Grupo de Economia da Energia

Gupta, E. (2008). Oil Vulnerability Index of Oil-Importing Countries. Energy Policy Volume 36, 1195-1211

  1. Introdução

 

De acordo com o autor, o abastecimento contínuo de petróleo é vital para se obter um desenvolvimento econômico sustentável, porém, dadas às condições de mercado do petróleo, possíveis interrupções na oferta desta commodity podem ocorrer.

Enquanto a América do Norte, Ásia do Pacífico e a Europa possuem apenas 10% das reservas mundiais de petróleo, essas são responsáveis por, aproximadamente, 78,6% da demanda total por este combustível. Por outro lado, o Oriente Médio, os países da ex-União Soviética e a África possuem 81,3% das reservas mundiais, mas respondem por apenas 15,5% da demanda global por petróleo[1].

Por estes números já é possível perceber grande assimetria neste mercado. A OPEP, Organização dos Países Exportadores de Petróleo, por exemplo, possui 75,2% das reservas mundiais e controla, aproximadamente, 41,7% da produção de petróleo[2]. Grande parte destes países é caracterizada por uma alta instabilidade política. Além disso, aproximadamente dois terços do petróleo são transportados por estreitos canais suscetíveis a ataques terroristas e acidentes.

Outro fator importante que afeta o mercado de petróleo é o pico de produção. Segundo o autor, em, aproximadamente, 50 países, a produção de petróleo já atingiu seu pico. Neste contexto, aumentaria o controle da oferta de petróleo pelos países membros da OPEP. Ao mesmo tempo, a OPEP não está investindo o suficiente para garantir que no futuro a oferta supra a demanda. A capacidade ociosa segue numa tendência decrescente resultando numa maior instabilidade no mercado internacional de petróleo e, também, numa maior probabilidade de interrupções futuras.

Pelo lado da demanda, a dependência quanto ao petróleo importado dos países consumidores como, por exemplo, Estados Unidos, União Européia, China e Índia, só aumenta. Atualmente, os EUA e a EU importam de países não membros da OPEP, mas a medida que a produção destes países diminui, como é o caso do Mar do Norte, os países consumidores tendem a tornar-se mais dependentes de uma mesma fonte, a OPEP.

Assim, considerando todos os aspectos mencionados acima, a vulnerabilidade de longo prazo quanto às possíveis interrupções no abastecimento de petróleo tende a aumentar. Diante deste contexto, o objetivo deste artigo é o de quantificar e avaliar a vulnerabilidade de 26 países importadores de petróleo para o ano de 2004. Para isso, são considerados quatro indicadores de risco de mercado, quais sejam: (1) a razão entre o valor das importações de petróleo e PIB; (2) consumo de petróleo por unidade do PIB; (3) o PIB per capita; e (4) a participação do petróleo na oferta total de energia; e três de risco de oferta, são eles: (1) a razão entre as reservas domésticas e o consumo de petróleo; (2) a exposição a riscos geopolíticos medidos a partir da dependência de petróleo importado, diversificação das fontes de oferta e risco político nos países exportadores de petróleo; e (3) liquidez do mercado.

As fontes utilizadas para construir tais indicadores foram: IEA; Energy balances of OECD countries; e Energy balances of non-OECD countries. Vale mencionar que o valor das importações é calculado multiplicando as importações líquidas de petróleo pelo preço internacional desta commodity em 2004 divulgado pela BP 2006. A partir destes índices individuais, o autor também constrói um índice composto OVI, oil vulnerability index.

  1. Construção do OVI a partir da abordagem do Principal Componente

A metodologia do Principal Componente transforma um conjunto de variáveis correlacionadas num conjunto de variáveis não-correlacionadas denominadas Componentes, que são a combinação linear das variáveis originais. A idéia desta abordagem é reduzir a dimensão das variáveis de trabalho.

Com o objetivo de calcular o OVI, a vulnerabilidade em relação ao petróleo é considerada uma variável não-observada ou latente, ou seja, que não pode ser observada diretamente. Além disso, assume-se que o OVI é linearmente relacionado com os indicadores descritos acima e, também, com o distúrbio. O peso dos indicadores na regressão é determinado via Principal Componente.

