Grupo de Economia da Energia

Posts Tagged ‘bioeconomia’

Bioeconomia em construção XII – Bioeconomia no Brasil: explorando questões-chave para uma estratégia nacional

In biocombustíveis on 10/07/2017 at 10:30

Por José Vitor Bomtempo, Flavia Alves e Fábio Oroski*

Durante 5 semanas, em maio e junho, o nosso Grupo de Estudos em Bioeconomia, em parceria com a ABBI – Associação Brasileira de Biotecnologia Industrial e com a CNI – Confederação Nacional da Indústria, realizou, em São Paulo, a segunda edição do nosso programa de capacitação em Bioeconomia. O programa, denominado Mini MBA em Bioeconomia e Inovação, foi desenvolvido com o objetivo de apresentar e discutir, na perspectiva da bioeconomia, a dinâmica tecnológica e de inovação que envolve a formação e o desenvolvimento das indústrias baseadas em recursos biológicos renováveis.

A perspectiva adotada nas sessões foi de buscar sempre uma visão global da bioeconomia. Na linha das discussões que têm sido conduzidas neste blog, partiu-se da premissa de que a indústria biobased é uma indústria emergente e explorou-se como eixo de todas as discussões o processo de estruturação da indústria. Esse processo, na nossa visão, se articula em torno de quatro dimensões: matérias-primas, tecnologias, produtos e modelos de negócios. Essas dimensões co-evoluem dentro de um macroambiente – a paisagem sócio-técnica – que envolve as políticas, regulações e tendências da sociedade. Continue lendo »

Bioeconomia em construção XI – O desafio de desenhar políticas para o desenvolvimento da bioeconomia no Brasil: quais as dimensões chave?

In biocombustíveis on 04/04/2017 at 12:27

Por José Vitor Bomtempo

untitledMovimentos recentes parecem colocar, finalmente, a bioeconomia no centro das discussões no Brasil. O MCTIC está conduzindo um grupo de trabalho que busca definir uma agenda de iniciativas para o desenvolvimento da bioeconomia no Brasil. O SEBRAE também está construindo, no âmbito dos pequenos negócios, a definição de um termo de referência para orientar a sua atuação na bioeconomia.

No cenário internacional, sob a coordenação do Brasil, foi lançada na COP22, em Marrakesh, em dezembro do ano passado, a plataforma biofuturo. Essa plataforma reúne 20 países, entre eles Brasil, EUA, China, Índia, Canadá, França e Itália, que pretendem criar e desenvolver um espaço de cooperação internacional para o desenvolvimento da bioeconomia. O documento de lançamento da plataforma assume a noção de bioeconomia como norte e busca um futuro sustentável para a produção de energia, combustíveis, químicos, materiais e outros produtos que possam valorizar a exploração dos recursos renováveis.

Nesta postagem reafirmamos o interesse da bioeconomia como um espaço privilegiado para a inserção competitiva do Brasil no cenário internacional e, revendo a literatura recente, lançamos um olhar inicial sobre as dimensões chave que as políticas para o desenvolvimento da bioeconomia devem considerar. Continue lendo »

Por que as primeiras plantas comerciais de etanol 2G são quase experimentais?

In biocombustíveis, etanol on 19/10/2016 at 12:14

Por José Vitor Bomtempo e Gustavo Soares (*)

vitor102016Numa postagem anterior, “A chegada do etanol 2G, um passo importante para a inovação em bioeconomia”, destacamos o início de operação das primeiras plantas comerciais. Quase 2 anos depois, essa primeira geração de plantas ainda enfrenta dificuldades operacionais importantes. Tem sido difícil para os pioneiros estabilizar a produção e operar regularmente.

Nesta postagem, examinamos essa situação e tentamos entender porque as primeiras plantas comerciais de etanol 2G são quase experimentais. Achamos que uma clara compreensão do problema é importante em diversos aspectos. Permite que as estratégias tecnológicas das empresas e as políticas públicas de financiamento à inovação se alinhem. Além disso, do ponto de vista da construção da bioeconomia, pode nos ajudar a entender a complexidade do projeto de utilização da biomassa como matéria-prima para a produção de bioenergia, bioprodutos e materiais.

Este texto discute, com base nos princípios da economia da inovação, a natureza dos problemas enfrentados pelas primeiras plantas comerciais da chamada nova indústria biobased e em particular examina o caso do etanol 2G. O argumento desenvolvido traz como conclusão a visão de que, em alguns casos, as primeiras plantas em indústrias emergentes devem ser vistas como um estágio avançado do próprio processo de desenvolvimento. Assim, a primeira geração das plantas de etanol 2G, inauguradas nos últimos três anos, são efetivamente estágios experimentais que exigem ainda esforços específicos de P&D para atingirem estágios operacionais regulares. Continue lendo »

Bioeconomia em construção IX – Os desafios da bioeconomia no Brasil: explorando algumas questões-chave

In biocombustíveis on 11/07/2016 at 00:15

Por José Vitor Bomtempo, Flavia Alves e Fábio Oroski

vitor072016Matérias-primas no Brasil: foco nas culturas tradicionais ou diversificação de fontes?  Como montar um portfólio de bioprodutos? Qual o papel dos produtores de biocombustíveis no desenvolvimento da bioeconomia? E o papel das startups e empresas estabelecidas? As políticas de demanda de biocombustíveis podem e devem ser estendidas para bioprodutos e bioplásticos? O Brasil precisa de uma estratégia estruturada em bioeconomia? São muitas e complexas questões que exigiriam mais do que uma postagem para discuti-las com alguma profundidade. Mas achamos que vale colocá-las como pontos de reflexão.

