2010 foram vendidos cerca de 3 milhões de veículos flex-fuel. Continue lendo »

Etanol: de promessa a problema

In etanol on 16/05/2011 at 00:10

Por Luciano Losekann

Até recentemente, o governo brasileiro destacava o país como potência mundial exportadora de etanol. Nesse sentido, em 2007, o governo brasileiro divulgou um estudo que apontava a possibilidade do Brasil atender com etanol a 5% do consumo mundial de gasolina e que, com técnicas mais avançadas, essa participação poderia chegar a 10% em 2025[1], com uma produção de 205 bilhões de litros de etanol no país.

Passados quatro anos, a perspectiva é totalmente distinta. O cenário recente do etanol no Brasil é caracterizado por dificuldades de abastecimento do combustível, preços disparados e necessidade de importação do produto. Continue lendo »

O futuro dos biocombustiveis VII – qual o papel do Brasil?

In biocombustíveis on 09/05/2011 at 00:10

Por José Vitor Bomtempo

Na postagem anterior, discutimos a estratégia da Petrobras, sem dúvida o ator mais importante no futuro da energia no Brasil. Vimos que se pode depreender das iniciativas da empresa uma postura de participação efetiva na indústria de biocombustíveis. Mas essa participação parece se dar dentro de uma visão comprometida mais com a indústria de hoje – dita de primeira geração – do que com a indústria do futuro – dita de biocombustíveis avançados e outros bioprodutos.

Essa perspectiva é reforçada ao se comparar a Petrobras com outras grandes empresas de petróleo, como a Shell, BP, por exemplo (ver as postagens anteriores; o futuro dos biocombustíveis IV e V), que combinam um posicionamento na indústria atual com uma estratégia de construção da nova indústria. Outra empresa de petróleo que tem reforçado de forma interessante sua participação nos biocombustíveis do futuro é a Total. Voltaremos ao caso da Total na próxima postagem. A questão hoje é examinar o papel do Brasil na indústria do futuro e para isso devemos examinar bem mais do que o papel da Petrobras. Continue lendo »

Automóveis flex fuel: entendendo a escolha de combustível

In etanol on 21/03/2011 at 00:05

Por Luciano Losekann e Gustavo Rabello de Castro

Conforme postagem anterior, os modelos que permitem a escolha do combustível utilizado, gasolina ou etanol, dominam as vendas de automóveis no Brasil. Os automóveis flexíveis (flex fuel) já representam 46% da frota brasileira de veículos leves, participação que deve se elevar continuamente.

Assim, grande parte dos proprietários de automóveis pode escolher o combustível que utilizará no momento do abastecimento. Desta forma, a demanda de etanol e gasolina se torna muito mais volátil. Ainda que outros fatores influenciem a escolha do consumidor, como autonomia e impacto ambiental, o preço relativo dos combustíveis é o critério preponderante de escolha.

Como podemos observar na figura 1, a evolução do consumo brasileiro de etanol e gasolina C[1] nos últimos três anos foi bastante influenciada pelo preço relativo do etanol (preço do etanol/preço da gasolina). Nos momentos em que o preço relativo é baixo, aumenta o consumo de etanol e diminui o de gasolina. Ocorrendo o contrário quando o preço relativo sobe. O comportamento do mercado no início de 2010 torna claro esse movimento. O preço relativo aumentou fortemente, fazendo despencar as vendas de etanol e elevar as vendas de gasolina[2]. Continue lendo »

O futuro dos biocombustiveis VI: a estratégia da Petrobras

In biocombustíveis on 14/03/2011 at 00:18

Por José Vitor Bomtempo

Na postagem anterior, comparamos as estratégias da BP e da Shell em biocombustíveis. Hoje, apresentamos o caso da Petrobras. Vale recordar rapidamente a fundamentação da análise. Partimos de uma distinção de base entre a competição dentro da estrutura industrial existente – etanol e biodiesel – e a competição no que denominamos indústria de biocombustíveis e bioprodutos do futuro – novos processos e novos biocombustíveis e bioprodutos. No primeiro caso, temos tipicamente uma competição baseada no posicionamento dentro de uma estrutura industrial conhecida. No segundo, a estrutura industrial ainda não está estabelecida e a base da competição é a capacidade de inovar e moldar a nova estrutura industrial. Esses pontos estão desenvolvidos com mais detalhes nas postagens anteriores da série.

