Grupo de Economia da Energia

Posts Tagged ‘desenvolvimento’

Integração energética na América do Sul: Uma questão geopolítica e de negócios bilaterais?

In energia on 13/04/2015 at 00:15

Por Renato Queiroz

renato042015O tema da integração energética na América do Sul é sempre colocado em destaque em fóruns e congressos sobre economia e energia no continente. No 5º Congresso da Associação Latino Americana de Energia, ALADEE, realizado na cidade de Medellín, Colômbia, no mês de março passado, ocorreram debates sobre o assunto nas sessões plenárias e na concorrencial. O Grupo de Economia da Energia-GEE esteve presente em ambas as sessões.

Nesses debates sempre são levantadas algumas questões tais como: por que a integração energética no continente não deslancha apesar das grandes riquezas minerais e energéticas? Há perspectivas diferentes entre os países sobre a geopolítica da região que inviabilizam o processo de integração? Os vários acordos de cooperação entre os países não favorecem o processo de integração? Com tantos organismos regionais por que há dificuldades para tal? A integração será um resultado de projetos bilaterais?

Como responder a essas questões?

Um ponto que deve ser ressaltado é a falta de um entendimento comum entre alguns estudiosos sobre o papel da energia na economia dos países. Afinal a economia da energia influencia, praticamente, todas as decisões de política econômica. Nesse sentido análises que focam apenas as possibilidades técnicas trazem resultados insuficientes para a visão de um processo de integração regional. É necessário considerar outros componentes: políticos, sociais, culturais, geopolíticos, comerciais e institucionais. Continue lendo »

A maldição dos recursos naturais III: A maldição do petróleo resiste ao boom do preço do petróleo nos anos 2000?

In petróleo on 21/10/2013 at 00:15

Por Luciano Losekann e Thiago Periard

luciano102013Em duas postagens anteriores (*), abordamos a validade da tese de maldição de recursos naturais quando considerados os países ricos em petróleo. Nesta postagem, utilizamos instrumental econométrico mais robusto para identificar a validade da tese para a década de 2000.

A hipótese teórica da chamada maldição dos recursos naturais (MRN) diz que quanto maior a abundância de recursos naturais em determinado país, menor tende a ser o ritmo de desenvolvimento econômico. De maneira mais especifica este argumento é utilizado para relacionar o baixo desempenho econômico dos países ricos em petróleo com a existência de uma maldição do petróleo.

Existem dezenas de modelos dedicados a explorar as diversas facetas da MRN. No entanto, poucos modelos se dedicam a tratar do tema em períodos de análise mais recentes. Esta postagem busca investigar a situação desta “maldição do petróleo” ao longo dos anos 2000. Essa década foi marcada pela situação peculiar de uma valorização dos termos de troca dos produtos básicos, que pode ser verificada pela explosão do preço de diversas commodities, dentre as quais se destaca o boom no preço do petróleo.

MRN ou ciclo de preços?

O período de tempo usualmente considerado para estudar a MRN, décadas de 1980 e 1990, se caracteriza por preços deprimidos das commodities, o que, certamente, impacta negativamente o desempenho econômico dos países intensivos em recursos naturais. Nas, os países ditos emergentes estavam sofrendo a reversão dos ciclos de investimento iniciados nas décadas de 60 e 70. Os anos 80 ficaram conhecidos em diversos países do mundo como a década perdida, e mesmo as economias centrais tiveram que fazer ajustes para romper a estagflação que caracterizou este período. Continue lendo »

A energia do Brasil e seus desafios

In energia on 07/10/2013 at 00:15

Por Edmar de Almeida e Ronaldo Bicalho

edmar102013No livro a Energia do Brasil o professor Antonio Dias Leite descreve e analisa a saga brasileira na construção do seu setor energético. Nessa obra clássica, o professor emérito do Instituto de Economia da UFRJ disseca a maneira como o país soube encontrar a energia necessária para a sustentação do seu desenvolvimento econômico. Desenvolvimento econômico baseado em uma forte industrialização voraz no consumo de energia.

Nessa trajetória, o país construiu um setor energético moderno, vigoroso e sofisticado. Das águas profundas à gestão dos grandes sistemas elétricos continentais, passando pelo enriquecimento de urânio e pelos biocombustíveis, o país conseguiu a energia necessária ao seu crescimento econômico e ao bem estar da sua população.