Nas últimas semanas, o nosso Grupo de Estudos em Bioeconomia realizou a primeira edição de um programa de capacitação em Bioeconomia e Inovação. O programa teve 40 horas de duração e foi desenvolvido com o objetivo de apresentar e discutir, na perspectiva da bioeconomia, a dinâmica tecnológica e de inovação que envolve a formação da indústria baseada em matérias-primas renováveis. Procuramos identificar os atores-chave envolvidos na bioeconomia e discutir suas estratégias e políticas. A perspectiva adotada nas sessões foi de buscar sempre uma visão global da bioeconomia. Ao final, foi feito um exercício de trazer algumas questões para o âmbito brasileiro e colocá-las em discussão com os participantes. Essa discussão ilustra de certa forma os desafios que se colocam para o desenvolvimento da bioeconomia no país. Continue lendo »

Bioeconomia em construção VIII – O potencial inovador das trajetórias baseadas em recursos naturais: a vida fora do high tech

In biocombustíveis on 11/04/2016 at 00:15

Por José Vitor Bomtempo

vitor042016

A bioeconomia envolve o uso de recursos biológicos renováveis que são convertidos em energia, produtos e materiais. O uso de matérias-primas renováveis, de biomassa de diversas origens, tem para a construção dos diversos setores da bioeconomia uma importância fundamental. É o caso, por exemplo, dos segmentos de bioenergia, produtos químicos e materiais derivados da biomassa, a chamada biobased industry.

A posição brasileira na produção desses recursos – cana de açúcar, culturas agrícolas, florestas para papel e celulose – gera uma oportunidade de aproveitamento desses insumos para a construção de uma forte indústria biobased. Mas qual o potencial inovador dessa trajetória baseada em recursos renováveis? O discurso da capacitação tecnológica e inovadora é frequentemente reticente em relação às trajetórias baseadas em recursos naturais. A capacitação inovadora dos países emergentes costuma ser vista como um esforço de alcance do nível de capacitação dos países desenvolvidos nos segmentos dinâmicos da indústria. É o famoso processo catching-up que nas últimas décadas tem o exemplo coreano como o case exemplar. Trajetórias baseadas em recursos naturais seriam então a princípio limitadas para a geração de capacitação inovadora de ponta para o país. Continue lendo »

Bioeconomia em construção VII – Por que as oportunidades de inovação no setor sucroenergético não são exploradas?

In biocombustíveis on 09/11/2015 at 00:15

Por José Vitor Bomtempo, Daniella Fartes e Flávia Alves

vitor112015Na construção da bioeconomia, a capacidade de inovação está no centro das políticas e estratégias. Nas postagens anteriores desta série, discutimos diversas vezes a definição de uma agenda de inovação para a bioeconomia no Brasil, destacando a importância das políticas e das iniciativas estratégicas de uma variedade de atores. Uma conclusão central da nossa visão tem sido que a agenda dos biocombustíveis deve evoluir na direção de incorporar uma lógica de bioeconomia e não se ater apenas a uma lógica ligada ao mercado de combustíveis. Não que essa lógica seja mais simples ou menos desafiadora. Mas a construção da economia biobased que está em curso exige a incorporação de conceitos econômicos, ambientais e sociais que só podem ser atingidos com agendas mais integradoras como as pretendidas pela bioeconomia.

Nesse processo de construção da bioeconomia, como o setor sucroenergético brasileiro, que se tornou uma referência mundial em biocombustíveis, tem visto as suas próprias oportunidades de inovação? Os produtores e os agentes do sistema de produção e inovação sucroenergético reconhecem essas oportunidades? Que dificuldades identificam para explorá-las? Faltam conhecimento e tecnologia? Ou a limitação decorre de um ambiente institucional pouco propício às iniciativas de inovação?

Explorando essas questões, foi defendida recentemente na Escola de Química da UFRJ uma dissertação de mestrado:  Oportunidades de Inovação no Setor Sucroenergético. A dissertação é o resultado da pesquisa de mestrado de Daniella Fartes realizada sob a orientação de José Vitor Bomtempo e Flávia Alves. Discutimos nesta postagem os principais resultados do trabalho. Continue lendo »

Bioeconomia em construção VI – A importância (e a urgência) de se criar uma agenda de inovação para a bioeconomia no Brasil

In biocombustíveis on 24/08/2015 at 00:15

Por José Vitor Bomtempo

vitor082015O post anterior desta série foi desenvolvido em torno de uma pergunta: Existe uma agenda de inovação para bioeconomia no Brasil? A resposta foi negativa. Existem estudos e diagnósticos interessantes, existem programas originais em execução, mas não existe uma visão integrada e articulada voltada para a bioeconomia como é o caso de outros países e regiões importantes do mundo. Os programas, estudos e diagnósticos brasileiros tendem a se dirigir a um dos aspectos da questão, mas sempre de forma isolada, às vezes compartimentada, e desconsiderando o conjunto dos desafios e oportunidades da bioeconomia: cana de açúcar, mas não recursos florestais, resíduos urbanos e outras culturas e resíduos; biocombustíveis, mas não bioprodutos; químicos renováveis, mas não biocombustíveis. Isso sem falar nas inter-relações com a produção de alimentos, com a questão ambiental e com a economia circular.