É importante ainda notar que na indústria de biocombustíveis de primeira geração as tecnologias de conversão estão disponíveis para os investidores a partir de fontes externas acessíveis como as empresas de engenharia/tecnologia e fabricantes de equipamento. Na indústria de biocombustíveis do futuro – baseada em inovação em novas matérias-primas, novos processos, novos produtos – uma mudança fundamental é o deslocamento da fonte de tecnologia para dentro das empresas, com isto, a tecnologia tende a ser muito mais sofisticada nos bioprodutos do futuro e consequentemente proprietária. Existem portanto grandes diferenças nas estratégias tecnológicas entre a indústria de hoje e indústria do futuro.

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Uma agenda futura para a política dos biocombustíveis no Brasil

In biocombustíveis on 17/01/2011 at 00:12

Por Renato Queiroz

A Associação Brasileira de Estudos em Energia – AB3E – promoveu em 14 de dezembro de 2010 no Rio de Janeiro um seminário para discutir a agenda da política energética brasileira para o próximo governo. No painel específico em que se discutiu a agenda para os bicombustíveis observaram-se duas abordagens: a do representante da Petrobrás, Eduardo Correia, da área de Estratégia Competitiva que identificou uma série de incertezas críticas que influenciam fortemente o mercado de biocombustíveis, desenvolvendo inicialmente, a partir dessas incertezas, quatro cenários exploratórios e  selecionando dois cenários para um horizonte nos próximos 20 anos; e a do professor José Vitor Bomtempo do Grupo de Economia da Energia que avaliou o futuro da indústria de biocombustíveis sob um enfoque estratégico com premissas que quebram os atuais paradigmas.

A presente postagem apresenta as reflexões desses especialistas e coloca questões sobre o  tema que certamente estarão na mesa de discussões dos formuladores da agenda de política energética para os anos futuros.

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Competitividade internacional do etanol brasileiro: oportunidades e ameaças

In etanol on 13/12/2010 at 00:15

Por Thales Viegas

A competitividade é um dos principais fatores que garantem o crescimento e o sucesso de um produtor ou de um país. Competitividade é uma questão de grau. Existe um espectro de possibilidades (níveis) de modo que não se trata apenas de ter ou não ter, mas em se possuindo alguma competitividade, importa saber em que patamar ela se encontra. O conceito de competitividade é relativo e se define pela comparação entre produtores ou países. Ela pode ser mensurada, basicamente, por meio do ritmo de crescimento das vendas, da rentabilidade e, principalmente, da participação de mercado (market-share) do agente ou do conjunto de agentes em análise.

Deste modo, é possível que os elementos que compõem a competitividade de uma indústria sofram uma piora em certo momento, mas a indústria pode permanecer competitiva em alguma medida. Em mercados de produto homogêneo, ou com poucas diferenças qualitativas (como é o caso do etanol), o preço é um elemento decisivo na determinação da competitividade. Quando um produtor é capaz de praticar preços abaixo de seus concorrentes, suas vendas podem crescer e ele pode conquistar e manter uma maior participação de mercado. O preço também pode oferecer sinais de mercado a respeito da estrutura de custos e da eficiência de um produtor. É basicamente a relação entre os custos e os preços que determina a rentabilidade do negócio. Assim, os produtores eficientes em custos têm condições para serem mais competitivos no mercado global, mantendo o crescimento das vendas e um maior market-share, ao sustentar preços abaixo daqueles praticados por seus concorrentes.

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O futuro dos biocombustíveis V: as estratégias de Shell e BP

In biocombustíveis on 25/10/2010 at 00:15

Por José Vitor Bomtempo

Na postagem anterior, discutimos a natureza da competição e da inovação em biocombustíveis. Na classificação que propusemos, o ponto fundamental era a distinção entre a competição dentro da estrutura industrial existente – etanol e biodiesel – e a competição no que denominamos indústria de biocombustíveis e bioprodutos do futuro – novos biocombustíveis e bioprodutos. No primeiro caso, temos tipicamente uma competição baseada no posicionamento à la Porter. Um competidor se torna competitivo ao encontrar uma posição favorável dentro da estrutura industrial vigente.  No segundo, a estrutura industrial ainda não está estabelecida e a base da competição é a construção de capacitações (capabilities building à la Teece) que buscam viabilizar as oportunidades de inovação e moldar a nova estrutura industrial.

