Grupo de Economia da Energia

Posts Tagged ‘geopolítica’

Implicações geopolíticas do processo de transformação energética: analisando o impacto da demanda por minerais críticos

In energia on 23/09/2021 at 20:51

William A. Clavijo Vitto

A transição energética de baixo carbono está dando lugar a um processo de transformação estrutural sobre os sistemas de produção e consumo de energia, sem precedentes desde a primeira revolução industrial, trazendo consigo diversas implicações de tipo técnico, econômico, social e político que, inevitavelmente, deverão contribuir na reconfiguração da geopolítica dos recursos naturais nos termos em que é entendida hoje.

Embora as rotas tecnológicas que dominarão essa transição ainda não tenham sido totalmente definidas, e, portanto, seja impossível predizer de forma concreta todos seus impactos geopolíticos, algumas tendências que estão sendo observadas no setor permitem discutir sobre mudanças que deverão se acelerar nos próximos anos. Nesse quesito, a difusão das novas fontes de energia renováveis associadas ao paradigma da eletrificação e as perspectivas positivas sobre o aumento na participação destas tecnologias nas matrizes de energia, abrem a porta para a realização de algumas estimativas. 

Apesar de existirem visões otimistas sobre o impacto positivo da introdução das novas renováveis sobre a estabilidade do sistema internacional, a dinâmica das cadeias produtivas por detrás do desenvolvimento dessas opções tecnológicas levanta questões que impedem descartar a geração de novos fatores de tensão entre Estados. Entre essas questões, destaca-se a necessidade de refletir sobre o impacto que a aceleração na difusão dessas fontes de energia trará sobre a demanda por minerais críticos.

À diferença dos combustíveis fósseis, as novas renováveis são intensivas em recursos minerais. A modo de exemplo, a fabricação de carros elétricos demanda seis vezes mais insumos minerais do que carros convencionais. No âmbito das tecnologias de geração, a fabricação de uma usina eólica offshore requer nove vezes mais recursos minerais do que uma planta de geração a gás natural com a mesma capacidade de geração (IEA, 2021). 

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Venezuela na geopolítica do petróleo norte-americana (parte I)

In petróleo on 12/08/2019 at 15:21

Por William A. Clavijo Vitto

william082019Desde janeiro de 2019, o acirramento da situação política na Venezuela explicitou a complexidade de uma crise cujo escopo transcende o espaço nacional. Após a reeleição do Nicolas Maduro numa eleição presidencial questionada pela oposição política e a comunidade internacional, o parlamento venezuelano declarou a Juan Guaidó como presidente interino da República e mais de 50 países procederam a reconhecê-lo como chefe de Estado. Em seguida, esses atores começaram uma nova ronda de pressões com a orientação de propiciar uma transição política através de umas eleições com garantias nesse país.

O governo de Donald Trump, que já tinha imposto sanções individuais contra funcionários do regime chavista, e, em 2017 baniu a possibilidade do Estado venezuelano e da PDVSA renegociarem sua dívida pública ou emitir novos papeis no sistema financeiro norte-americano, finalmente tomou a determinação de proibir a importação de óleo venezuelano. De imediato, a aplicação dessas sanções serviu para levantar as teses centradas nos interesses norte-americanos sobre o petróleo venezuelano, cada vez que são analisadas as relações entre esses países.

Embora seja inegável a importância que o petróleo desempenha nas questões de segurança nacional norte-americana, as condições do contexto internacional atual, incluindo as mudanças estruturais experimentadas pelo mercado petroleiro nas últimas décadas, obrigam a rever as principais ideias que nortearam as discussões de economia política sobre o tema. Nesse sentido, as linhas seguintes serão a primeira parte da análise sobre a importância da Venezuela na geopolítica petroleira norte-americana à luz das novas realidades do mercado petroleiro e do sistema internacional. Continue lendo »

Geopolítica e Vulnerabilidade Energética: papel do GNL para a garantia do abastecimento de gás natural na Europa

In gás natural, GNL on 24/04/2018 at 00:15

Por Helder Queiroz e Enrique Melo Quintslr (*)

helder042018Tal como já destacado em diferentes textos publicados no Blog Infopetro, os principais objetivos de política energética, estabelecidos por diferentes países, se concentram nos seguintes aspectos fortemente interdependentes: primeiro, as preocupações com a segurança de abastecimento, envolvendo a valorização de recursos energéticos nacionais (evidentemente quando há uma dotação natural de recursos) e a universalização do acesso à energia; e segundo, observa-se uma preocupação crescente com as questões inerentes à sustentabilidade ambiental, eficiência energética e novas tecnologias de produção e uso de energia (PINTO JR e alli, 2016).