A iniciativa mais importante, até agora, em torno do conceito de bioeconomia foi, a nosso conhecimento, a da CNI/MEI (Mobilização Empresarial pela Inovação) que realizou três fóruns importantes em 2012, 2013 e 2014, buscando construir uma proposta para o setor. Como resultado, foi elaborado um documento: Bioeconomia, oportunidades, obstáculos e agenda como sugestão ao debate por ocasião das eleições de 2014. A iniciativa é elogiável e deveria ser ampliada com o envolvimento mais abrangente de interlocutores. A agenda de desenvolvimento da bioeconomia para o Brasil identifica três dimensões básicas: biotecnologia industrial, setor primário e saúde humana. Propõe que o Estado priorize ações que possam se constituir como uma plataforma única. Essa plataforma, conjugada com ações específicas para cada área, poderá gerar, segundo a CNI, importantes resultados científicos, tecnológicos e empresariais, traduzidos em benefícios sociais, econômicos e ambientais para o país. O documento é um excelente ponto de partida e deve ser colocado na perspectiva das discussões e iniciativas que se multiplicam atualmente. Continue lendo »

Bioeconomia em construção V – Existe uma agenda de inovação para a bioeconomia no Brasil?

In biocombustíveis on 01/06/2015 at 00:15

Por José Vitor Bomtempo e Flávia Alves

vitor062015No primeiro post desta série caracterizamos a bioeconomia como uma indústria em construção que envolve o uso dos recursos biológicos, vegetais e animais, de forma integrada e fortemente relacionada às atividades de produção e consumo de energia, produtos químicos e materiais, mas também alimentos, tanto para uso humano quanto animal. A bioeconomia tem portanto uma amplitude econômica, social e ambiental bem mais larga do que a produção de biocombustíveis e bioprodutos derivados da biomassa.

Essa visão tem se estabelecido e vem sendo discutida e adotada, com interpretações às vezes variadas, nos principais países e regiões. Na Europa, por exemplo, a Bioeconomy Stakeholders Conference, realizada em outubro de 2014, ilustra bem esse esforço de levar em conta os múltiplos interesses e variáveis envolvidos na construção da bioeconomia. O tema central do evento é ilustrativo: “From sectors to system, from concept to reality”. Todas as discussões e apresentações da conferência estão disponíveis aqui.

No detalhado e abrangente relatório Bioenergy and Sustainability: bridging the gaps, coordenado pelo BIOEN/FAPESP e recentemente divulgado, a perspectiva da bioeconomia é destacada e revista no capítulo 20 do trabalho. Na visão do relatório, que envolveu a contribuição de 137 especialistas, a bioeconomia é uma indústria promissora, mas ainda emergente e por isso necessita de políticas que estimulem seu desenvolvimento. O relatório defende ainda que mudanças tecnológicas capazes de reduzir custos e viabilizar a utilização integral da biomassa para alimentos, rações, energia, materiais e químicos são necessárias para aumentar a competitividade da nova indústria. No campo das tecnologias, o desenvolvimento de rotas mais eficientes de conversão da biomassa, em particular as que convertem os materiais lignocelulósicos em combustíveis, químicos e materiais é crítico para proporcionar a transição para uma indústria biobased competitiva. Continue lendo »

Bioeconomia em construção IV – Os novos produtos-plataforma

In biocombustíveis on 09/03/2015 at 00:15

Por José Vitor Bomtempo

vitor032015Desde que a indústria baseada em biomassa começou a identificar que as oportunidades mais interessantes e promissoras não se encontravam necessariamente ou exclusivamente nos biocombustíveis, mas em bioprodutos e biomateriais, surgiu uma pergunta chave: quais os “melhores” produtos que deveriam ser explorados a partir da biomassa ou dos açúcares? Num primeiro momento, algumas propostas adotaram a ideia de que produtos drop in deveriam ser o alvo da indústria. A receptividade que o PE verde da Braskem teve ao ser lançado, há cerca de quatro anos, é o fato marcante dessa estratégia de inovação. O dilema drop in ou não drop in vem sendo uma das incertezas na construção da bioeconomia. Algumas dimensões desse dilema estão discutidas no artigo Bioplastics tipping point: drop in or non drop in? (Oroski, Bomtempo, Alves, 2014).

Mas nos últimos anos começou a ganhar espaço uma visão de que os produtos derivados da biomassa deveriam, para serem viáveis, tanto do ponto de vista econômico quanto ambiental, aproveitar a característica inerente da biomassa – moléculas oxigenadas e funcionalizadas – e não “imitar” a petroquímica. Partir dos açúcares e, com grande perda de massa, chegar às mesmas moléculas que a petroquímica deriva de forma muito fácil do petróleo ou do gás natural, não parece ser o caminho mais produtivo para a bioeconomia.  Quais seriam então os produtos mais promissores? Alguns estudos que tentam identificar esses produtos são bastante conhecidos. Continue lendo »

Bioeconomia em construção III – A chegado do etanol 2G: um passo importante para a inovação na bioeconomia

In biocombustíveis, etanol on 22/09/2014 at 00:15

Por José Vitor Bomtempo

vitor092014O etanol 2G foi durante muito tempo o foco das políticas de inovação voltadas para os biocombustíveis. Há cinco anos, os recursos aplicados pelo Biomass Program do Department of Energy (DOE), certamente o mais importante programa de inovação em biocombustíveis do mundo, se concentravam no etanol celulósico. O resultado esperado desse grande esforço de inovação estava refletido nas metas de consumo de etanol 2G do RFS (Renewable Fuels Standard).

