Grupo de Economia da Energia

Huntington, H. G. (2009). Natural Gas Across Country Borders: An Introduction and Overview. The Energy Journal, Special Issue. World Natural Gas Markets and Trade: A Multi-Modeling Perspective

  1. Introdução

Com objetivo de oferecer um panorama sobre os estudos feitos sobre o mercado mundial de gás natural, este artigo discute doze trabalhos desenvolvidos no Energy Modeling Forum na Universidade de Stanford em 2007 relacionados ao tópico de modelagem na área de gás natural. Apesar de não ser necessário o desenvolvimento de modelos a fim de descrever a evolução do mercado internacional de gás natural, esses permitem um maior entendimento de como estas tendências afetam as perspectivas para o gás natural.

Cinco tópicos foram considerados de interesse pelos especialistas presentes no fórum, são eles:

(1)   Modelagem;

(2)   Mercado mundial de gás natural;

(3)   Comportamento estratégico no mercado europeu;

(4)   Convergência dos preços de gás natural no Atlântico; e

(5)   Avaliação das reservas de gás natural para oferta doméstica.

  1. Modelagem

Com relação a este tópico, foram desenvolvidos dois artigos. Em ambos, dois pontos podem ser destacados. O primeiro consiste na preocupação dos autores de criarem um modelo de energia que fosse digno de crédito e útil. Para tanto, o modelo deve ser baseado em princípios teóricos. Segundo, os resultados obtidos devem ser analisados de acordo com a teoria e com o conhecimento das próprias limitações do modelo, não devendo os resultados, portanto, serem utilizados de forma indiscriminada.

Ainda sobre este tópico, os autores argumentam que, em determinadas situações, modelos simples podem gerar conclusões significativas. Os autores ainda destacam que a importância das condições iniciais, uma vez que essas alteram podem alterar os resultados obtidos.

  1. Mercado Mundial de Gás Natural.

Com relação a esta segunda área de estudo, quatro artigos foram desenvolvidos. Os primeiros três artigos consideraram a hipótese de um mercado de gás natural competitivo. Já, o quarto artigo de Ruud Egging, Franziska Holz, Christian Von Hirschhausen e Steven Gabriel discute os resultados obtidos a partir de simulações de comportamentos estratégicos de alguns países produtores e exportadores de gás natural.

Apesar de suporem estruturas de mercados distintas, os quatro artigos procuram investigar o impacto de diferentes variáveis de interesse no mercado de gás natural. De forma geral, as variáveis são: o crescimento do comércio de gás natural; os efeitos de um aumento do preço do petróleo no mercado de gás natural; o potencial de exportação da Rússia; e a adoção de comportamentos estratégicos de países produtores e exportadores de gás natural.

Com relação ao crescimento do comércio de gás, os resultados obtidos, a partir da determinação de diferentes cenários para o mercado mundial de gás natural e da determinação de um modelo numérico, sugerem que o comércio entre continentes deverá crescer consideravelmente nas próximas duas décadas e que o preço nas principais regiões importadoras permanecerá, aproximadamente, igual ao seu valor atual. Contudo, restrições às exportações do Oriente Médio podem alterar tal perspectiva.

O artigo que avalia os impactos de um aumento do preço do petróleo mercado nacional e internacional de gás natural e no mercado de GNL utiliza o Modelo Internacional de Gás Natural. São estabelecidos três cenários: o cenário de referência, o cenário de aumento do preço do petróleo e, finalmente, o terceiro cenário que pressupõe um aumento de preço do petróleo e uma capacidade adicional de gas-to-liquids limitada. Os resultados obtidos revelam que, apesar da restrição da capacidade de GTL, um aumento no preço do petróleo implica num aumento da produção e consumo de gás natural. Contuso, os autores destacam que quando há possibilidade de expandir a capacidade de GTL, então o aumento do preço do petróleo implica num aumento do preço do gás natural e, consequentemente, uma diminuição do consumo de gás natural nos setores de geração de energia elétrica e industrial que optam por combustíveis mais baratos, sendo o gás natural utilizado, neste caso, para a produção de GTL’s

O terceiro artigo avalia o papel da Rússia no mercado de gás natural. De acordo com os autores a Rússia é o país produtor e exportador dominante no mundo e deve permanecer como tal. De qualquer forma, segundo os autores, a habilidade da Rússia de influenciar o mercado mundial de gás natural é limitada no longo prazo por causa da competição com os demais países exportadores como, por exemplo, os países do Oriente Médio.

Em contraste com esses três artigos, que consideram o mercado de gás natural competitivo, Ruud Egging, Franziska Holz, Christian Von Hirschhausen e Steven Gabriel discutem os resultados de simular um comportamento estratégico de alguns dos países produtores e exportadores de gás natural (GASPEC). Esses autores utilizam o Modelo Mundial de Gás, ou seja, uma representação dinâmica e estratégica dos comportamentos dos compradores, produtores e do comércio de gás natural entre 2005 e 2030. Duas simulações são feitas: a primeira consiste na cooperação entre esses países na exportação de gás, seja via gasoduto seja GNL; e a segunda simulação pressupõe uma redução proposital na produção de gás. Os resultados obtidos revelam que a formação de uma cartel reduziria a produção e aumentaria o preço do gás natural em 22% nos países importadores. As evidências encontradas indicam que a América do Norte e a Europa seriam as regiões mais afetadas.