No que tange à segurança de abastecimento, desde o início do século XXI, esse permanece como um fator dos mais críticos devido às constantes alterações do patamar de preços do petróleo e a persistência da instabilidade geopolítica nas regiões produtoras. Tal aspecto justifica, por um lado, a orientação de políticas apontando a necessidade da diversificação da matriz energética no longo prazo. Por outro, ele envolve escolhas políticas que definem os tipos de fontes utilizadas e as maneiras de obter essas fontes diante da instabilidade e volatilidade de preços dos mercados spot nos mercados de petróleo e, a reboque, dos mercados de gás natural, os quais experimentaram importantes mudanças estruturais decorrente do aumento da produção do shale gas nos EUA. Continue lendo »

Os cinco vídeos mais vistos do Canal GEE em 2015

In energia on 18/01/2016 at 00:15

infopetro012016O Canal GEE coloca à disposição do público interessado no tema energia mais de 130 vídeos originais. Em 2015 foram colocados no ar mais de 50 novos vídeos exclusivos.

O vídeo mais visto nesse ano de 2015 foi o do programa Infopetro no qual foi entrevistado o professor Carlos Frederico Rocha sobre o Pré-sal, a indústria de petróleo brasileira e a operação lava jato.

O segundo vídeo mais visto foi o da apresentação do presidente do IBP, Jorge Camargo, no seminário Caminhos Para a Retomada da Indústria de Petróleo. Continue lendo »

A revolução energética dos Estados Unidos e suas consequências para a geopolítica do petróleo no Oriente Médio

In petróleo on 27/10/2014 at 00:15

Por Juliana Queiroz *

juliana102014Que os Estados Unidos estão vivendo uma revolução energética não é novidade para ninguém. Mas o que permanece uma incógnita é quanto tempo essa abundância de hidrocarbonetos vai durar e quais as consequências dela para a política externa norte-americana.

O ressurgimento da bacia do Atlântico como região produtora – com as revoluções energéticas dos Estados Unidos e Canadá e as descobertas do pré-sal no Brasil – altera o centro de gravidade da produção mundial de petróleo. Os EUA, por exemplo, de acordo com a Agência Internacional de Energia, se tornarão o maior produtor mundial de óleo já em 2015.

Ao mesmo tempo, a demanda se torna mais intensa nos países em desenvolvimento na Ásia, especialmente na China e na Índia. A primeira alcançou, em 2010, o posto de maior consumidor mundial de energia e atingirá, em 2030, a liderança no consumo de petróleo; a segunda intensificará sua demanda a partir de 2025, sendo a principal responsável por impulsionar a demanda energética mundial a partir de então.

Marcado pelo dinamismo e imprevisibilidade, o mercado mundial de energia refletirá essas mudanças através de um rearranjo nas relações entre as nações.

Em função da menor dependência do óleo advindo do Oriente Médio, agora existe um expressivo debate nos Estados Unidos se o país deve manter seus esforços e verbas na garantia da segurança do Golfo Pérsico. Embora muitos agentes políticos e intelectuais defendam que o cordão umbilical deve ser cortado, a questão não é tão simples e não se resume ao aspecto econômico/energético.

Manter-se comprometido e engajado no Oriente Médio cumprindo o papel de hegemon do Sistema garante um controle, ainda que indireto, sobre as vastas reservas convencionais – e portanto baratas – da região. Influenciar o acesso a esses hidrocarbonetos tem altíssima relevância estratégica, considerando a dependência energética da sociedade global atual. Continue lendo »

Os novos desafios do mercado internacional de gás natural para a política energética Russa

In gás natural, GNL on 17/06/2013 at 00:15

Por Renato Queiroz e Felipe Imperiano

renato062013O ambiente econômico e energético mundial sofreu grandes transformações a partir do ano de 2008: primeiro, em virtude da crise econômica deflagrada nesse ano; segundo, em razão da expansão da produção de gás natural em formações geológicas não convencionais nos EUA e da crise nuclear japonesa. Devido a isso, a Rússia, como um dos maiores exportadores mundiais de energia, se defronta com novos desafios em função da perspectiva dos EUA se tornarem exportadores de GNL, somado ao decréscimo do consumo de gás na Europa, seu principal mercado consumidor. Em contraposição a esse cenário restritivo no Ocidente, há importantes oportunidades de comércio na região da Ásia-Pacífico com um aumento significativo da demanda energética em países como China, Coréia do Sul, Índia e Japão.

Este artigo busca apresentar questões recentes do mercado internacional de gás natural que trazem desafios à política energética russa. O texto está dividido em três seções. Inicialmente aborda-se o mercado europeu. Em seguida analisa-se o mercado asiático. Essa divisão não só marca um corte espacial desses mercados, como, principalmente, ressalta diferentes dinâmicas econômicas que têm resultados distintos sobre o mercado internacional de gás natural. Por último, na seção conclusiva focam-se as questões que rebatem nas estratégias da política energética da Rússia.