É importante ainda notar que na indústria de biocombustíveis de primeira geração as tecnologias de conversão estão disponíveis para os investidores a partir de fontes externas acessíveis como as empresas de engenharia/tecnologia e fabricantes de equipamento. Na indústria de biocombustíveis do futuro – baseada em inovação em novas matérias primas, novos processos, novos produtos – uma mudança fundamental é o deslocamento da fonte de tecnologia para dentro das empresas, isto, a tecnologia tende a ser muito mais sofisticada nos combustíveis do futuro e conseqüentemente proprietária. Continue lendo »

Regulação e investimentos na produção de etanol

In etanol on 11/10/2010 at 12:24

Por Thales Viegas

A disponibilidade adequada de energia é um elemento estratégico para um país, por isso normalmente é objeto de regulação e de outras políticas públicas. As fontes de energia renováveis, por seu turno vêm recebendo atenção especial em muitas nações, uma vez que contribuem para a redução da dependência das fontes de energia fóssil, mitigando também a emissão de Gases de Efeito Estufa (GEE).

No caso dos biocombustíveis, é preciso enfrentar problemas intrínsecos à produção agrícola como: a possível competição pela terra; a sazonalidade da produção; efeitos das intempéries climáticas (que geralmente explicam as quebras de safra) e; as relações de trabalho no campo.

No setor sucroenergético, em particular, a interação interdependente dos mercados de etanol, açúcar e energia elétrica adiciona incerteza aos cenários sobre os quais os agentes têm de tomar decisões, uma vez que cada um desses mercados tem uma lógica própria. Se por um lado esses produtos podem ser hedges naturais entre si, por outro podem dificultar a coordenação setorial quando há maior flexibilidade na produção entre eles. A oferta de etanol reflete as decisões de produção de agentes independentes atuando em um mercado com um grau concentração relativamente baixo. Nesse contexto, as expectativas particulares dos produtores quanto ao preço e a demanda do etanol (e de açúcar) determinam a escolha do mix de produção mais rentável ao usineiro. Continue lendo »

O futuro dos biocombustíveis IV: a posição brasileira

In biocombustíveis on 06/09/2010 at 00:15

Por José Vitor Bomtempo

Na postagem anterior, discutimos a natureza do processo de inovação em curso. A importância desse processo é que sua evolução irá definir a estrutura da indústria de biocombustíveis e bioprodutos do futuro. Como consequência, as políticas e estratégias em relação ao futuro da indústria baseada em biomassa não podem ignorar essa nova estrutura em construção, sob pena de perderem no futuro a competitividade de hoje.

Nossas análises anteriores sugerem que existem oportunidades interessantes no horizonte. A pergunta incontornável então é: as estratégias e políticas no Brasil têm levado em conta as oportunidades e ameaças que esse processo nos traz? Ou acreditamos firmemente que nossa competitividade em etanol de cana de açúcar – que nos dá uma invejável posição competitiva na indústria de hoje – é suficiente para nos assegurar também uma posição de destaque na indústria do futuro?

As duas perguntas acima resumem um ponto que nos parece fundamental considerar: a competição na indústria do futuro tende a ser consideravelmente diferente da que temos hoje em etanol. O fato de sermos líderes nesse jogo – o dos biocombustiveis de primeira geração – não nos assegura necessariamente uma posição de liderança e mesmo uma posição relevante na indústria do futuro. Continue lendo »

Estimação da frota brasileira de automóveis flex e a nova dinâmica do consumo de etanol no Brasil a partir de 2003

In etanol on 26/07/2010 at 00:15

Por Luciano Losekann e Thaís Vilela

1. Introdução

 

O Programa Nacional do Álcool (Pró-álcool) representa uma experiência única de substituição de derivados de petróleo no segmento de transportes (Hira e Oliveira, 2009 e Coelho et al., 2006). O programa, instituído em 1975 como parte de um conjunto de políticas, visava mitigar o impacto da primeira crise do petróleo. Na primeira fase do programa, o etanol era utilizado apenas como aditivo misturado à gasolina. A partir de 1979, porém, ano do segundo choque de preços do petróleo, foram introduzidos os automóveis a álcool que se difundiram rapidamente. Em 1986, os automóveis movidos a etanol já representavam 92% das vendas. Continue lendo »

O futuro dos biocombustíveis III: O processo de inovação que está construindo a indústria do futuro

In biocombustíveis on 12/07/2010 at 00:15

Por José Vitor Bomtempo

Na postagem anterior, apresentamos uma discussão dos pontos que podem justificar a nossa premissa central: a utilização industrial de biomassa será no futuro  muito diferente da indústria que conhecemos hoje. O Worl Economic Forum acaba de publicar um relatório “The future of industrial biorefineries” que reforça essa idéia de uma nova indústria em construção.