  1. Comportamento Estratégico nos Mercados Europeus

O desenvolvimento de modelos que incorporam a existência de comportamentos estratégicos dos países produtores e exportadores deve considerar a endogeneidade das decisões, por exemplo, de investimento. Dentro deste contexto, três artigos foram desenvolvidos.

Wietze Lise e Benjamin Hobbs exploram muitas das questões envolvendo comportamentos estratégicos a partir de um modelo espacial dinâmico que permite a incorporação de decisões sobre quando e quanto aumentar a capacidade de transporte e estocagem do gás natural. Eles exploram as oportunidades dos grandes produtores de exercerem seu poder de mercado num mundo com preços de petróleo e de gás natural mais altos. Através de um modelo para o mercado de gás natural dinâmico que considera a oferta, a demanda e os investimentos em gasodutos, GNL e estoque, eles analisam a competição entre regiões, assim como a dinâmica de ajuste da capacidade de transporte e de estocagem que influencia as oportunidades de poder de mercado em regiões com demanda crescente. Eles concluem que a Rússia possui o maior incentivo para exercer seu poder de mercado.

O segundo artigo de Franziska Holz, Christian Von Hirschhausen e Claudia Kemfert simula os efeitos do cenário de referência e alternativo na oferta de gás natural na Europa em 2025. Para tal, o modelo GASMOD foi utilizado. os resultados do modelo sugerem que mudanças modestas na oferta de gás natural na Europa, indicando que as preocupações atuais com relação à segurança energética são exageradas. As importações de GNL devem aumentar na Europa, a Rússia não dominará as importações, corresponderá a, aproximadamente, um terço e, finalmente, o Oriente Médio continuará a ser uma opção mais barata.

Gijsbert Zwart analisa os cenários de longo prazo para o mercado europeu de gás natural considerando o modelo NATGAS que inclui, explicitamente, as restrições impostas pelo volume de recursos limitado e o poder de mercado dos produtores. O objetivo do artigo é analisar o impacto das condições no mercado de GNL na participação dos ofertantes de gás via gasoduto, assim como na velocidade de depredação dos recursos europeus. Os resultados obtidos sugerem que restrições na disponibilidade de GNL poderão resultar em queda, no curto prazo, da produção caso os ofertantes acreditem que essa situação perdure, implicando, portanto, num preço futuro de gás maior. Caso os grandes produtores não exerçam seu poder de mercado, os recursos naturais dos países consumidores serão consumidos mais rápidos, sendo estrategicamente interesse, para os países exportadores de gás à Europa, no médio, longo prazo tal ação.

  1. Convergência de Preço no Atlântico

Os artigos de Brown e Yücel e de Anne Neumann analisam a relação entre os preços do gás natural na América do Norte e na Europa nos últimos dez anos. O artigo de Brown e Yücel indica a existência de movimentos coordenados dos preços do gás no Atlântico. Os resultados encontrados sugerem a possibilidade do preço do petróleo ser o fator de coordenação entre os preços do gás natural no Atlântico, dada a relação de longo prazo que existe entre os dois combustíveis.

Já, Anne Neumann, cujos resultados são também consistentes com a convergência dos preços do gás natural no Atlântico, aplica uma metodologia, o filtro de Kalman, que permite que o coeficiente de convergência do preço varie ao longo do tempo, já que a integração dos mercados ocorre ao longo do tempo e não de forma imediata. De acordo com a autora, os preços do gás no Henry Hub e NBP convergem para um preço comum sendo o diferencial resultado dos custos de transporte e de transação. Há evidência de que esta maior convergência é explicada pela expansão do comércio de GNL.

  1. Avaliação dos Recursos para Oferta Doméstica de Gás Natural

Kevin Forbes e Ernest Zampelli estimam o crescimento das reservas de mais de 500 campos offshore em produção no Golfo do México entre 1975 e 2003. Os autores estimaram a taxa de crescimento anual dos campos de gás como função da idade dos campos, do tamanho inicial, do preço real do gás natural, da profundidade da água e de um conjunto de fatores específicos não observáveis de cada campo que não varia no tempo. Os fatores não observáveis representam verdadeiros desafios à determinação de modelos econométricos, uma vez que são fortemente correlacionados com o conjunto de termos individuais constantes para cada campo que também não variam no tempo. Os resultados sugerem que a idade dos campos não é o único fator que explica a taxa de crescimento anual das reservas. Eles concluem, portanto, que estimar o crescimento das reservas, seja de petróleo seja de gás natural, utilizando a hipótese geológica básica de que a idade dos campos é o fator determinante pode comprometer as avaliações futuras de oferta de gás natural.

  1. Conclusão

As questões apresentadas neste artigo, assim como o método de avaliação e estudo de tais questões representam uma boa perspectiva de quais os elementos de interesse sobre o mercado de gás natural e onde o conhecimento sobre tal mercado deve, provavelmente, avançar.