O novo milênio traz desafios maiores e mais complexos para o setor energético. Mais uma vez é necessário ir em busca da energia do Brasil. Não mais aquela que nos sustentou no século passado; mas aquela que poderá nos sustentar neste século que se inicia.

Os desafios para o setor de energia brasileiro neste século que se inicia são consideravelmente distintos dos já enfrentados até o momento. No século passado a questão central foi a segurança energética e a redução da dependência externa. O Brasil busca agora se tornar um grande exportador de energia, em particular de petróleo. Este objetivo muda de patamar as complexidades e desafios para os setor de energia nacional. A dinâmica do setor energético nacional passa a ter um dimensão internacional. Ou seja, as relações econômicas e políticas que o país desenvolverá no plano internacional terão implicações para o setor energético nacional. Continue lendo »

Desafios do setor de petróleo brasileiro

In petróleo on 05/08/2013 at 00:15

Por Edmar Almeida

edmar082013A expansão da produção de petróleo no Brasil constitui atualmente o principal desafio estratégico para o Brasil. Para viabilizar esta expansão, o país deverá trilhar caminhos perigosos e arriscados. A velocidade que se pretende impor à caminhada não deixa margem para erros. Qualquer pequena barbeiragem pode levar a um acidente grave, dado o risco de se passar direto pelas curvas sinuosas que deverão ser trilhadas.

A descoberta do Pré-sal trouxe o petróleo para o centro da cena política nacional. A expectativa criada na sociedade com o “bilhete premiado” canalizou todos os esforços políticos para a discussão sobre a apropriação e divisão da renda petrolífera. Entretanto, pouca atenção política tem sido dada ao fato de que o projeto de expansão da produção nacional de petróleo dos atuais 2 milhões de barris para mais de 4 milhões em 2020 (que denominaremos neste artigo Projeto Pré-sal) constitui empreitada épica para nosso país; comparada a um esforço de guerra. Isto porque requer uma mobilização de recursos humanos, financeiros, tecnológicos e também políticos numa escala sem precedentes.

Pouca atenção está sendo dada ao fato de que antes de se alcançar o “bilhete premiado” existe um importante período de sacrifícios para a sociedade. A duração deste período dependerá das escolhas e dos acertos da política setorial. O grande risco para o país é o atraso nas metas de crescimento da produção, com a inviabilização do projeto tal como está colocado atualmente.

Analisando-se a questão do ponto de vista macroeconômico, a elevação da produção de petróleo implica num aumento significativo dos investimentos. Estão previstos investimentos de mais de 300 bilhões de dólares no setor de petróleo até 2020. Estes investimentos, por sua vez, contribuirão para a elevação das importações, o que afetará negativamente a balança comercial. Mesmo considerando a manutenção dos atuais níveis de conteúdo local (o que também será um enorme desafio, como veremos adiante), cerca da metade do valor dos investimentos tendem a ser tornarem importações. Continue lendo »

Projeções do Pré-sal: O Brasil será um petro-estado?

In petróleo on 20/05/2013 at 01:05

Por Luciano Losekann e Thiago Periard

luciano052013O Brasil é um dos países que mais desenvolveram sua indústria de petróleo nas décadas recentes no mundo, e é também um dos que têm melhores perspectivas de crescimento para os próximos anos. Esse momento positivo da indústria de óleo e gás nacional teve inicio na década de 1980 com a exploração em águas profundas, que acabou culminando nas descobertas, no final da década de 2000, de grandes reservatórios na chamada camada pré-sal, que devem dar impulso para o setor no longo prazo. As reservas do pré-sal constituem a possibilidade de reversão de uma tendência histórica brasileira de importador de petróleo, já que com estas descobertas se prevê um cenário onde o país irá ter petróleo em quantidade suficiente para se tornar um exportador líquido da mercadoria. No entanto, apesar de toda a euforia criada pela descoberta do pré-sal, ainda não se tem com clareza qual o tamanho de seu impacto econômico para o Brasil.

