Grupo de Economia da Energia

Bioeconomia em construção 21 – Bioeconomia: oportunidades para a agenda de inovação no Brasil

In biocombustíveis on 10/05/2021 at 13:56

José Vitor Bomtempo, Daniella Fartes e Gustavo Soares

A questão de uma agenda de inovação para a bioeconomia no Brasil é um tema recorrente nesta série. O tema foi abordado diretamente nas postagens Existe uma agenda de inovação para a bioeconomia no Brasil? e A importância (e a urgência) de se criar uma agenda de inovação para a bioeconomia no Brasil, publicadas em 2015. Por que voltar a ele? Em primeiro lugar, as discussões em torno da bioeconomia têm crescido notavelmente no país. O termo bioeconomia já apareceu 192 vezes no jornal Estado de São Paulo, mas 130 referências foram no último ano. Deve ser destacado também que a agenda da sustentabilidade, à qual a bioeconomia está fortemente ligada, é vista como parte inerente da economia pós-covid. Os movimentos dos investidores, por exemplo a agenda ESG, e as metas de descarbonização de países e empresas reforçam o espaço das oportunidades da bioeconomia. No caso brasileiro, ao lado do enorme potencial de aproveitamento e valorização das nossas biomassas, crescem as discussões e projetos em torno da valorização/preservação da nossa sociobiodiversidade. As inúmeras iniciativas em torno da bioeconomia na Amazônia ilustram bem esse ponto. Teria chegado o momento de termos finalmente uma agenda de inovação para a bioeconomia no Brasil? Esperamos que sim. Muitos desafios se colocam no caminho da construção dessa agenda e das políticas e estratégias que dela devem resultar. Esta postagem é uma contribuição para recolocar e atualizar a questão.

Toma-se como ponto de partida a consideração da bioeconomia como uma oportunidade de grande importância para o desenvolvimento sustentável do Brasil, contribuindo para responder aos desafios econômicos, sociais e ambientais que se colocam para as próximas décadas. Revemos inicialmente a definição de bioeconomia e apresentamos uma visão das oportunidades existentes. A exploração dessas oportunidades, ainda não estruturadas, demanda um conjunto complexo de inovações tecnológicas e não tecnológicas. Quais as capacidades demandadas pela bioeconomia? Algumas iniciativas de abordagem dos problemas para o desenvolvimento da agenda em bioeconomia estão em curso. Ilustra-se aqui com as iniciativas do MCTI/CGEE, da Concertação pela Amazônia e do Instituto Senai de Inovação (ISI Biossintéticos).

O que é bioeconomia?

Certamente é difícil encontrar uma definição consensual de bioeconomia. Uma revisão e discussão das definições e das diferentes visões da bioeconomia pode ser encontrada, por exemplo, em Bugge, Hansen and Klitkou, 2016. Para efeito da discussão de uma agenda de inovação, pode-se estabelecer que a bioeconomia envolve pelo menos 5 pontos:

  • Recursos biológicos renováveis (biomassas e outros)
  • Tratamento e conversão desses recursos
  • E dos rejeitos/resíduos dessa conversão (Bioeconomia Circular), em…
  • Produtos de valor
  • de forma inovadora e sustentável.

Que oportunidades oferece a bioeconomia?

As oportunidades em bioeconomia podem ser vistas de duas perspectivas complementares: perspectiva dos mercados internos e externos, e perspectiva da valorização dos recursos biológicos existentes. Existem demandas importantes em bioenergia, principalmente em biocombustíveis avançados para aviação e marítimo (IEA, 2017). Um movimento recente interessante é o da conversão e adaptação de refinarias de petróleo para a produção do chamado diesel renovável. Os bioplásticos, que hoje representam apenas 1% do mercado mundial, apresentam taxas de crescimento projetadas para o período 2020/2025 da ordem de 8% aa, mais de duas vezes maior que o crescimento dos plásticos de base fóssil (Nova Institute, 2021). A indústria química europeia tem metas de atingir 25% de conteúdo renovável em 2030 (Roadmap for the Chemical Industry in Europe towards a Bioeconomy, 2019). Segundo Golden and Handfield (2014), existe um potencial de substituição de 65% dos produtos químicos, principalmente especialidades como surfactantes, dispersantes, aditivos, ingredientes para cosméticos, para nutrição, nutracêuticos e cosmocêuticos. Um movimento recente que tem gerado numerosas iniciativas e investimentos é o das proteínas alternativas, plant-based proteins. Há projeções de crescimento nos próximos anos para atingir cerca de 10% do mercado global de proteínas, estimado hoje em US$1,4 trilhões. A produção de biohidrogênio tem sido muito discutida no último ano como uma oportunidade de grande futuro, existindo programas ambiciosos de produção e utilização como o da Alemanha.