Entre 2007 e 2009, mais de 30% dos recursos aplicados – US$ 200 milhões anuais, em média – eram dirigidos diretamente ao etanol celulósico. Somente em 2010 as aplicações em biocombustíveis não etanol e outros produtos se tornaram expressivas, atingindo em 2011 mais de 40% do total de recursos aplicados. Pouco se falava dos combustíveis drop in e dos demais bioprodutos, como químicos e plásticos, como alvo dos projetos inovadores. Entretanto, a produção comercial de etanol 2G, como não é raro em inovações mais ambiciosas, revelou-se uma meta muito mais difícil do que se esperava. Houve fracassos, decepções e mudanças de planos. Empresas deixaram de existir, como a Range Fuels. Projetos de demonstração pioneiros acabaram não se viabilizando em escala comercial, como o da Iogen. Projetos tiveram que rever seus conceitos iniciais, como o da Coskata que trocou a biomassa pelo gás natural como matéria-prima. Como consequência, as metas do RFS não foram atingidas no tempo previsto.

Finalmente, o etanol 2G – etanol baseado em materiais lignocelulósicos como resíduos agrícolas e florestais – parece estar se concretizando com o início de operação das primeiras plantas em escala comercial. Em 2013, começou a operar a planta da Beta Renewables (Grupo M&G) em Crescentino, na Itália. Em 2014, três outros projetos importantes estão iniciando a produção em escala: Du Pont e Poet/DSM, nos EUA, e Granbio, no Brasil. Ainda no Brasil, Raizen está concluindo também uma planta e Petrobras tem um projeto em definição. Os projetos americanos são baseados em resíduos agrícolas do milho, Granbio utiliza a palha da cana e Raizen o bagaço. Continue lendo »

Bioeconomia em construção II – Os grants e subvenções às empresas: comparando o Biomass Program do DOE e o PAISS do BNDES/FINEP

In biocombustíveis on 30/06/2014 at 00:15

Por José Vitor Bomtempo

vitor062014O título desta série destaca uma dimensão central da indústria baseada em biomassa que não podemos perder de vista em nossas análises: é uma indústria em construção, ainda sem definição clara das dimensões estruturais que caracterizam setores mais maduros. As entradas (e saídas) de novos competidores são numerosas e frequentes e os perfis desses competidores são também variados, de startups de base tecnológica a empresas estabelecidas de diversas origens e indústrias. Novas bases de conhecimento, com destaque para a biologia sintética, desafiam esses competidores que, configurando um cenário de corrida tecnológica, são com frequência apoiados por políticas de inovação.

A estruturação dessas políticas é particularmente notável no caso americano através do Department of Energy (DOE) e do Department of Agriculture (USDA) e no caso europeu através de diversas iniciativas da Comissão Europeia. No Brasil, a iniciativa conjunta BNDES/FINEP, conhecida como PAISS, deslanchada a partir de 2010, pode ser vista como a versão brasileira melhor estruturada, até agora, em políticas de inovação para a bioeconomia. Há estudos em andamento sobre a diversificação da indústria química (BNDES) e sobre as tecnologias prioritárias em química renovável (ABDI/CGEE, dentro do Programa Brasil Maior), mas não resultaram ainda em iniciativas concretas de políticas de inovação.

Um dos mecanismos de apoio às empresas envolvidas no desenvolvimento da bioeconomia tem sido a concessão de grants ou subvenções para as etapas de P&D, da bancada a plantas de demonstração, passando pelas plantas-piloto. Esse mecanismo é recente no Brasil e vem sido utilizado pela FINEP para apoio a diversos setores. As empresas brasileiras entretanto manifestam com frequência queixas quanto à relativa modéstia dos recursos destinados e à forma de concessão da subvenção econômica. Continue lendo »

Bioeconomia: as regras do jogo

In biocombustíveis on 28/04/2014 at 00:15

Por Miguel Vazquez

miguel042014Em uma postagem anterior, Jose Vitor Bontempo iniciou uma série dedicada a estudar a construção da bioeconomia. Esta postagem se propõe levantar algumas reflexões sobre a importância do desenho institucional para entender e orientar o desenvolvimento dessa indústria em construção.

A bioeconomia é um campo no qual numerosos jogadores interagem de forma complexa, mas essa não é uma situação estranha na vida cotidiana. Por exemplo, ir para o escritório envolve depositar a sua confiança em que um grande número de indivíduos se transladando a grandes velocidades vão respeitar as regras de circulação. O fato é que uma grande parte das nossas atividades está baseada na nossa capacidade de compreender as situações, de compreender o que pode e não pode ser feito; em resumo, as regras do jogo.

Uma das principais complexidades vem do fato de que essas situações não são fixas e individuais, elas dependem fortemente do contexto. Eu já fui reprendido por atravessar a rua com o semáforo fechado em Berlim, e exatamente pelo contrario (esperar a que o semáforo estivesse verde) no centro do Rio de Janeiro. O que pode e não pode ser feito depende do contexto.