Esse artigo procura avaliar a importância que a indústria de petróleo terá na economia brasileira no horizonte de 25 anos, utilizando as projeções da Agência Internacional de Energia (AIE) e dados de países que dependem fortemente da produção e exportação de petróleo. A análise indica que o Brasil, apesar do elevado potencial e tamanha euforia com o pré-sal, não se tornará um país dependente de petróleo e os impactos dessa atividade não serão suficientes para alterar de forma drástica a estrutura produtiva brasileira no médio e longo prazo.

A expectativa para a produção brasileira de petróleo nos cenários da AIE é bastante favorável. A produção alcança 4,4 milhões de barris diários em 2020 e 5,2 milhões em 2035, que representa um crescimento médio de 3,6% ao ano ao longo de 25 anos. Como pode ser visto no gráfico 1, o Brasil é, ainda de acordo com a Agência Internacional de Energia, o terceiro maior incremento da produção esperado para o período analisado, ficando atrás apenas do Iraque e Arábia Saudita. Entre os países não-OPEP, o Brasil ainda tem a vantagem deste aumento da oferta ser derivado da produção de petróleo convencional, em contraste com a produção canadense que deve crescer quase tanto quanto a brasileira, mas vindo sobretudo das areias betuminosas de elevado impacto ambiental. Continue lendo »

Energia e Desenvolvimento II: Em busca do Elo Perdido no Setor Elétrico

In energia, energia elétrica on 05/11/2012 at 00:15

Por Edmar de Almeida

No artigo anterior desta série, tentamos colocar em evidência os fatores por detrás do “elo perdido” entre energia e desenvolvimento. Argumentamos que um dos principais fatores foi a dificuldade de encontrar um equilíbrio entre as políticas públicas visando garantir o suprimento energético num contexto de participação do capital privado e as políticas para promover a qualidade e modicidade tarifária.

Esta dificuldade foi mais patente no caso do setor elétrico nacional, que agora passa a ser matéria de políticas para promoção da modicidade tarifária. Após a progressiva liberalização do mercado elétrico na década de 1990, todos os esforços do governo se orientaram para buscar garantir a atratividade para o investimento privado a fim de assegurar novos investimentos e segurança de suprimento.

A privatização do setor de distribuição de eletricidade através da oferta de contratos de concessão atrativos; a oferta de crédito farto pelo BNDES aos investidores privados; as regras de self-dealing para os investimentos na geração por parte das distribuidoras; e o Programa Prioritário de Geração Termelétrica (PPT) lançado em 2000 são exemplos de iniciativas para atrair os investimentos do capital privado para setor elétrico, num contexto de escassez de capital no mercado internacional e instabilidade econômica no país. Continue lendo »

Pré-Sal e Desenvolvimento: a contribuição do pensamento de Antonio Barros de Castro

In energia, petróleo on 27/08/2012 at 00:15

Por Helder Queiroz

Há exatamente um ano, em agosto de 2011, o Brasil perdeu um de seus mais brilhantes economistas. Antonio Barros de Castro foi um dos principais pensadores do desenvolvimento econômico. Desde então, muitos colegas já prestaram o justo reconhecimento da importância de suas reflexões, abordagens e dos textos mais significativos de sua obra.

Castro foi sempre um dos maiores incentivadores dos trabalhos do Grupo de Economia de Energia. Em particular, sempre  nos chamou atenção a sua incrível capacidade de  manejar os fundamentos macroeconômicos e microconômicos das questões de desenvolvimento econômico. Era igualmente notável sua capacidade de identificar e integrar novas abordagens teóricas, como os trabalhos neoschumpeterianos e institucionalistas, aos seus esquemas de análise. Além disso, entendia como poucos o processo de evolução das estruturas industriais. Para tal, ia sempre “a campo”, realizando entrevistas frequentes com atores do meio empresarial, formuladores de política e seus pares acadêmicos.

Castro estava sempre presente em nossos seminários e, nos últimos, nos tornamos privilegiados interlocutores com relação à importância do Pré-Sal para o desenvolvimento econômico e  social brasileiro. A troca de ideias com ele e suas indagações foram de suma importância para o amadurecimento do tema no GEE. Continue lendo »

Energia e desenvolvimento: em busca do elo perdido – 1

In energia on 13/08/2012 at 00:15

Por Edmar de Almeida

Qual deve ser o objetivo da intervenção do Estado no setor de energia do Brasil? É interessante notar que atualmente esta pergunta pode suscitar um grande número de respostas divergentes.