Primeiro, os indicadores selecionados são normalizados, de forma a se tornarem positivamente relacionados com a vulnerabilidade referente ao petróleo. Em seguida, a matriz de correlação 7×7 dos indicadores normalizados é calculada. Com base nessa, o polinômio característico é determinado e os autovalores calculados. Tendo os autovalores, é possível, através da equação característica, calcular os autovetores. Finalmente, os sete Principais Componentes são calculados a partir da multiplicação dos indicadores normalizados para o país k com os autovetores correspondentes aos autovalores.

O primeiro Principal Componente (PC) explica a variância máxima dos indicadores originais. O segundo PC explica a variância máxima da variância restante e assim por diante. Logo, o OVI é calculado como a média ponderada dos sete PCs. Vale mencionar que os autovalores correspondem à variância dos respectivos PCs.

  1. Resultados Empíricos

 

De acordo com os resultados obtidos, Figura 1 abaixo, as Filipinas possuem a maior vulnerabilidade em relação ao petróleo dos 26 países analisados. A média de vulnerabilidade é 0,64. Os países menos vulneráveis são: Áustria, França, Alemanha, Estados Unidos, Suécia e Austrália.

Figura 1. Oil Vulnerability Index

A análise feita até agora baseou-se no índice agregado. Porém, é importante avaliar o peso dos indicadores selecionados no OVI a fim de entender a posição dos países no índice geral. Desta forma, para obter a contribuição relativa dos diferentes indicadores, roda-se a regressão utilizada inicialmente para definir o OVI.

Os resultados, Figura 2 abaixo, sugerem diferenças significativas entre os países com relação à contribuição de cada indicador.

Assim, enquanto a Austrália possui o menor risco tanto de mercado quanto de oferta, as Filipinas possuem o maior risco considerando também ambas as dimensões. Na média, os indicadores referentes ao risco de mercado são mais significativos que os de oferta na determinação da vulnerabilidade geral dos países ao petróleo. Isso implica que as políticas devem priorizar os riscos de mercado a fim de reduzirem sua vulnerabilidade total. Além disso, dadas às especificidades de cada país, políticas generalizadas não serão eficientes.

  1. Conclusão

 

Garantir a segurança mundial energética dependerá de políticas energéticas nacionais e internacionais integradas, que considerem tanto uma oferta quanto um consumo de petróleo sustentável. Com relação às políticas nacionais, essas podem ser divididas em dois grupos: um que procura reduzir os riscos de mercado e outro que lida com os riscos de oferta. Ao mesmo tempo, os instrumentos utilizados dependem da perspectiva de tempo, ou seja, curto, médio e longo prazo.

Primeiro, as ferramentas políticas que podem reduzir o risco de oferta de petróleo como um todo incluem a redução da demanda por petróleo, o aumento dos investimentos na exploração e produção doméstica e a diversificação dos fornecedores e das fontes de energia utilizadas. No curto prazo, medidas restritivas são as mais eficientes. Já, no médio prazo, pouco pode ser feito com relação à vida útil das reservas ou com a quantidade importada, sendo, neste contexto, a diversificação o melhor instrumento para reduzir a probabilidade de interrupções futuras de petróleo. Por fim, no longo prazo, a melhor política é a que induz uma redução na dependência como um todo de petróleo através de melhorias na eficiência. Outras medidas podem também ser utilizadas como, por exemplo, o estímulo ao uso de fontes alternativas e aumento dos investimentos no upstream.

As ferramentas que podem ser utilizadas para reduzir o risco de mercado ou a vulnerabilidade macroeconômica incluem medidas como, por exemplo, aumentar as reservas estratégicas de petróleo.

Com relação às políticas internacionais, o desenvolvimento sustentável das fontes de petróleo requer maior cooperação entre os países consumidores a fim de reduzir o poder dos países exportadores nas negociações. Além disso, a segurança energética requer investimentos internacionais em países produtores de petróleo. Os países consumidores devem ajudar os países produtores a superar suas dificuldades e criar condições que facilitem uma maior transparência e uma boa governança.

Para concluir, cabe mencionar que a análise se beneficiaria da inclusão de mais indicadores como, por exemplo, indicadores ambientais, e da possível extensão do indicador OVI para a construção de um indicador de vulnerabilidade referente à energia total (gás, petróleo, carvão e etc).


[1]BP (British Petroleum) 2006

[2] BP (British Petroleum) 2006