Essa interação está intimamente relacionada com o que Elinor Ostrom chamou de action arenas. Isto é um tabuleiro de jogo para desenvolver um arcabouço teórico que descreve como as definições de regras, os atributos dos bens e os atributos das comunidades impactam nas decisões dos agentes envolvidos. Em outras palavras, compreender atividades econômicas (entre outras) vai além de compreender os aspetos tecnológicos. O objeto de estudo é a interação entre um número potencialmente grande de agentes. A pergunta então seria: a interação dos agentes deve nos preocupar no contexto da construção da bioeconomia? A minha resposta é sim: as regras contribuem para definir a evolução de uma indústria e as escolhas feitas por ela. E as regras dependem fortemente do contexto. Continue lendo »

Bioeconomia em construção I – Os fatores de competitividade na bioeconomia

In biocombustíveis on 31/03/2014 at 00:15

Por José Vitor Bomtempo

vitor032014Esta postagem inicia uma nova série de artigos. A diferença fundamental é que, coerente com a linha de raciocínio que foi sendo desenvolvido ao longo da série O futuro dos biocombustíveis”, a nova série aborda explicitamente a dinâmica de uma indústria em construção. Essa indústria envolve tanto biocombustíveis quanto bioprodutos e biorrefinarias. A indústria, seus produtos e configurações têm sido abarcados no conceito mais amplo de bioeconomia. O que é bioeconomia?

Vínhamos usando o termo bioeconomia na série anterior para designar a inserção da indústria de biocombustíveis num contexto maior, mais complexo e mais próximo das transformações em curso. Mas valeria aqui registrar algumas definições mais conhecidas. Um dos primeiros registros do uso recente do termo é o da OCDE, 2009:

the bioeconomy can be thought of as a world where biotechnology contributes to a significant share of economic output. The emerging bioeconomy is likely to be global and guided by principles of sustainable development and environmental sustainability. A bioeconomy involves three elements: biotechnological knowledge, renewable biomass, and integration across applications.

Dois registros mais recentes complementam e dão mais foco à definição da OCDE. A Comissão Europeia, no documento Innovating for sustainable growth: a bioeconomy for Europe, 2012, define que: Continue lendo »

O futuro dos biocombustíveis XIX – Encerrando a série e continuando o processo de construção da indústria baseada em biomassa

In biocombustíveis on 04/11/2013 at 00:15

Por José Vitor Bomtempo

vitor112013Nas 18 postagens anteriores procuramos discutir a evolução de uma indústria, associando-a a uma ideia de futuro. Na primeira postagem desta série, publicada em março de 2010, terminávamos com algumas perguntas que seriam a base das reflexões dos artigos a seguir:

Como será o amanhã? Que papel o Brasil poderá ter nessa indústria? A posição competitiva em etanol garante uma posição de liderança na indústria de exploração integrada das biomassas do futuro? Como estamos nos preparando para isso nas estratégias empresariais? Além das alianças e joint ventures, que esforços tecnológicos nossas empresas estão empreendendo? Que papel pretendem ter no futuro os atuais produtores de etanol? E a indústria química e petroquímica brasileira? E a PETROBRAS? Que políticas de ciência, tecnologia e inovação estão sendo colocadas em prática pelo MCT? São voltadas para o futuro da indústria e a criação de vantagens competitivas nas novas bases que estão sendo desenvolvidas? Ou são voltadas para a preservação das vantagens competitivas atuais, baseadas na bem sucedida indústria brasileira do etanol?”

Tomávamos como base a premissa de que a indústria de biocombustíveis estava se transformando e se tornando bem diferente da que então conhecíamos. Os produtos não se limitariam a etanol e biodiesel. Novas matérias-primas, novas tecnologias, novos modelos de negócios estavam sendo testados e trazendo em consequência uma transformação importante nas bases estruturais da indústria. Continue lendo »

O futuro dos biocombustíveis XVIII: Os dilemas dos produtos na bioeconomia

In biocombustíveis on 26/08/2013 at 00:15

Por José Vitor Bomtempo

vitor082013Nesta série de artigos, temos traçado uma visão da indústria baseada em matérias-primas renováveis (biobased industry) como um setor em estruturação, isto é, ainda sem estrutura industrial definida. Podemos dizer que o setor apresenta características de uma indústria emergente.

É importante então tentarmos entender o processo de estruturação da indústria. Que variáveis seriam críticas na definição estrutural da nova indústria? Na nossa série de artigos, diversos aspectos desse processo foram discutidos. Podemos identificar quatro variáveis chave cuja evolução, ou se preferirem co-evolução, está na base desse processo: matérias-primas, tecnologias de conversão, produtos e modelos de negócios. Nessa perspectiva, entender o processo de estruturação da indústria é entender a evolução de cada uma dessas variáveis e de suas inter-relações.

Discutimos hoje a dimensão “produtos”. Numa postagem anterior já tínhamos discutido que o etanol tendia a deixar de ser o produto dominante e que uma variedade de novos produtos estava em busca de espaço no mercado. Diversos dilemas cercam o desenvolvimento desses produtos, não só em biocombustíveis como, talvez em maior grau ainda, no caso dos bioprodutos químicos e bioplásticos.