Uma outra perspectiva é, partindo dos recursos disponíveis, explorar as oportunidades de valorização desses recursos. Nesse ponto, consideram-se tanto os recursos derivados de culturas estabelecidas como cana, soja, milho, floresta plantada, quanto os recursos da biodiversidade e de biomassas ainda não estabelecidas como babaçu, açaí, cacau, castanhas, macaúba, incluindo ainda recursos genéticos e químicos.

O cruzamento dessas duas perspectivas gera um conjunto amplo de possibilidades que desafiam a nossa capacidade para identificar, caracterizar e dar forma a cada uma dessas oportunidades. Algumas perguntas que merecem ser melhor investigadas podem ser colocadas:

  • Como desenvolver as cadeias produtivas?
  • Quais as oportunidades de criação de valor nas cadeias produtivas?
  • Como os ecossistemas de inovação devem ser desenvolvidos?
  • Como as biorrefinarias podem ser estruturadas nos diferentes ecossistemas de inovação?
  • Quais são os principais gargalos tecnológicos e não tecnológicos?
  • Sob a ótica da oferta, que oportunidades fazem sentido a partir dos recursos existentes?
  • Que demandas existentes e futuras, locais e externas às regiões, podem ser atendidas através do desenvolvimento desses novos negócios?

A elaboração em torno dessas questões deveria ser capaz de identificar o potencial de valorização dos recursos e o potencial para o desenvolvimento regional/local da bioeconomia assim como os desafios – investimentos, recursos humanos, inovações sociais e tecnológicas, acesso às tecnologias e aos mercados – a serem enfrentados na construção da bioeconomia. Para construir uma agenda de inovação tendo em vista a complexidade dessas oportunidades, cabe então refletir sobre a natureza das capacidades que devem ser construídas.

As capacidades tecnológicas em bioeconomia

Numa pesquisa em andamento para a tese de doutorado de Gustavo Soares, um dos autores desta postagem, esse problema é explorado a partir das noções de catching-up e de path-creating (Lee e Lim, 2001; Figueiredo e Cohen, 2019). Path-creating é entendido aqui como o processo único de acumulação de capacidades tecnológicas, que se desenvolve a partir dos esforços internos de construção de conhecimentos e outros recursos necessários para inovar.

Perez e Soete (1988) consideram que, em situações de quebra de paradigmas tecnológicos, surgem janelas de oportunidades que, para serem exploradas, precisam contar com esforços de inovação desde o princípio da nova trajetória (path-creating). Para os autores, essas quebras são oportunidades para os países em desenvolvimento desenvolverem capacidades inovativas uma vez que não há a concorrência com países avançados. A exploração dos recursos naturais, como as biomassas, abre caminhos para o desenvolvimento de novos setores intensivos em conhecimentos, tecnologias e inovação.

Figueiredo (2010), Kuramoto (2016) e Figueiredo e Cohen (2019) afirmam que utilização de biomassa tem especificidades que tendem a exigir criação de novos caminhos de capacitação tecnológica para atingir o estágio de fronteira da inovação. Quer dizer, para o desenvolvimento de setores que processem recursos biológicos, estratégias de catching-up não são capazes de superar todos os desafios e, portanto, estratégias de path-creating são necessárias. Esse foi o caso dos setores brasileiros de papel e celulose e de etanol.

Gustavo Soares propõe um quadro de capacidades em matérias-primas, tecnologias e produtos a serem construídas nos níveis básico, intermediário e avançado de inovação em bioeconomia. Essa grade foi construída com base na literatura e está sendo validada e revista por meio de entrevistas com atores representativos dos diversos segmentos envolvidos com a bioeconomia: institutos de pesquisa e universidades, empresas, associações empresariais, agências governamentais.

Para o caso brasileiro, com base na análise inicial da pesquisa, pode-se identificar um conjunto de capacidades bem estabelecidas na oferta de biomassa. Porém, para uma bioeconomia avançada, são requeridas capacidades que compreendem a diversidade de novas fontes de matérias-primas e que facilitem a interação entre agentes de segmentos ainda dispersos. É ainda indispensável a incorporação de biotecnologia de ponta. Ou seja, para a bioeconomia no Brasil, alguns esforços para a incorporação de tecnologias de ponta, requerem estratégias de catching-up. Todavia, a exploração das oportunidades das biomassas e a construção de novas cadeias só serão possíveis com estratégias de path-creating.