Note-se que se trata do primeiro trabalho do grupo Collaborative Innovation Initiative criado em 2009 para identificar tendências importantes na economia mundial e contribuir para o desenvolvimento cooperativo das inovações.

Nesta postagem, vamos discutir o processo de inovação que está em curso como base de construção dessa indústria dos biocombustíveis do futuro. Continue lendo »

Modelos de demanda por combustível no Brasil

In diesel, etanol, gasolina, GNV on 14/06/2010 at 00:15

Por Thaís Vilela

1 – Introdução

A matriz brasileira de combustíveis automotivos passou, e continua passando, por diversas mudanças, ora introduzidas pelo Governo Federal, ora pelas condições de mercado. Neste cenário, a predominância de um combustível em relação a outro mudou ao longo das últimas quatro décadas, tendo sido a falta de um planejamento estratégico bem definido, em relação a essa matriz, a principal responsável pelos diversos processos de substituição entre os combustíveis. Dentro deste contexto, o interesse em avaliar a dinâmica do consumo dos combustíveis automotivos no Brasil é grande, uma vez que o estudo sobre o comportamento do mercado de combustíveis, principalmente com relação à análise de sensibilidade da demanda a variações no preço e na renda, tende a ser uma importante ferramenta de orientação de política para o setor, já que este tema insere-se num contexto mais amplo envolvendo as esferas energéticas, ambientais e de infraestrutura. Continue lendo »

O futuro dos biocombustíveis II: Por que a indústria de biocombustíveis do futuro será diferente da que conhecemos hoje?

In biocombustíveis on 10/05/2010 at 01:00

Por José Vitor Bomtempo

No primeiro post na nossa série sobre o futuro dos biocombustíveis, partimos de uma premissa clara: a indústria de biocombustíveis do futuro será bem diferente da que conhecemos hoje. Não se limitará aos produtos atuais – etanol e biodiesel -, nem aos processos e matérias primas de hoje. Sua base tecnológica e sua estrutura industrial poderão ser irreconhecíveis vistas de hoje.

Essa premissa é muito importante para refletirmos sobre as perguntas do post anterior. Vamos então discuti-la um pouco mais e tentar defendê-la. Continue lendo »

Frota brasileira de veículos leves: difusão dos flexíveis e do GNV

In etanol, GNV on 19/04/2010 at 01:00

Por Luciano Losekann e Thaís Vilela

(Atualizado em 15 de Setembro de 2010)

A matriz energética brasileira se caracteriza pela relevante participação do álcool e do gás natural como combustíveis automotivos alternativos aos derivados de petróleo. O conhecimento da evolução e do perfil da frota de automóveis é um passo fundamental para estimar o consumo desses combustíveis e orientar políticas relacionadas à substituição de derivados de petróleo bem como a mitigação de emissão de CO2.

No entanto, desde 1986, com a extinção da Taxa Rodoviária Única, as estimações da frota nacional circulante no Brasil, realizadas por diversas instituições, apresentam resultados bastante divergentes. O DENATRAN, Departamento Nacional de Trânsito, divulga os dados sobre frota por tipo de veículo e por unidade da federação a partir dos dados de cadastramento realizados nos Detran’s, Departamentos Estaduais de Trânsito. Continue lendo »

O futuro dos biocombustíveis

In biocombustíveis on 29/03/2010 at 01:00

Por José Vitor Bomtempo

O saudoso prof Keith Pavitt, um dos grandes iniciadores dos estudos em economia da inovação, gostava de dizer aos seus orientandos que o objetivo de uma pesquisa não é necessariamente responder as perguntas, mas torná-las melhores ou “more answerable” como dizia ele. Gostaria de começar este blog deixando algumas perguntas que podemos nos fazer ao pensarmos no futuro dos biocombustíveis e da indústria baseada em matérias primas renováveis. Tentaremos trazer elementos e lançar discussões para, como queria o mestre Pavitt, tornar essas perguntas mais claras, melhor formuladas, se possível. Afinal, se para começar estamos citando os mestres, como dizia Inácio Rangel, ninguém resolve problemas que não consegue formular com clareza. Então, esse é o esforço inicial para o qual o blog vai tentar contribuir: melhorar as nossas perguntas sobre o futuro dos biocombustiveis. Continue lendo »