A dimensão produtos é um espaço de importância crescente na estruturação do setor. A dinâmica inicial voltada para biocombustíveis orientou-se num primeiro momento para a produção de etanol e biodiesel. O problema era mais de desenvolver melhores tecnologias, isto é, melhores processos, para a produção de etanol e biodiesel. Esses dois produtos podem ser vistos como substitutos relativamente imperfeitos dos combustíveis de base fóssil. O etanol tem densidade energética inferior à gasolina em 30%; exige adaptação dos motores e estrutura dedicada de distribuição. O biodiesel em função das matérias-primas utilizadas pode ter comportamentos variados conforme as condições de temperatura ambiente. O aumento do teor de biodiesel na mistura depende de testes e avaliações para que os fabricantes de equipamento assegurem as garantias de seus produtos. Continue lendo »

O futuro dos biocombustíveis XVII: Competências para inovar e o futuro da indústria do etanol no Brasil

In biocombustíveis, etanol on 03/06/2013 at 00:10

Por José Vitor BomtempoFlavia Chaves Alves

vitor062013O etanol tem estado em evidência nos últimos meses.  Não tanto pela presença abundante e barata nas bombas como acontecia até 2008/2009. Mas pela discussão das dificuldades recentes do setor e das medidas governamentais para recuperar, ou não, a eficiência e a produtividade aparentemente perdidas. Numa postagem recente, aqui no Blog  Infopetro, Thales Viegas discutiu em detalhe algumas dessas medidas.

Acompanhando os boletins do site novaCana.com pode se ter uma boa perspectiva dos debates em curso: as reivindicações da indústria, as iniciativas do governo e as opiniões de analistas. Muitas questões têm sido colocadas: qual a natureza verdadeira da crise atual do setor?Preços da gasolina? Crise de investimento em decorrência da crise financeira de 2008? Por que a queda de produtividade? Efeito da mecanização? Do regime de chuvas? São suficientes as medidas do governo? O setor perdeu a sua competitividade tão alardeada antes da crise dos últimos 3 anos? Lembre-se que estudos estimavam à época que essa competitividade situava-se em torno de um preço de petróleo a 40 dólares o barril! Para uma discussão do custo de produção e da competitividade do etanol em relação ao preço do petróleo, na perspectiva de 2007, pode-se ver o estudo de Almeida, Bomtempo e Silva, publicado pela OCDE.

A quantidade e a variedade das questões alertam para o fato de que a indústria não enfrenta desafios apenas conjunturais, mas também, e talvez principalmente, estruturais. Assim, seguindo a linha de raciocínio desta série de artigos, o foco deve estar na indústria do futuro que traz grandes oportunidades para a exploração da cana de açúcar brasileira mas, ao mesmo tempo, grandes desafios.  Nossa tese de base tem sido que a indústria do futuro será  essencialmente diferente da que hoje conhecemos como  indústria sucroalcooleira. Essa transformação já se encontra em curso e movimenta um fluxo de inovações que faz parte da construção da chamada bioeconomia.

Logo, na perspectiva do futuro dos biocombustíveis e da indústria baseada em biomassa, a pergunta pode ser bem outra: qual a capacidade de inovação da indústria no Brasil? Esta postagem procura lançar esta discussão e abrir eventualmente uma linha de pesquisa estruturada em torno do futuro da indústria e de capacidade de inovação. Continue lendo »

O futuro dos biocombustíveis XVI – Perfis de empresas e as diferentes perspectivas em relação à bioeconomia

In biocombustíveis on 08/04/2013 at 00:15

Por José Vitor Bomtempo

vitor042013Na nossa série sobre o futuro dos biocombustíveis esteve sempre presente uma premissa de base: a indústria baseada em biomassa  é  um setor ainda não estruturado, com características de indústria emergente.  Nos artigos anteriores abordamos em diversas oportunidades as estratégias de diferentes empresas em biocombustíveis ou em bioprodutos, como Shell, BP, Petrobras, Braskem e Amyris.

Nesta postagem retomamos esse universo diversificado de empresas que têm se envolvido na bioeconomia e discutimos como os diferentes perfis de empresas apresentam diferentes perspectivas em relação ao desenvolvimento e estruturação da indústria. A caracterização desses diferentes perfis, das competências que cada um detém e das competências que  faltam a cada um pode ajudar a entender a dinâmica da indústria e do processo de estruturação em curso. Qual o papel dos diferentes atores na estruturação da indústria?

A estruturação da oferta da indústria biobased depende da evolução, ainda em curso, de um conjunto de variáveis. Esse processo evolutivo busca encontrar respostas aos múltiplos problemas a serem superados para viabilizar e consolidar comercialmente as oportunidades identificadas. Podemos considerar que essas soluções dependem de quatro espaços de estruturação que são, com efeito, espaços de inovações interdependentes. A estruturação da oferta do setor depende da dinâmica de inovação em: Continue lendo »

O futuro dos biocombustiveis XV: A difícil transição em 2012 e o caso da Metabolix

In biocombustíveis on 21/01/2013 at 00:58

Por José Vitor Bomtempo e Fabio Oroski*

vitor012013O começo do ano é sempre o momento de alguma reflexão e balanço. O ano de 2012 foi sem dúvida muito mais de dificuldades do que de realizações para os projetos inovadores na bioeconomia. Numa revisão do que teria ocorrido de importante em 2012 em inovação em energia, o MIT Technology Review destacou como os avanços dos renováveis, mesmo se alguns deles possam ter sido notáveis, parecem pálidos diante do impacto do shale gas nos EUA.