O mercado europeu

O aumento da produção de gás natural nos EUA, através da exploração de reservatórios não convencionais, gerou um diferencial significativo de preços entre o mercado americano e as demais regiões consumidoras no mundo. Conforme o preço do gás produzido internamente caiu e se tornou mais competitivo, o seu consumo aumentou, deslocando outras fontes, como o carvão, os derivados do petróleo e até mesmo a fonte nuclear[i]. O Gráfico 1, abaixo, ilustra a evolução da produção de energia elétrica americana por fonte. Enquanto a geração de energia elétrica por carvão diminuiu 23,1%, entre 2003 e 2012, a geração a gás cresceu 89,4%, no mesmo período. O consumo total de carvão nos EUA, no ano passado, foi 20,5% menor do que em 2008, quando o preço médio do gás natural no Henry Hub atingiu seu pico histórico de US$ 8,85 (BP, 2013). Continue lendo »

A produção iraquiana de hidrocarbonetos e as suas perspectivas de expansão

In gás natural, petróleo on 13/05/2013 at 00:15

Por Felipe Imperiano

imperiano052013O Iraque, historicamente, é um player importante na indústria mundial de petróleo. Ele foi membro fundador da OPEP e um dos primeiros a nacionalizar suas reservas, em 1961. Adicionalmente, a sua política de exportação de petróleo foi, por mais de 30 anos, elemento chave na formação do preço e oferta mundiais.

O país tem a quinta maior reserva provada de petróleo e a décima terceira de gás natural e bom potencial para novas descobertas (IEA, 2012). Especialistas estimam que, com a retomada dos investimentos, as reservas provadas iraquianas poderiam rapidamente atingir cerca de 200 bilhões de barris[i]. Só em 2011, as reservas provadas de petróleo e gás cresceram respectivamente 24,4% e 13,1% (BP, 2012). Isso marca um contraponto com as décadas de 1990 e 2000, como pode ser visto no Gráfico 1, quando as reservas provadas de petróleo e gás se mantiveram relativamente estáveis em virtude de baixos investimentos, conflitos armados e sanções econômicas. 

Gráfico 1: Reservas provadas de petróleo e gás iraquianas entre 1980 e 2011

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Fonte: Elaboração própria a partir dos dados da (BP, 2012)

Todas as reservas iraquianas são onshore. Comparado com outras regiões produtoras mundiais, a geologia iraquiana é relativamente simples e seus custos são bem inferiores, o que traz grandes economias de escala para a produção no país (IEA, 2012). O CAPEX de um projeto de desenvolvimento de um novo super campo no Iraque é entre 81% e 86% menor do que o de um campo no Pré-Sal, enquanto o OPEX pode ser até 100% inferior, por exemplo (IEA, 2012). Continue lendo »

Observatório de geopolítica da energia II: o jogo do gás natural entre Europa e Rússia

In gás natural on 19/03/2012 at 00:15

Por Renato Queiroz e Felipe Imperiano

O acesso  a recursos que revertam em  segurança energética  constitui-se em tema relevante nas pautas de política externa dos países. A concentração espacial de recursos naturais estratégicos para o desenvolvimento das nações e garantidores do nível de bem-estar de seus cidadãos tem consequências profundas no delineamento das políticas energéticas das nações. O uso de ativos energéticos como ferramenta de defesa de interesses políticos e econômicos não é algo novo no cenário internacional.

Um bom exemplo que se tornou emblemático para os estudiosos em geopolítica energética é a situação de dependência da Europa em relação ao  gás russo e, em contrapartida, como o gás natural é estratégico para o desenvolvimento econômico da Rússia. O Estado russo sempre se valeu de suas enormes reservas de óleo e gás. O país tem a sétima maior reserva de petróleo do mundo e a maior reserva de gás natural, isto é, 24% do total.  Em 2010 a Rússia foi ao mesmo tempo maior produtor de gás natural, alcançando a cifra de 637 bcm (bilhões de metros cúbicos), isto é, 19,4% do total produzido mundialmente, sendo ao mesmo tempo o número um em exportações (IEA, 2011). Continue lendo »

A independência energética americana

In energia on 30/01/2012 at 00:14

Por Ronaldo Bicalho

Em um curto período de uma semana, no final de Outubro do ano passado, três grandes jornais anunciaram que os Estados Unidos estavam a um passo de alcançar a sua independência energética.

Se no New York Times as novas tecnologias redesenhavam o quadro energético mundial, no Washington Post nascia uma nova ordem petrolífera mundial, enquanto que no Financial Times o pendulo energético mudava o seu curso e passava a apontar na direção da independência petrolífera americana.

Por trás das boas novas encontravam-se os avanços na produção de petróleo e gás não convencionais – das areias betuminosas do Canadá à revolução mundial do shale gás – e na exploração offshore em águas profundas – do Golfo do México às costas brasileiras e africanas – que colocavam à disposição do ocidente um volume significativo de hidrocarbonetos que redesenharia completamente o mapa energético mundial; em detrimento do oriente médio, que perderia a sua relevância no suprimento da energia ocidental. Continue lendo »