Para uns, o objetivo principal é garantir a sustentabilidade ambiental e uma transição para uma matriz descarbonizada. Para outros, o papel do Estado é velar pelo bom funcionamento do mercado energético de forma a atrair investimentos privados e garantir a segurança do abastecimento. Outros ainda poderiam apontar o objetivo de viabilizar a expansão do setor energético através da exportação de energia, criando renda e empregos no país.

Esta gama de possibilidades representa objetivos que se sobrepõem/coabitam na política energética nacional. Entretanto, a diversidade de objetivos tem contribuído para o enfraquecimento do tradicional elo existente entre o setor energético e o desenvolvimento econômico nacional.

Energia deixou de ser uma vantagem comparativa do Brasil. Os preços da energia no Brasil são comparáveis e muitas vezes mais elevados do que os dos países sem dotação de recursos energéticos. A incontrolável elevação dos custos energéticos no país é o sintoma de que a política energética nacional perdeu sua capacidade de elaborar e implementar uma visão estratégica, em que o setor energético representa uma infraestrutura para a promoção do crescimento e desenvolvimento econômico nacional. Continue lendo »

Maldição dos recursos naturais II: o erro de comparar alhos com bugalhos

In petróleo on 13/02/2012 at 01:00

Por Luciano Losekann e Thiago Periard(*)

Em postagem anterior  discutimos a validade da tese de maldição dos recursos naturais (MRN) para países com abundância de petróleo. Corroborando as conclusões de Warner e Sachs (2001), a análise apontava para um menor crescimento econômico dos países que mais exportam e que detêm as maiores reservas de petróleo. Esse artigo busca avançar nessa análise, utilizando variáveis mais apropriadas para mensurar abundância de petróleo e desenvolvimento econômico. Além disso, optamos por testar a tese de maldição comparando países do mesmo continente, que compartilham de semelhantes condicionantes de desenvolvimento e, assim, separar alhos e bugalhos.

Na literatura sobre MRN, a adequação das variáveis de análise é um ponto de grande debate. O artigo de Warner e Sachs (2001), que é a principal referência de análises quantitativas do problema, utiliza as exportações de recursos naturais como porcentagem do produto Nacional Bruto em 1970 como fator explicativo do crescimento econômico dos países entre 1970 e 1989. No entanto, a concentração da atividade econômica em exportações de recursos naturais é mais um sintoma da maldição do que um indicador direto da abundância de recursos. Assim, essa variável pode ter valores baixos em países ricos em recursos naturais, mas que têm uma economia diversificada. Continue lendo »

A maldição dos recursos naturais

In petróleo on 14/11/2011 at 00:15

Por Luciano Losekann(*) e Thiago Periard do Amaral(**)

1 – Introdução – A associação entre a riqueza mineral de um país e o baixo dinamismo de sua economia foi observada por vários autores, dando origem à tese da maldição dos recursos naturais. Muitas vezes, essa relaçao é verificada em países ricos em petróleo.  Autores internacionalmente reconhecidos, como Moisés Naím (2011) e Daniel Yergin (2011), citam a emergência e consolidação de alguns países em situações classificadas por ambos como Petro-Estados.

O Petro-Estado é a situação crítica onde a abundância de recursos petrolíferos é canalizada para o atendimento de demandas econômicas de grupos específicos dentro de um Estado, gerando assim um situação em que os benefícios trazidos pela renda do petróleo são gozados de forma privada em detrimento do desenvolvimento social da nação produtora.

No estudo aqui apresentado, é testada de forma simplificada a validade da hipótese de menor crescimento econômico de países com abudância de petróleo, utilizando dados recentes.

2 – A tese da maldição dos recursos naturais (MRN)

Desde os anos 50, a abundância em recursos naturais tem sido vista como insuficiente,  até como um entrave, para promover o desenvolvimento econômico. Autores cepalinos como Prebish (1950) e Singer (1950) já discorreram sobre a armadilha em que os grandes produtores de produtos primários se encontram ao se especializarem na produção destes bens básicos deixando de lado as oportunidades e os ganhos de escala e escopo presentes no processo industrializante. Continue lendo »