O shale gas tem atraído inclusive o interesse de empresas com projetos em biocombustíveis que tentam reconverter os seus processos para o uso de gás natural no lugar de biomassa. É o caso, por exemplo, da Coskata que decidiu substituir em sua primeira planta de escala comercial a biomassa por gás natural. O gás natural será convertido em  gás de síntese que será transformado por fermentação em etanol e outros produtos.  Calysta Energy , uma startup anunciada recentemente, pretende aplicar a biotecnologia para converter gás natural em diesel. Continue lendo »

O futuro dos biocombustiveis XIV: Qual o sentido das políticas públicas e industriais para o futuro dos biocombustíveis?

In biocombustíveis on 22/10/2012 at 00:15

Por José Vitor Bomtempo

As crises e problemas do etanol e do biodiesel recolocam com frequência a questão das políticas de apoio aos biocombustíveis. Têm sentido essas políticas? Qual a direção e foco que devem ter?

Na perspectiva da abordagem que temos desenvolvido nesta série de artigos, essas políticas devem antes de tudo ter como orientação a indústria do futuro, o que significa ter como ponto de partida o conjunto da bioeconomia e não se ater apenas aos biocombustíveis. Isso quer dizer que o centro do problema é a exploração da biomassa para gerar de forma econômica e sustentável produtos de valor para a economia do século XXI e para buscar a inserção competitiva da indústria brasileira nessa indústria em construção.

A agenda brasileira, que se originou e teve resultados notáveis com foco em biocombustíveis, tem sido de certa forma tímida na transição para uma agenda mais ambiciosa e ampla voltada para a bioeconomia como um todo. Iniciativas como a do PAISS – Plano BNDES-FINEP de Apoio à Inovação dos Setores Sucroenergético e Sucroquímico –, já discutido em postagens anteriores, e a iniciativa em curso do Plano Brasil Maior – identificação de tecnologias emergentes em Química Verde a serem apoiadas com a perspectiva de conferir à indústria química brasileira competitividade e capacidade de inovação – são exemplos desse processo de transição. Continue lendo »

O futuro dos biocombustíveis XIII: a matéria-prima como fator estruturante da indústria

In biocombustíveis on 30/07/2012 at 00:15

Por José Vitor Bomtempo

Na formação da bioindústria do futuro, os problemas, desafios e oportunidades situam-se em quatro dimensões-chave: matérias-primas, processos ou tecnologias de conversão, produtos e estratégias/modelos de negócio. Na postagem X tínhamos discutido um importante ponto das matérias-primas: a busca de açúcares ou substratos fermentáveis, essenciais para os processos biotecnológicos e alguns processos químicos.

Nesta postagem, discutimos a questão das matérias-primas de uma perspectiva mais geral: que efeitos a adoção de uma nova matéria-prima poderia ter sobre a estrutura da indústria? Que lições poderíamos tirar dos processos de adoção de novas matérias-primas, como o do carvão no final do século XIX, e de processos de transição, como o da passagem para petróleo e gás natural no século XX? Que desafios têm que ser vencidos para que uma indústria baseada em biomassa possa amadurecer?

A adoção de um tipo de matéria-prima deve ser vista como um elemento que exerce uma influência importante na estrutura da indústria. Por isso, a transição de um tipo de matéria para outro é um tema central na história da indústria química orgânica. Spitz, no seu livro Petrochemicals: the rise of an industry, defende a tese de que a disponibilidade de matéria-prima, e não tecnologia ou mercado, tem sido o direcionador chave da indústria. Continue lendo »

O futuro dos biocombustíveis XII – As novas empresas da bioindústria e o Brasil: comparando Amyris, Solazyme e LS9 *

In biocombustíveis on 14/05/2012 at 00:15

Por José Vitor Bomtempo e Flávia Chaves Alves

Os resultados do Plano Conjunto BNDES-Finep de Apoio à Inovação Tecnológica Industrial dos Setores Sucroenergético e Sucroquímico (PAISS)  são muito interessantes para se compreender o processo de desenvolvimento da bioindústria no Brasil. Um dos pontos que saltam aos olhos ao consultar a relação das empresas selecionadas é a presença de start ups americanas que estão realizando ou pretendem realizar investimentos no Brasil para desenvolver seus projetos de inovação. Esse fenômeno foi mencionado na nona postagem dessa série. Apresentamos hoje uma reflexão inicial de uma pesquisa em andamento que tem por objetivo entender a natureza desse processo na construção da bioindústria e sua relação com a inovação no Brasil.

Fizemos uma comparação entre três importantes start ups da bioindústria – Amyris, Solazyme e LS9 – que estão desenvolvendo parte de seus projetos de inovação no Brasil e tiveram seus planos de negócios selecionados pelo PAISS. Continue lendo »

O futuro dos biocombustíveis XI: 2011 – ano 1 da era pós-etanol?

In biocombustíveis on 27/02/2012 at 00:15

Por José Vitor Bomtempo

A revista Technology Review, editada pelo MIT, divulgou no final do ano passado um interessante balanço das inovações em energia em 2011. O relato resume os sucessos e fracassos; as surpresas e decepções do ano nos diversos segmentos da área de energia.  Em biocombustíveis, foram destacados dois pontos: o início da produção da Amyris e o surgimento de um grupo de empresas que anunciam processos inovadores para a obtenção de açúcares a baixo preço a partir de materiais lignocelulósicos.  Esta corrida pelo açúcar, vista hoje como uma passagem crítica para o futuro da bioindústria, foi destacada no nosso artigo anterior.