Iniciativas em curso

A título ilustrativo, com o objetivo de indicar a movimentação dos stakeholders da bioeconomia na busca de uma estruturação da agenda de inovação e investimentos, 3 iniciativas podem ser mencionadas: o projeto ODBio do MCTI/CGEE, a Concertação pela Amazônia e a Rede Brasileira de Bioeconomia Sustentável, RBB, que está sendo proposta pelo Instituto Senai de Inovação em Biossintéticos e Fibras. A escolha dessas iniciativas é meramente ilustrativa, sem qualquer julgamento de importância em relação a outras iniciativas conhecidas.

Essas iniciativas estão em estágios diferentes de desenvolvimento, mobilizam diferentes stakeholders, utilizando diferentes abordagens, mas têm em comum o esforço de criação de bases para o desenvolvimento da agenda de bioeconomia.

O projeto Oportunidades e Desafios da Bioeconomia (ODBio) é uma iniciativa do MCTI que vem sendo conduzida com o apoio do CGEE. O projeto realizou recentemente uma série de oficinas em que a proposta de estruturação das políticas de Ciência, Tecnologia e Inovação para a bioeconomia foi apresentada. A proposta tem como framework a metodologia de “Projetos orientados por missão”. Nessa linha, o ODBio trabalhou, em 3 oficinas, a identificação do desafio a ser colocado para a bioeconomia, da missão ampla e das missões específicas almejadas, dos temas de cada missão e iniciativas estratégicas a serem empreendidas Além do eixo que discute a estratégia de CTI para a bioeconomia nacional, o ODBio ainda possui outros 2 eixos focados no desenvolvimento de um modelo de governança para a bioeconomia e a proposta de criação de um knowledge-hub em bioeconomia.

A Concertação pela Amazônia parte da ideia de que as múltiplas iniciativas voltadas para a questão da Amazônia estariam de certa forma dispersas e pouco articuladas. Assim, o objetivo central é buscar uma crescente articulação entre os diversos grupos, envolvendo empresas, investidores, academia, governos, institutos e organizações não governamentais. No que se refere à bioeconomia, é interessante registrar o framework recentemente divulgado pelo GT Bioeconomia da Concertação. Esse framework distingue 3 bioeconomias na Amazônia:

  • Bioeconomia “tradicional” (baseada na biodiversidade)
  • Bioeconomia florestal (baseada em manejo florestal)
  • Bioeconomia de commodities (baseada em produção intensiva)

As 3 bioeconomias se distinguem quanto a: grau de antropização, volume de produção, relações com a biodiversidade, relação com mudança do clima, alocação de capital, modelos de negócio, barreiras imediatas e ações para incentivo dos negócios.

Rede Brasileira de Bioeconomia Sustentável, RBB, é uma iniciativa, ainda em lançamento, a partir de uma proposta elaborada pelo Instituto Senai de Inovação em Biossintéticos e Fibras, A rede tem inspiração em algumas experiências internacionais consolidadas e consideradas bem sucedidas, na Europa e EUA. O objetivo é reunir, por meio de um portal, empresas, ICTs (universidades e centros de pesquisa), agências de fomento, associações setoriais e governos, de modo a facilitar interações e iniciativas. A rede pretende contribuir para desenvolver um ecossistema de inovação que integre o acesso a recursos, a informações e competências tecnológicas estratégicas para o avanço da bioeconomia no país.

Temas para a agenda de inovação em bioeconomia

Não cabe aqui apresentar sugestões de políticas para uma agenda de inovação em bioeconomia. O intuito é o de situar a discussão dessa agenda e mostrar como ela vem sendo construída. Embora faltem passos importantes para a concretização de uma política nacional de bioeconomia, é inegável que a reflexão sobre o tema vem ganhando a atenção crescente de atores importantes do sistema de inovação.

Numa abordagem preliminar, apenas para alimentar um primeiro debate, pode-se examinar alguns aspectos-chave dessa agenda em construção, tendo em vista as funções de um sistema tecnológico de inovação identificadas na abordagem TIS (Bergek, 2019, Hekkert and Negro, 2009). Ficam aqui algumas perguntas que a agenda de inovação em bioeconomia deve ser capaz de responder.

 Em que estágio se encontram em relação à bioeconomia as funções de

  1. desenvolvimento do conhecimento?
  2. difusão do conhecimento?
  3. experimentação empreendedora?
  4. orientação da pesquisa?
  5. formação de mercado?
  6. legitimação? 
  7. mobilização de recursos?
  8. desenvolvimento de externalidades positivas?

Nessa perspectiva, o desenvolvimento do sistema tecnológico de inovação em bioeconomia no Brasil tem o desafio de criar uma agenda que busque a construção equilibrada de respostas a esses pontos.

 Obs: Uma versão desta postagem foi submetida ao Encontro Nacional de Economia Industrial e Inovação – V ENEI – como contribuição para a sessão plenária Agenda da Inovação.

Leia outros textos de José Vitor Bomtempo no Blog Infopetro

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