Grupo de Economia da Energia

Lelli, Edoardo (2008). Black Gold and Blue Gold: The Importance of Energy in the New Power Policy of the Russian Federation

O fim da URSS estabeleceu um período de dificuldades, tanto na esfera política como econômica, para a Rússia. Isso marca o início de uma fase de queda de importância do país no cenário político mundial. Essa fase só terá um ponto de inflexão com a chegada ao poder de Vladimir Putin,quando há uma mudança na política em relação à energia, com a busca pelo exercício de maior controle sobre as companhias do setor e sobre os ativos.

Assim, o autor trabalha com a hipótese de que com a crise financeira pela qual passa o país em 1998, em um contexto de desvalorização do rublo e o concomitante aumento do preço internacional do petróleo, o Estado russo passa a usar suas reservas de óleo e gás para se tornar uma superpotência energética no médio prazo. À época, a importância do setor na economia nacional russa pode ser ilustrada pelo fato dele representar 20% do PIB e 64% das receitas de exportação.

Destarte, o uso estratégico das reservas de hidrocarbonetos, pelo governo, é o mecanismo pelo qual se dá recuperação de destaque como player internacional do país. O objetivo do autor, pois, é examinar a situação do setor de petróleo e gás na Rússia, bem como discutir os principais projetos de gasodutos que integram o país ao mercado internacional.

Para Lelli, então, não é apenas um fator econômico que rege a atividade energética russa, por ora. O setor de petróleo passou por uma tentativa de liberalização iniciada em 1991 com a criação de empresas integradas verticalmente. O que se viu a partir de então foi um movimento de concentração do setor, com a fusão de empresas. O que se intensifica desde de 2004 com a tentativa de reaver o controle da empresa Yukos pelo Estado, atraído pela alta rentabilidade do setor. Como resultado o setor passa a ter apenas seis empresas principais.

Já no setor de gás, a Gazprom possui quase a totalidade dos ativos do país, além de exercer o monopólio sobre a rede de gasodutos. O “aparelhamento” da empresa se inicia com a posse de Putin na presidência da Rússia, quando ele inicia mudanças na sua gestão até assumir o controle acionário de fato em 2004. Portanto, a situação do setor de gás é mais dramática, sendo o Estado virtualmente seu único ator.

Como já indicado, o governo Putin é decisivo na estruturação atual do setor energético russo. Logo, Lelli se dedica a análise da “Doutrina Putin”, embasado também em outros autores. Ele coloca que a dissertação de Putin é uma antecipação de sua visão estratégica no governo. Ele mostra que de acordo com Harley Balzer e Martha Brill Olcott a idéia principal da “Doutrina Putin” é que a propriedade dos recursos naturais pelo Estado é decisiva para a recuperação econômica do país. Também, se faria necessário à criação de grandes empresas integradas verticalmente, capazes de competir com as grandes multinacionais ocidentais.

Desse modo, as implicações da reestruturação do setor energético vão além das questões internas da Rússia, tendo reflexos e dando o tom da política externa do país. Os países europeus apresentam grande dependência do fornecimento de energia em relação à Rússia. O que coloca o problema da confiabilidade do país como fornecedor. A busca por diversificação de fornecimento pelos países europeus se dá principalmente a partir das disputas pelo preço do gás, notadamente com a Ucrânia.

A diferenciação do preço pego pelos antigos integrantes da URSS em relação aos demais países e o uso dessa condição como ferramenta de manobra evidencia o uso político dos recursos naturais feito pela Rússia. Para Lelli, todavia, há uma mutua dependência na relação entre a Europa Ocidental e a Rússia, uma vez que é difícil para os países europeus encontrar fornecedores com envergadura suficientemente adequada à sua demanda e, por outro lado, eles constituem o principal mercado da Rússia, que não estaria preparada para desenvolver novos mercados.

Outra ligação importante russa se dá com China e Japão. Nesse caso, a busca de diversificação de fornecedor por ambos países, que visam a alternativas ao instável Oriente Médio, beneficiou os russos. Porém, aí estariam envolvidas questões referentes ao curso dos dutos de transporte, bem como os seus altos custos.

O autor conclui que em um quadro em que a demanda global por energia cresce constantemente, acompanhada por elevações nos preços, os países que possuem grandes reservas contam com decisivas vantagens estratégicas. Entretanto, ele salienta que há que se desenvolver outros setores na economia russa, dado que um país não pode depender apenas de suas riquezas energéticas.

Para tanto, se faz necessário que haja a introdução de maior democracia e liberalismo no setor energético, a fim de que empresas privadas internacionais possam obter espaço no mercado russo, provendo capital, tecnologia e know-how necessários ao país. Logo, o que o ele propõe é uma menor intervenção estatal, uma vez que os objetivos do Estado vão além da busca por rentabilidade. E a falta de democracia, outrossim, inibi o investimento internacional. Pode se esperar, portanto, que a Rússia seja uma economia que se desenvolverá através do uso dos seus recursos naturais.

Autor desta resenha: Felipe Imperiano (graduando de economia do IE/UFRJ – bolsista do PRH21)

Original: Lelli, Edoardo (2008). Black Gold and Blue Gold: The Importance of Energy in the New Power Policy of the Russian Federation. Transition Studies Review,Volume 15, Number 4, 746-758.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s