Mas como poderíamos sintetizar o ano de 2011 dentro da perspectiva do futuro dos biocombustíveis e da bioindústria? O ponto de partida do primeiro artigo desta série, publicado em 29 de março de 2010, foi bem enfático: “a indústria de biocombustíveis do futuro será bem diferente da que conhecemos hoje”. A indústria estaria em transformação e se afastando da lógica inicial centrada nos chamados biocombustíveis de primeira geração: etanol e biodiesel.  Ao longo dos dois últimos anos tentamos acompanhar esse processo de transformação.  Ao revermos a evolução da agenda em torno dos biocombustíveis, parece-nos que o último ano marcou o que poderia ser o “ano 1 da era pós-etanol”. Continue lendo »

O futuro dos biocombustiveis X: as duas corridas do açúcar

In biocombustíveis on 21/11/2011 at 00:15

Por José Vitor Bomtempo

Na corrida para desenvolver os novos processos e produtos que formarão a bioindústria do futuro, a busca por matérias primas adequadas, principalmente no caso dos processos baseados em biotecnologia, é um ponto estratégico. À medida que alguns projetos inovadores tentam ultrapassar o estágio piloto e fazer o scale up para o de demonstração e o comercial, a garantia do acesso à matéria prima torna-se crítica. Para muitos desses processos, e provavelmente para os mais inovadores, o açúcar é a matéria prima de eleição.

Instala-se em consequência uma verdadeira corrida do açúcar que tem ares de uma corrida do ouro para os bioprocessos. Aliás, evidenciaram-se nos últimos meses não apenas uma, mas duas corridas do açúcar: uma mais imediata e de natureza comercial/estratégica para assegurar o melhor açúcar que existe hoje – o da cana de açúcar brasileira – e a outra de natureza tecnológica para buscar o abundante açúcar que existe nas plantas em geral  (2/3 do material lignocelulósico é composto de açúcares: celulose e hemicelulose). Continue lendo »

O futuro dos biocombustiveis IX: A diversidade de estratégias e o futuro da bioeconomia – comparando Shell, Braskem e Amyris

In biocombustíveis on 05/09/2011 at 00:10

Por José Vitor Bomtempo (*)

Em postagens anteriores, exploramos as estratégias das empresas de petróleo em biocombustíveis. Em particular, discutimos os movimentos de Shell, BP, Petrobras e Total. A principal conclusão a que se pode chegar a partir dessas análises é a de uma diversidade de visão e de abordagem do negócio “biocombustíveis”.

Na postagem de hoje vamos estender a discussão sobre a diversidade de estratégias que podem ser observadas no desenvolvimento da bioeconomia fazendo uma comparação entre Shell, Braskem e Amyris. Essa comparação ilustra a notável variedade de estratégias de inovação e de iniciativas empreendedoras que marca a construção da indústria de bioprodutos.

São centenas de projetos em andamento pelo mundo afora envolvendo start-ups de base tecnológica ao lado de empresas estabelecidas em diferentes indústrias tais como petróleo e gás, química, biotecnologia, e  agroindústria. Como as empresas estão construindo suas trajetórias na nova indústria? Essas estratégias são convergentes ou divergentes?

Procurar uma tipologia das estratégias e iniciativas pode ajudar na compreensão do processo em curso. Esta postagem é uma tentativa inicial de buscar elementos para a construção dessa tipologia. Continue lendo »

O futuro dos biocombustiveis VIII: Os contrastes das estratégias das grandes empresas de petróleo e o futuro da bioeconomia

In biocombustíveis on 04/07/2011 at 00:26

Por José Vitor Bomtempo

O recente Ethanol Summit organizado pela UNICA, em São Paulo, nos dias 6 e 7 de junho, nos pareceu um evento interessante para a linha de raciocínio que temos desenvolvido nesta série de artigos. De certa forma, o Ethanol Summit colocou com clareza – pela primeira vez, me parece, num evento desse peso no Brasil – a questão da indústria do futuro. Claro que muitos assuntos de interesse específico da indústria brasileira de etanol foram destacados e preencheram boa parte da pauta, mas algumas plenárias e as mesas sobre Futuro e Tecnologia se dedicaram a questões não tão imediatas.

Aproveitando a deixa do Ethanol Summit, propomos uma mudança neste blog que nos parece coerente com o que temos desenvolvido: não falaremos mais de biocombustíveis do futuro mas da nova indústria que inclui além de biocombustíveis, bioenergia, bioprodutos, biorrefino e outros bios que surjam. Que nome dar a essa indústria?   Ficamos, como sugestão inicial, com bioeconomia, que nos parece bastante abrangente. Assim, podemos dizer que o Ethanol Summit nos proporcionou a discussão de uma série de questões ligadas ao desenvolvimento da bioeconomia no mundo e no Brasil em particular. Aliás, todos os vídeos das plenárias e conferências podem ser assistidos aqui.

Vamos destacar nesta postagem a plenária que teve por titulo O futuro do petróleo e o papel dos biocombustíveis. A plenária reuniu executivos das quatro empresas de petróleo mais importantes em biocombustíveis: BP, Petrobras, Shell e Total. Continue lendo »